Brendan Smialowski/AFP
Brendan Smialowski/AFP

Trump ameaça de novo barrar voos do Brasil para os Estados Unidos

'Não quero que as pessoas venham aqui e infectem o nosso povo', disse presidente americano

Beatriz Bulla, CORRESPONDENTE, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2020 | 18h40
Atualizado 19 de maio de 2020 | 21h50

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou dizer que pode cancelar a entrada de voos do Brasil, por causa do aumento de infecções pelo coronavírus no País. "Estamos considerando", disse Trump ao ser questionado por um jornalista se cogita impor uma restrição aos voos brasileiros pelo fato de o País estar em terceiro lugar na lista mundial de maior número de casos de covid-19, perdendo apenas para EUA e Rússia. "Eu não quero pessoas entrando e infectando nosso povo", disse Trump.

O americano anunciou, sem detalhes, que os EUA estão enviando respiradores ao Brasil. "Eu também não quero as pessoas de lá doentes. Estamos ajudando o Brasil com respiradores, eles precisam de respiradores e estou enviando a eles. Temos tantos milhares de ventiladores, estamos enviando a eles. Brasil está tendo problema, sem dúvida, sobre isso", afirmou Trump. 

Uma fonte do alto escalão da Casa Branca informou que Trump tem dito a países aliados que os EUA aumentaram a produção de respiradores e, com isso, estão aptos a vender os equipamentos a parceiros. O aviso de que os países podem comprar os respiradores se quiserem não foi apenas ao Brasil. Trump teria falado o mesmo a autoridades da Bolívia, Equador, França, Índia, Indonésia, Itália, Quênia, Paquistão, Paraguai, Filipinas, África do Sul, Coreia do Sul, Espanha e Reino Unido.

Segundo o encarregado de negócios da embaixada do Brasil nos EUA, Nestor Forster, o presidente Jair Bolsonaro e Trump fizeram "ofertas de lado a lado" de assistência entre os países durante o último telefonema que tiveram, no início de abril. "Cada país, como é natural, dará prioridade à sua própria população, mas os EUA asseguraram ao Brasil uma isenção da Lei de Produção de Defesa. Essa isenção garante a possibilidade de aquisição de respiradores artificiais, até um certo limite, caso o Ministério da Saúde tenha interesse em adquirir equipamentos fabricados nos EUA", disse Forster. A Lei de Produção de Defesa, inicialmente invocada para garantir que os EUA tivessem o número de respiradores suficiente, não será usada para bloquear eventual compra pelo governo brasileiro, segundo a conversa entre os dois líderes.

Nesta terça-feira, 19, Trump disse que o Brasil está adotando a estratégia do "rebanho", que consiste em deixar a população se contaminar para que obtenha imunidade. 

A possibilidade de suspender a chegada de voos vindos do Brasil já foi ventilada por Trump no final de abril, quando o presidente americano questionou o governador da Flórida, Ron DeSantis, se ele desejava impor a restrição já que o Brasil vivia um "grande surto". Na ocasião, De Santis afirmou que não seria necessário adotar a medida. Dois dias depois, Trump disse que o número de mortes no Brasil estava "muito alto" e em trajetória vertical. Há pressão interna para que o aumento de casos no Brasil não piore a situação do combate ao vírus nos EUA. Em entrevista ao Estadão, o prefeito de Miami, Francis Suarez, disse ser favorável à imposição de uma restrição. "O Brasil é obviamente um dos locais com grande número de infectados", afirmou Suarez.

Ainda em abril, o governo brasileiro fez movimentos de bastidores para desfazer dentro do governo dos EUA uma possível má impressão sobre a situação da pandemia e evitar o bloqueio de voos. Desde então, o número de voos do Brasil aos EUA subiu de 9 para 13, sendo que a maioria tem a Flórida como destino. O governo brasileiro argumenta que há poucos passageiros que viajam aos EUA e os voos têm se destinado, majoritariamente, a trazer brasileiros de volta ao País e ao transporte de carga.

Trump é tido pelo governo Bolsonaro como principal aliado no cenário político internacional. Ao ser questionado sobre a situação do Brasil, ele evita críticas à gestão de Bolsonaro, que internacionalmente tem sido apontado por analistas e imprensa estrangeira como um dos piores líderes na condução da resposta à crise. 

Os EUA são, no momento, o epicentro mundial da pandemia. Como Bolsonaro, Trump demorou a articular em nível federal uma resposta à crise, deixando a condução das medidas de isolamento inicialmente para os governadores. No dia 16 de março, no entanto, o presidente americano passou a defender o plano de diretrizes federais para fechamento de comércio, escolas e distanciamento social.

Auxílio

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA anunciou nesta terça-feira que irá destinar cerca de US$ 3 milhões - o equivalente a R$ 17 milhões - para ajudar na resposta do Brasil ao coronavírus. O dinheiro será usado, segundo a Embaixada dos EUA em Brasília, para melhorar a detecção de casos, identificação de áreas de transmissão,  controle de surtos e fornecimento de dados para uma reabertura segura. O CDC vai trabalhar em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Ministério da Saúde.

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