Brendan Smialowski / AFP
Brendan Smialowski / AFP

Trump diz que 'ciência não sabe' o que está acontecendo nos incêndios da Califórnia

Presidente visitou Estado após semanas de silêncio sobre incêndios florestais e culpou a crise apenas pelo mau manejo florestal, não pelas mudanças climáticas; Biden o chamou de 'incendiário do clima'

Peter Baker, Lisa Friedman e Thomas Kaplan / The New York Times, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2020 | 12h38

WASHINGTON - Com incêndios florestais em toda a Coesta Oeste dos Estados Unidos, as mudanças climáticas ocuparam o centro do palco na corrida pela Casa Branca no início desta semana: o ex-vice-presidente Joe Biden chamou o presidente Donald Trump de "incendiário climático", enquanto o presidente disse não achar que a ciência "sabe o que está realmente acontecendo" na região.

Os discursos de segunda-feira expuseram as diferenças gritantes entre os dois candidatos - um presidente em exercício que há muito tempo despreza as mudanças climáticas e revogou as regulamentações ambientais e um concorrente que pediu uma campanha agressiva para conter os gases do efeito estufa. 

Trump voou para a Califórnia após semanas de silêncio público sobre as chamas que expulsaram centenas de milhares de pessoas de suas casas, destruíram comunidades e florestas, queimaram milhões de hectares, cobriram a região com fumaça e deixaram pelo menos 35 mortos. 

Mas mesmo quando confrontado pelo governador da Califórnia e outras autoridades estaduais, o presidente insistiu em atribuir a crise apenas ao manejo florestal deficiente, não às mudanças climáticas.

Biden, por sua vez, atacou o histórico de Trump sobre o clima, afirmando que a falta de ação e a negação do presidente alimentaram a destruição, citando não apenas a emergência na Costa Oeste, mas inundações em regiões centrais do país e furacões. O candidato democrata à presidência tentou pintar um segundo mandato de Trump como um perigo para os subúrbios do país. 

"Se tivermos mais quatro anos de negação do clima por Trump, quantos subúrbios serão queimados em incêndios florestais?" questionou Biden. "Quantos bairros suburbanos terão sido inundados? Quantos subúrbios terão sido destruídos por supertempestades? Se você der a um incendiário climático mais quatro anos na Casa Branca, por que alguém ficaria surpreso se tivermos mais da América em chamas?"

Os discursos ocorreram enquanto equipes de combate a incêndios em toda a Costa Oeste lutavam contra os ventos e o clima mais seco, gerando novas frentes de fogo que ameaçam cobrir mais o país com fumaça perigosa e cinzas. Na tarde de segunda-feira, a neblina se espalhou por grande parte dos Estados Unidos e podia ser vista em Nova York e Washington. 

A fumaça pesada manteve alguns aviões de combate a incêndios no solo enquanto o fogo avançava para novas áreas, obrigando pessoas a deixarem suas casas em Idaho, em Oregon e na Califórnia. 

Discurso negando a ciência

“As árvores caem e, depois de um tempo, ficam muito secas, como um palito de fósforo”, disse Trump. “As folhas também. Quando há muitas folhas secas no chão, elas viram combustível para o fogo". 

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, pressionou o presidente a reconhecer o papel da mudanças climáticas. Newsom, um democrata, fez questão de fazê-lo de maneira extremamente educada, reafirmando sua relação de trabalho com o presidente, agradecendo-lhe a ajuda federal e concordando que o manejo florestal precisava ser melhorado. 

“A mudança climática é real. Por favor, respeite - e eu sei que você respeita - a diferença de opinião aqui no que se refere a esse ponto fundamental na questão das mudanças climáticas". Wade Crowfoot, secretário de recursos naturais da Califórnia, pressionou Trump de forma mais direta. “Se ignorarmos a ciência, colocarmos nossa cabeça na areia e pensarmos que tudo se resume ao manejo da vegetação, não teremos sucesso”, disse ele.

"Bem, eu não acho que a ciência sabe, na verdade", retrucou Trump, mantendo um sorriso tenso.

Especialistas dizem que as mudanças climáticas, a gestão de terras públicas e as decisões sobre onde colocar as moradias contribuem para os incêndios florestais. Mas Trump culpou exclusivamente o manejo florestal deficiente e no ano passado emitiu uma ordem executiva direcionando as agências a cortar mais árvores, argumentando que a expansão da colheita de madeira reduziria os incêndios florestais. 

Biden, por outro lado, propôs gastar US $ 2 trilhões em quatro anos para aumentar o uso de energia limpa e, em última instância, eliminar a queima de petróleo, gás e carvão. Ele se comprometeu a construir 500 mil estações de carregamento de veículos elétricos, construir 1,5 milhão de novas casas com eficiência energética e eliminar a poluição de carbono do setor de energia até 2035. 

“Acho que esta é uma narrativa mais ampla que está começando emergir da campanha de Biden”, disse Anthony Leiserowitz, diretor do Programa de Yale sobre Comunicação sobre Mudança Climática. 

Whit Ayres, um consultor político republicano, disse que Trump não estava se ajudando politicamente ao continuar a rejeitar a ciência do clima. “Chegou ao ponto em que negar a realidade fundamental da mudança climática não é mais uma posição confiável”.

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