REUTERS/Leah Millis
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Trump despreza os seus próprios cientistas sobre dados da pandemia

Em campanha eleitoral, presidente americano contradiz autoridades de saúde pública sobre a vacina e a pandemia que já contaminou 6,6 milhões de pessoas no país

Peter Baker / The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2020 | 12h10

WASHINGTON - O presidente Donald Trump rejeitou nesta semana, mais uma vez, as conclusões científicas profissionais de seu próprio governo sobre as perspectivas de uma vacina contra o coronavírus e a eficácia das máscaras para conter o avanço da pandemia. Enquanto isso, o número de mortes nos Estados Unidos decorrentes da covid-19 se aproxima de 200 mil e os contágios superam a casa dos 6,6 milhões de pessoas.

Em uma exibição notável até mesmo para ele, Trump criticou publicamente o Dr. Robert R. Redfield, diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, e prometeu que uma vacina poderia estar disponível em semanas e ir "imediatamente" para o público geral, o que diminuiria a utilidade das máscaras. 

Os comentários do presidente o colocaram em desacordo com o C.D.C., a principal agência de saúde pública do mundo, durante uma pandemia que ele insiste que está "virando a esquina" para o fim. Trump fez as declarações poucas horas depois de Redfield dizer a um comitê do Senado que uma vacina não estaria amplamente disponível até meados do próximo ano e que as máscaras são vitais. 

“Acho que ele cometeu um erro ao dizer isso”, disse Trump aos repórteres. "São informações incorretas. A vacina irá para o público imediatamente", insistiu o presidente. "Sob nenhuma circunstância será tão tarde quanto o médico disse".

Quanto à conclusão de Redfield de que as máscaras podem ser mais úteis do que uma vacina, Trump disse que "ele cometeu um erro", sustentando que uma "vacina é muito mais eficaz do que as máscaras".  

Mensagem incoerente

As mensagens divergentes minam ainda mais qualquer esforço para forjar uma resposta coerente ao vírus que o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, chamou de ameaça número um de segurança global no planeta. 

Com Trump dizendo uma coisa e seus conselheiros de saúde dizendo outra, muitos americanos têm de descobrir por conta própria em quem acreditar, com pesquisas anteriores mostrando que eles têm mais fé nos especialistas do que em seu presidente.

Presidente ignora fatos e evidências

A repreensão pública a Redfield foi apenas a última, mas talvez a mais gritante ocasião em que o presidente rejeitou não apenas o conselho de seus funcionários de saúde pública, mas os fatos e informações.

Autoridades de saúde pública concordam sobre o valor das máscaras, mesmo quando Trump se recusa a usar uma, zomba do candidato democrata Joe Biden por fazê-lo e questiona sua utilidade.  

É consenso entre autoridades sanitárias que levará muitos meses antes que uma vacina possa ser distribuída para a população, permitindo que a vida comece a voltar ao normal. 

Segundo o relato de Trump, ele ligou pessoalmente para Redfield após a audiência de quarta para contestar seu depoimento, fortalecendo discussões sobre a pressão em cientistas que deveriam estar isolados da política partidária.

Mas com as eleições se aproximando, Trump pretende convencer o público de que o pior já passou. Ele não expressou arrependimento sobre como lidou com a pandemia, mesmo com o aumento do número de mortos. “Fizemos um ótimo trabalho, exceto em termos de relações públicas. Meu pessoal foi derrotado”, disse em entrevista na quarta.

O ex-vice-presidente Joe Biden disse que a fixação de Trump no calendário eleitoral ao declarar quando uma vacina estará disponível prejudica sua própria credibilidade. "Eu confio em vacinas. Eu confio nos cientistas. Mas eu não confio em Donald Trump", disse Biden. “E, neste momento, o povo americano também não pode (confiar em Trump)". 

Em sua audiência no Senado, o Dr. Redfield disse que as vacinas podem estar disponíveis em novembro ou dezembro, mas apenas uma "oferta muito limitada" no início, que iria para profissionais de saúde e os americanos mais vulneráveis.

Essa vacina não seria amplamente distribuída até o próximo verão ou até mais tarde, disse ele ecoando comentários recentes do Dr. Anthony S. Fauci, o principal especialista em doenças infecciosas do governo.

"Se você está me perguntando quando ela estará disponível ao público americano para que possamos começar a voltar à vida normal, provavelmente estamos olhando para o final do segundo trimestre ou para o terceiro trimestre 2021", disse. 

Ele também chamou as máscaras de "a ferramenta de saúde pública mais importante e poderosa que temos" no combate à pandemia, acrescentando que o uso universal de coberturas faciais pode controlar a pandemia em meses.

“Eu poderia ir mais longe e dizer que esta máscara facial tem mais garantia de me proteger contra covid do que quando eu tomo uma vacina contra a covid”, disse Redfield, lembrando que vacinas não são 100% eficazes.

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