Trump destruiu seu partido

Pré-candidato usou ano de 2015 para obrigar os líderes republicanos a se adaptar a ele

Eugene Robinson, THE WASHINGTON POST

31 de dezembro de 2015 | 03h00

A história lembrará de 2015 como o ano em que o Partido Republicano que conhecíamos foi destruído por Donald Trump. Uma entidade chamada GOP (Grand Old Party) sobreviverá - mas jamais será a mesma.

Acaso estarei exagerando o “efeito Trump”, dado que ainda não foi colocado um único voto nas urnas? Não acredito. Não sei se é possível exagerar até que ponto Trump destroçou o partido, revelando um abismo entre o establishment e a base grande demais para ser transposto pela ultrapassada retórica da era Reagan. Alguém pode imaginar as legiões de Trump se alinhando docilmente atrás de Jeb Bush ou do senador Marco Rubio? Nem eu consigo.

Trump não destruiu o partido sozinho. Teve a ajuda de um grupo de pré-candidatos à presidência, aclamados como preparados e talentosos, mas que se revelaram fracos e superficiais. Jeb angariou recursos na base do “choque e do pavor”, como a campanha de seu irmão no Iraque, mas agora demonstra carecer da habilidade da família na cena nacional. Rubio é o “queridinho do professor” que fala de maneira eloquente na classe, mas não faz o dever de casa. O governador de New Jersey, Chris Christie, exibiu reações lentas, talvez por ter ficado preso no trânsito na Ponte George Washington.

A campanha foi dominada por três candidatos que, passando por cima do establishment, apelam diretamente para a base indisciplinada: o senador Ted Cruz, que nega o fato de ser um senador em exercício travando uma guerra sem quartel contra a liderança do partido; Ben Carson, um renomado neurocirurgião que parece cada vez mais fora de sua área de competência; e Trump, inegavelmente favorito.

O que Trump faz é interpelar o establishment a respeito de anos de retórica desonesta. Os progressistas frequentemente indagaram por que tantos brancos da classe trabalhadora se rebelaram contra os próprios interesses econômicos apoiando os republicanos. A resposta é que o partido apelava a esses eleitores usando pressupostos culturais, explorando sutilmente seus ressentimentos e temores.

A demografia do país está mudando, com uma população latina em crescimento acelerado - e um negro na Casa Branca. A globalização depauperou a classe média. O país é vulnerável ao terrorismo e não há como impor uma pax americana ao mundo multipolar de hoje.

O Partido Republicano prometeu - com acenos e mensagens enganosas - mudar tudo isso e trazer de volta o mundo de antes. Na prática, os líderes do partido foram obrigados a lidar com o mundo de hoje. Daí, por exemplo, o fato de o establishment vir demonstrando visão favorável a uma reforma abrangente da imigração.

Surgiu, então, Trump, que tem a temeridade de ressaltar que o establishment diz uma coisa, mas faz outra. Ele lançou sua campanha desmascarando o blefe do partido a respeito da imigração - se os 11 milhões de pessoas que vivem nos EUA sem documentos são de fato “ilegais”, como o partido proclama em alto e bom som, então, que sejam mandadas de volta.

Outros candidatos foram colocados na situação de ter de explicar por que, ao permitirem que os ilegais ficassem, tinham posições parecidas com a de Obama - a quem eles haviam duramente criticado por ser um tanto “light” na questão da imigração.

Do mesmo modo, muitos líderes republicanos tomaram o cuidado de não ofender os “birthers”, que negam a legitimidade de Obama como presidente, questionando seu local de nascimento. Trump, imperturbável membro de tal comunidade antes de ser candidato, persiste em não querer afirmar se aceita o fato comprovado de que Obama nasceu nos EUA.

Há muito tempo o partido procura capitalizar com o medo do terrorismo criticando asperamente o fato de o presidente não usar a frase “terrorismo islâmico radical” - como se a semântica pudesse levar à paz à Síria. Após o ataque em San Bernardino, na Califórnia, Trump exigiu que se proibisse o ingresso dos muçulmanos no país. Outros candidatos tiveram de dar marcha à ré e lembrar aos eleitores que George W. Bush deixou claro que sua “guerra ao terror” não era uma guerra ao Islã. Trump se tornou a voz da grosseria e da raiva que o partido encorajou e explorou durante anos.

É possível que o partido indique Trump para concorrer à presidência, mas, se isso acontecer, o establishment terá perdido todo o controle. Ou, talvez, seus líderes encontrem uma maneira de derrotá-lo e, nesse caso, terão perdido a confiança da maior parte da base. Em ambos os casos, o Partido Republicano que conhecemos terá se tornado irremediavelmente uma coisa do passado. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

EUGENE ROBINSON É COLUNISTA

 

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