NASA Worldview / AFP
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Não quero guerra com ninguém, diz Trump ao falar de ataques na Arábia Saudita

No domingo, presidente americano havia dito que os EUA estão preparados para ação militar; nesta segunda-feira, afirmou que parece que Irã é o responsável, mas governo americano precisa obter provas

New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2019 | 07h49
Atualizado 16 de setembro de 2019 | 19h53

DUBAI - Depois de dizer que os Estados Unidos estavam “armados e carregados” (“locked and loaded”) para retaliar com uma ação militar os ataques contra o maior centro produtor de petróleo do mundo, na Arábia Saudita, o presidente americano, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira, 16, que “parece” que o Irã é responsável pelo ataque, mas o governo americano precisa obter mais provas.

“Queremos determinar com certeza quem fez isso”, afirmou Trump, assegurando apoio à Arábia Saudita. No entanto, o presidente americano disse que gostaria de evitar uma guerra com o Irã. “Não quero guerra com ninguém.”

O governo americano divulgou fotografias de satélite mostrando ao menos 17 pontos de impacto em várias instalações de energia da Arábia Saudita. O ataque de drones fez cair em 50% a produção do reino.

Os ataques contra os sauditas vieram do norte ou noroeste do país, o que indicaria que os drones e mísseis vieram da direção do norte do Golfo Pérsico, Irã ou Iraque, e não do Iêmen, onde a milícia houthi apoiada pelo Irã, que assumiu a responsabilidade pelos ataques, opera.

Autoridades do governo, em um briefing para repórteres e também em entrevistas separadas no domingo, disseram que uma combinação de drones e mísseis de cruzeiro - "muitos deles", poderia ter sido usada. Isso indicaria um grau de ataque, precisão e sofisticação além da capacidade dos rebeldes houthis sozinhos.

Ao comentar algumas das imagens divulgadas pela CNN, analistas militares disseram que elas podem ajudar a apoiar o argumento de Washington, mas ponderaram que não são definitivas. “Essas imagens não mostram outra coisa a não ser a precisão do ataque contra os tanques de petróleo. Mas não há nada nelas que confirme que o lançamento tenha partido de uma localização em particular”, disse o general Mark Hertling.

Trump não citou diretamente o Irã em seu comentário no Twitter no domingo, mas autoridades americanas confirmaram ao jornal New York Times que os relatórios de inteligência indicam os iranianos como os prováveis culpados pelos ataques a importantes instalações petrolíferas da Arábia Saudita no fim de semana.

"O fornecimento de petróleo da Arábia Saudita foi atacado", disse ele em um tuíte na noite de domingo. “Há razões para acreditar que conhecemos o culpado, estamos armados e carregados (locked and loaded) dependendo apenas da verificação, mas estamos aguardando notícias do Reino sobre quem eles acreditam que provocou esse ataque e em que termos procederíamos!”

EUA acusam Irã por ataque contra Arábia Saudita 

O secretário de Estado Mike Pompeo disse no sábado que o Irã está por trás do que ele chamou de "um ataque sem precedentes ao suprimento de energia do mundo" e afirmou que "não há evidências de que os ataques vieram do Iêmen". Ele não disse, no entanto, de onde eles vieram, e os sauditas se abstiveram de culpar diretamente o Irã.

A insistência do governo americano de que os iranianos tiveram um papel direto no ataque marcou uma escalada significativa em meses de tensões entre os Estados Unidos e o Irã. Levantou questões sobre como Washington poderia retaliar - e por que o Irã estaria arriscando tal confronto.

O aviso de Trump ecoou os alertas que ele fez em junho, depois que o Irã derrubou um avião de vigilância americano. Ele disse então que os militares estava "armados e carregados" para um ataque contra o Irã.

Ele disse que interrompeu a ordem de ataque com 10 minutos de antecedência quando um general lhe disse que 150 pessoas provavelmente morreriam, o que, segundo ele, seria desproporcional.

Autoridades do governo disseram no domingo que procurariam divulgar mais informações para apoiar seu caso contra o Irã nos próximos dias. As fotografias de satélite divulgadas no domingo não pareciam tão nítidas quanto as autoridades sugeriram, com algumas parecendo mostrar danos no lado oeste das instalações, não na direção do Irã ou do Iraque, segundo analistas.

