Bloomberg photo by Chris Kleponis
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Ex-secretário de Justiça de 'Bush pai' deve voltar ao cargo com Trump

William Barr, que defende os poderes do Executivo para governar sem o Congresso, ficará responsável pela investigação especial sob suposta interferência russa nas eleições de 2016

O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2018 | 16h01

WASHINGTON - O presidente americano, Donald Trump, afirmou nesta sexta-feira, 7, que indicará William P. Barr, que foi secretário de Justiça no governo de George H. W. Bush (1991 a 1993) para comandar novamente o Departamento de Justiça

"Ele foi a minha primeira escolha desde o primeiro dia", disse Trump a repórteres na Casa Branca antes de embarcar para Kansas City, Missouri. "Ele será nomeado."

A escolha de Trump por Barr, que apoia fortemente os poderes do Executivo, tem ganhado força na última semana após a saída, no mês passado, do secretário de Justiça Jeff Sessions e a recepção turbulenta que teve a indicação de Matthew G. Whitaker como secretário interino. 

A movimentação no Departamento de Justiça é parte de uma ampla mudança de cargos que ocorre na administração Trump. 

O presidente também anunciou que a porta-voz do Departamento de Estado, Heather Nauert, será sua escolha para ser embaixadora dos EUA na ONU, no lugar de Nikki Haley, que deve deixar o cargo este mês

Trocas

Segundo o New York Times, citando duas fontes, John F. Kelly, o chefe de gabinete da Casa Branca, deve deixar seu posto nos próximos dias, encerrando um dos mais longos períodos tumultuosos para um conselheiro direito de Trump.

Kelly e Trump teriam se cansado um do outro. Mas Trump, de acordo com as fontes do Times e próximas do presidente,  até agora não teria conseguido comprar a briga de se demitir pessoalmente um general quatro estrelas aposentado. 

Não está claro quem irá substituir Kelly. Nick Ayers, o chefe de gabinete do vice-presidente, Mike Pence, é visto como um candidato provável. Ele tem o apoio de Jared Kushner, genro,  e Ivanka Trump, filha do presidente - ambos trabalham como conselheiros do presidente na Casa Branca. Segundo fontes do Times, o casal tem tentado expandir sua influência interna e na campanha de reeleição de Trump. 

Enquanto o presidente tem total autonomia para substituir Kelly, Barr terá de ser confirmado pelo Senado, onde o partido do presidente tem maioria. 

Na quinta-feira, quando cresceram as expectativas para que Barr fosse anunciado, o senador John Cornyn, do Texas, segundo republicano mais importante no Senado, disse que Barr era uma "escolha muito boa" e acreditava que o partido tivesse os votos necessários para confirmá-lo. No entanto, a votação será um dos maiores testes para um secretário de Justiça americano em razão da investigação especial que é conduzida dentro do departamento. 

Barr tem criticado aspectos dessa investigação, que apura se houve interferência russa nas eleições de 2016. Ele chegou a sugerir que o promotor especial Robert S. Mueller III contratou procuradores demais que fizeram doações para campanhas do Partido Democrata. 

O ex-secretário do governo Bush tem apoiado os pedidos do presidente Trump sobre uma nova investigação criminal contra sua antiga oponente nas eleições presidenciais, Hillary Clinton, incluindo uma sobre um acordo de mineração de urânio aprovado durante a administração Obama, quando ela era a secretária de Estado. 

"Não há nada de errado em o presidente pedir uma investigação", disse Barr ao New York Times no ano passado. "Embora uma investigação não deva ser lançada apenas porque um presidente a quer, a questão final é saber se há justificativa para ela."

Na opinião de Barr, há mais bases para uma investigação sobre o acordo de urânio do que qualquer suposta conspiração entre associados a Trump e a Rússia. 

Graduado em direito pela Universidade George Washington, Barr, de 68 anos, começou sua carreira nos anos 70 trabalhando para a CIA (agência de Inteligência americana) e, mais tarde, para a Casa Branca de Ronald Reagan antes de deixar o serviço público para ir advogar. Em 1989, o presidente George Bush o escolheu para chefiar uma seção no Departamento de Justiça. Depois, ele foi elevado a subsecretário de Justiça e, em seguida, a secretário de Justiça. 

Após a administração Bush, Barr passou a maior parte de sua carreira pós-governo como o chefe dos advogados da companhia de telecomunicação que viria se tornar a Verizon, onde ele se aposentou em 2008. Mais tarde, ele se associou ao escritório de advocacia Kirkland & Ellis. 

Em uma palestra em novembro de 1992, Barr expôs seu conceito de um secretário de Justiça ideal. Para ele, a lealdade máxima deve ser para com o Estado de direito, não com o presidente que o escolheu, dizendo que ele deve ter um "aconselhamento jurídico direto e sem retoques" sem qualquer ligação com considerações políticas ligadas ao que eventualmente a Casa Branca possa preferir. 

Ele afirma ainda que em sua experiência, ele nunca se deparou com um conflito entre sua missão de garantir a lei e  preferências políticas ligadas ao presidente. No entanto, não coincidemente, Barr desenvolveu uma reputação de ser um proponente defensor da teoria de que o presidente tem autoridade constitucional para agir sem permissão do Congresso e desafiar estatutos.

Como secretário de Justiça, Barr também terá um grande controle sobre o sistema de justiça criminal, o que preocupa os defensores de uma reforma desse sistema. Barr não apenas tem um histórico de apoio à guerra às drogas e ao encarceramento em massa, como foi o arquiteto, enquanto secretário de Bush, de políticas federais que sustentam essas medidas. / NYT




 

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