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Trump demolirá a UE?

Hoje, como muitos outros dirigentes, a chanceler alemã observa o percurso caótico da França com inquietação

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

23 de novembro de 2016 | 05h00

Barack Obama concluiu sua turnê de despedida no território europeu. Mal se livrou da miserável campanha presidencial americana, ele tomou o avião para a Europa e desembarcou na Alemanha. Lá, ele expressou seu respeito extremo, sua admiração, pela chanceler Angela Merkel.

Obama disse que Angela Merkel foi uma “parceira extraordinária” durante os dois mandatos que o líder americano cumpriu à frente da Casa Branca. A chanceler, indagada se disputaria um quarto mandato nas eleições legislativas em setembro, respondeu que ainda não se decidira. E o presidente americano afirmou: “Se fosse alemão, votaria nela”. Esta semana, ela confirmou que concorrerá.

Mas, e se Obama fosse francês, votaria em François Hollande? A pergunta não lhe foi feita, mas imaginamos qual seria a resposta. Não. O presidente americano, no entanto, simpatiza com Hollande. Chegamos mesmo a ver os dois em algumas ocasiões rindo juntos ou se provocando.

Para coisas sérias, no entanto, Obama se dirige a Merkel. Ela inspira um verdadeiro respeito da parte dele. Ele escuta as análises que ela faz e mesmo seus conselhos.

Em Paris observamos uma certa irritação quando foi informado que Obama só visitaria dois países europeus, a Grécia, porque é o berço da democracia, e a Alemanha porque é o “baluarte da Europa”. E a França? Não é forte?

Não há tempo, foi a resposta de Washington. E imediatamente o francês, o italiano, o espanhol e o britânico foram para Berlim se encontrar com Obama e Merkel para uma reunião a seis. François Hollande não vai se manifestar sobre tal reunião. Talvez não esteja contente. Verdade! A França é um membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. E, há poucos meses, França e Alemanha constituíam o “motor” da União Europeia. Mas hoje esse motor está fora de serviço porque Hollande, imobilizado na sua impopularidade, não pode mais assumir tal papel ao lado de Angela Merkel. A chanceler está só.

No ano passado, observamos uma viva tensão entre Paris e Berlim, quando a chanceler, num gesto louco e generoso, abriu as fronteiras do país e acolheu mais de um milhão de imigrantes. Na Europa, sua decisão foi mal compreendida. “Essa mulher é uma irresponsável. Vai lançar sobre nós uma multidão de jihadistas”. Naquele momento delicado, a chanceler não recebeu apoio de Hollande. Pior ainda: a França criticou a decisão dela. Em Berlim, esse abandono foi muito mal aceito.

A chanceler lamenta o enfraquecimento da França. Não vê em quem se apoiar. Na Europa, de Roma a Madri ou Atenas, todos estão incapacitados, sem falar nos países orientais da Europa obcecados pelo seu ódio a imigrantes e fascinados pelo fascismo.

Havia os EUA de Obama, mas Obama está partindo. E Donald Trump não agrada muito à chanceler. Ao ser eleito, Merkel o cumprimentou, mas de modo peculiar. Ela o aconselhou a respeitar a democracia e não ceder à xenofobia.

Hoje, como muitos outros dirigentes, a chanceler alemã observa o percurso caótico da França com inquietação. Muitos temem que Marine Le Pen chegue ao poder. Aos olhos dos alemães isso seria um verdadeiro drama para a França, para os seus vizinhos e o continente inteiro. Para os mais pessimistas, a União Europeia não sobreviverá a um choque como esse. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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