As autoridades americanas disseram que mais de 17 armas foram direcionadas às instalações sauditas, mas nem todas atingiram seus objetivos. As análises forenses das armas recuperadas poderiam responder à perguntas sobre quais eram, quem as fabricou e quem as lançou.

O Irã rejeitou a acusação de Pompeo no domingo, com o ministro das Relações Exteriores descartando-a como "máximo de engano". O escritório do primeiro-ministro iraquiano, Adel Abdul-Mahdi, também rejeitou qualquer sugestão de que agentes iranianos teriam realizado o ataque do território iraquiano, dizendo que o Iraque agiria firmemente se seu território fosse usado para atacar outros países.

Estratégia seguida em crescente confronto com os EUA

Se o Irã, ou um de seus representantes no Iraque ou no Iêmen, executou os ataques, ele se encaixaria em uma estratégia que o Irã seguiu por meses em seu crescente confronto com o governo Trump.

Espremido pelas sanções americanas às suas vendas de petróleo, o Irã tentou infligir uma dor semelhante a seus adversários - ameaçando a capacidade da Arábia Saudita e outros aliados americanos no Golfo Pérsico de vender petróleo e mantendo a possibilidade de aumentar os preços internacionais doproduto.

"O Irã quer mostrar que, em vez de ser o único a perder, pode transformar isso em uma dinâmica em que todos perdem”, disse Ali Vaez, chefe do Projeto Irã no International Crisis Group, ao New York Times. "Negação plausível é uma marca registrada da estratégia do Irã", disse Vaez.

No entanto, o Irã não conseguiu realizar o tipo de ataque direto e aberto aos aliados dos Estados Unidos que poderia desencadear uma resposta militar, preferindo deixar aliados regionais fazer o trabalho ou pelo menos compartilhar a culpa.

A Arábia Saudita pensou que uma campanha de bombardeio rapidamente esmagaria seus inimigos no Iêmen. Mas três anos depois, os houthis se recusam a desistir, mesmo quando 14 milhões de pessoas enfrentam fome.

A combinação de pressão militar também se encaixa na estratégia de aumentar o poder de barganha do Irã antes de possíveis negociações nas Nações Unidas neste mês.

O presidente da França, Emmanuel Macron, disse esperar que a reunião da Assembleia Geral das Nações Unidas, que abre terça-feira, seja uma oportunidade de arrefecer a crise entre os Estados Unidos e o Irã. 

As hostilidades recentes começaram quando o governo Trump retirou-se no ano passado de um acordo para limitar o programa nuclear do Irã e, em seguida, impor sanções abrangentes para tentar forçar o Irã a um novo acordo.

Várias outras potências mundiais, incluindo a França, também assinaram o acordo original e ainda o apóiam, e Macron disse que espera manter um diálogo na Assembléia Geral. Trump disse neste mês que estava aberto a uma possível reunião com o presidente Hassan Rohani, do Irã.

Mesmo que diplomatas iranianos negassem qualquer participação no ataque, membros do Exército, próximos à elite da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, estavam comemorando os danos às instalações petrolíferas sauditas, que processam a grande maioria da produção bruta do país.

O governo Trump, disse Naser Imani, ex-membro do departamento político da guarda, deve tomá-lo como um aviso aos Estados Unidos e seus parceiros do Golfo Pérsico.

"Se alguns houthis podem causar esse dano extensivo, imagine o que o Irã poderia fazer se fosse forçado a entrar em um conflito militar", disse ele ao New York Times, no domingo. "O Irã provou nos últimos meses que tem vontade de apertar o gatilho, além de poder militar para fazê-lo."

Um estrategista militar da Guarda Revolucionária, falando sob condição de anonimato ao New York Times, por medo de retaliação, também questionou se os houthis poderiam ter realizado um ataque tão complexo e eficaz sem a ajuda iraniana.

Mas quem quer que tenha realizado o ataque, disse o estrategista iraniano, a mensagem para o Ocidente e seus aliados regionais é a mesma. Se os Estados Unidos atacarem o Irã, "as chamas da guerra no Golfo Pérsico vão queimar todos vocês", disse ele.

O general Amir Ali Hajizadeh, chefe da força aérea da Guarda Revolucionária, disse que o país estava pronto para a guerra “completa”, informou a agência de notícias semi-oficial Tasnim. 

"Todos devem saber que todas as bases americanas e seus porta-aviões a uma distância de até 2.000 quilômetros ao redor do Irã estão ao alcance de nossos mísseis", disse./THE NEW YORK TIMES e AFP

 

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