Eric BARADAT / AFP
Eric BARADAT / AFP

Relatório de Mueller detalha elo com russos e ações de Trump contra investigação

Departamento de Justiça dos EUA entrega ao Congresso conclusões do procurador Robert Mueller, que descrevem um cenário mais comprometedor do que aquele relatado em março pelo governo, embora ainda sem imputar crimes ao presidente

Beatriz Bulla, Correspondente / Washington

18 de abril de 2019 | 16h39
Atualizado 19 de abril de 2019 | 10h11

WASHINGTON - Depois de dois anos de investigação, o relatório do procurador especial Robert Mueller sobre a possível interferência da Rússia nas eleições americanas de 2016 foi divulgado nesta quinta-feira, 18. Apesar de o presidente americano, Donald Trump, comemorar o que considera uma "exoneração completa" da prática de crimes, os detalhes da investigação apontam numerosos contatos entre os assessores do republicano durante a campanha eleitoral e oficiais russos.

Além disso, a análise sobre a possível tentativa de obstrução de Justiça praticada por Trump é mais grave do que o secretário de Justiça, William Barr, havia sugerido até agora. O próprio presidente disse a assessores acreditar que a investigação levaria ao fim de sua presidência.

O Kremlin afirmou nesta sexta-feira, 19, que o relatório não ofereceu nenhuma evidência confiável sobre um conluio na campanha de 2016.

Mueller afirma no relatório que aplicou os padrões legais de que não poderia acusar Trump pelo crime de obstrução, o que não exonera o presidente de ter tentado atrapalhar as investigações. “Se nós tivermos confiança, após uma investigação minuciosa dos fatos, de que o presidente claramente não cometeu obstrução da justiça, nós o declararíamos. Com base nos fatos e padrões legais, não pudemos chegar a esse julgamento”, escreveu o procurador no relatório.

“A evidência que obtivemos sobre as ações e intenções do presidente apresenta questões difíceis que precisariam ser resolvidas se estivéssemos fazendo um julgamento tradicional de promotoria", escreveu o procurador no relatório. 

O relatório aponta que Trump reagiu quando soube que um procurador especial havia sido designado para conduzir as investigações sobre a conspiração com a Rússia. O presidente teria dito aos seus assessores que Jeff Sessions, então Secretário de Justiça dos EUA, deveria ser exonerado.

Trump reconheceu as ameaças políticas da investigação, sugeriu que havia conflito de interesse na indicação de Mueller. Os assessores do presidente, então, o informaram que qualquer conflito de interesse já havia sido considerado pelo Departamento de Justiça antes de designar o procurador. O presidente, então, afirmou “Meu Deus. Isso é terrível. É o fim da minha presidência. Estou f...”.

“Imaginem o quão diferente as últimas semanas teriam sido se Barr tivesse citado essa parte do relatório de Mueller assim como as poucas linhas que ele colocou no seu 'não resumo'”, escreveu Mimi Rocah, associada da Faculdade de Direito PACE e ex-procuradora de Nova York, no Twitter, sobre a avaliação de Mueller a respeito da obstrução de justiça.

Na carta ao Congresso na qual resumiu as conclusões de Mueller, enviada no último dia 24, Barr indicou que o procurador não havia encontrado evidências suficientes que justificassem processar Trump por obstrução de justiça.

Em entrevista concedida na manhã desta quinta, cerca de uma hora antes de o relatório ser tornado público, Barr frisou que Trump não havia cometido atos de conspiração com a Rússia e disse que era preciso entender o “contexto” do presidente, que passou por uma “situação sem precedentes” sob escrutínio da imprensa. Ele citou que Trump já havia repetido que não conspirou com os russos e afirmou que a Casa Branca cooperou plenamente com as investigações. Ainda segundo o Secretário de Justiça, Trump teve motivações “não corruptas” em seus atos.

As falas de Barr durante despertaram críticas de analistas, que sugerem que ele agiu como advogado de defesa do presidente.“O giro de Barr deixa claro que há muito no relatório editado que pintará Trump de uma forma desfavorável. A esperança/estratégia é que a base de Trump não irá se importar. Provavelmente uma verdade. Se isso é suficiente para 2020 é uma questão em aberto”, escreveu no Twitter o presidente do Eurasia Group, Ian Bremmer. Na avaliação dele, Barr tentou fazer Trump parecer uma vítima, mas o processo de divulgação do relatório de Mueller favorece a democracia representativa no país.

A ausência de Mueller entrevista, junto de Barr, foi minimizada pelo Secretário de Justiça, mas notada por analistas. “As repetições de Barr sobre as falas de Trump a respeito do 'conluio' não inspiram confiança no povo em sua independência como Secretário de Justiça”, tuitou Barbara McQuade, professora de direito da Universidade Michigan. 

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