Evan Vucci / AP
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Trump defende governo saudita das acusações de ligação com desaparecimento de jornalista

Presidente mostra apoio ao príncipe herdeiro Mohamed bin Salman e compara situação com caso do juiz Brett Kavanaugh; jornal turco diz que Jamal Khashoggi foi torturado antes de ser ‘decapitado’

O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2018 | 06h50
Atualizado 17 de outubro de 2018 | 13h14

BEIRUTE - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defendeu na terça-feira, 16, a Arábia Saudita das acusações de envolvimento na morte do jornalista Jamal Khashoggi - desaparecido desde o dia 2 de outubro - e mostrou apoio ao príncipe herdeiro Mohamed bin Salman

O saudita é acusado de ligações com o desaparecimento e possível morte de Khashoggi dentro do consulado da Arábia Saudita em Istambul. Em uma entrevista à agência de notícias Associated Press, Trump afirmou: “Aqui vamos nós de novo com ‘você é culpado até que provem o contrário’. Não gosto disso”. 

O republicano também fez um paralelo com o caso do juiz indicado por ele à Suprema Corte, Brett Kavanaugh, acusado por algumas mulheres de abuso sexual. “Acho que primeiro temos de descobrir o que aconteceu”, disse Trump. “Passamos por isso com Kavanaugh. E ele era inocente.”

No mesmo dia, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, desembarcou em Riad para conversar com o rei Salman sobre o caso. Após as reuniões, ele emitiu um comunicado dizendo que os líderes sauditas prometiam uma “investigação completa, transparente e oportuna” sobre o que aconteceu com Khashoggi depois que ele entrou no consulado. Trump e Pompeo ressaltaram que as autoridades sauditas negaram repetidamente qualquer envolvimento no desaparecimento do jornalista. 

Segundo Pompeo, Riad não excluirá ninguém das investigações. Os líderes sauditas "prometeram exigir explicações de todas as pessoas cuja investigação indique que devem prestar contas", disse o secretário de Estado a jornalistas antes de viajar para Ancara, onde se reunirá com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e com o ministro das Relações Exteriores, Mevlut Cavusoglu

Questionado se este compromisso envolveria até os membros da família real saudita, Pompeo respondeu que "não fizeram qualquer exceção sobre quem deverá prestar contas e foram muito claros". 

Khashoggi era um crítico do poder saudita e trabalhou para o jornal The Washington Post. De acordo com funcionários turcos, ele foi assassinado no consulado por agentes do reino saudita.

Suspeitos

Um dos homens identificados pelas autoridades turcas como agente enviado a Istambul faz parte do entorno de Bin Salman, afirmou o jornal The New York Times. A publicação diz que Maher Abdulaziz Mutreb acompanhou o príncipe em sua viagem aos EUA em março, assim como a Madri e a Paris um mês depois, e menciona outros três suspeitos vinculados, por testemunhas e outras fontes, aos serviços de segurança do herdeiro.

Um quinto homem, identificado como Salah al Tubaigy, ocupou cargos de alta responsabilidade no Ministério do Interior saudita e na área médica, completou o jornal, ao afirmar que "uma personalidade deste nível só pode ser comandada por uma autoridade saudita de alta patente". O NYT afirma ainda ter confirmado que "ao menos 9 dos 15 (suspeitos) trabalharam para os serviços sauditas de segurança, o Exército ou outros ministérios".

O Washington Post afirmou que 11 dos 15 suspeitos mencionados pelas autoridades turcas estão vinculados aos serviços de segurança sauditas. Para o NYT, o fato de os suspeitos terem relação com o governo e o príncipe herdeiro "poderia tornar muito mais difícil absolvê-lo de qualquer responsabilidade" no desaparecimento de Khashoggi.

Torturado e decapitado

Para o jornal Yeni Safak, ligado ao governo turco, o jornalista foi torturado antes de ser "decapitado" durante um interrogatório na sede diplomática e teve seus dedos cortados. O veículo cita uma gravação de áudio dos fatos.

As autoridades turcas acusam Riad de ter ordenado o assassinato do jornalista a uma equipe enviada ao consulado. O governo saudita nega. Nos últimos dias, alguns meios de comunicação para o qual Khashoggi escrevia informaram sobre a existência de gravações de áudio e vídeo que provam que ele foi "interrogado, torturado e assassinado" no prédio. O seu corpo teria sido esquartejado. / NYT, AP e AFP

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