Brendam Smialowski / AFP
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Trump quer classificar cartéis de drogas mexicanos como terroristas

Decisão dará a Washington mais poderes para combater o tráfico de drogas e de pessoas; presidente mexicano López Obrador afirma que contactou distintas autoridades dos EUA para entender o 'conteúdo e os alcances do anúncio' do americano

Beatriz Bulla, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2019 | 01h35
Atualizado 27 de novembro de 2019 | 22h15

WASHINGTON - O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que pretende classificar os cartéis de drogas do México como grupos terroristas foi recebido com espanto por mexicanos e especialistas. A Casa Branca, porém, não deu detalhes, o que deixa no ar o alcance das medidas. “Vou designá-los, sim. Estou trabalhando nisso há 90 dias”, disse Trump. “Mas não é fácil. Existe um processo e estamos no meio dele.”

O foco na fronteira do México foi um dos pilares da eleição de Trump, em 2016 e seguirá como foco importante na campanha eleitoral em 2020. A construção de um muro na fronteira serviria, segundo o presidente, não apenas para conter a entrada de imigrantes, mas para proteger os americanos dos cartéis.

O anúncio foi feito em entrevista ao jornalista Bill O’Reilly, ex-apresentador da Fox News, que hoje comanda um podcast e um programa de rádio. No início do ano, Trump também falou sobre o assunto em conversa com um veículo próximo: o site Breitbart News, de extrema direita.

Assessores do presidente confirmam que a ideia vem sendo analisada há algum tempo, mas a morte de nove pessoas de uma família de mórmons americanos no México, no dia 5, acelerou a decisão. Na ocasião, Trump se ofereceu para “ajudar” os mexicanos a “travar uma guerra contra os cartéis de drogas e varrê-los da face da Terra”.

Hoje, mais de 60 grupos são designados como organizações terroristas, como Al-Qaeda, Estado Islâmico e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)

Segundo a lei americana, organizações terroristas estão sujeitas a sanções especiais. A nova designação torna ilegal para qualquer um nos EUA fornecer ajuda ou apoio aos cartéis mexicanos, facilitando punições a quem financia e a deportação de membros das facções – teoricamente, traficantes americanos poderiam ser tratados como cúmplices de terrorismo.

Alguns analistas acreditam que a designação dos cartéis como organizações terroristas também poderia abrir a possibilidade de Trump autorizar operações militares contra narcotraficantes, sem autorização do governo do México. Por isso, autoridades mexicanas reagiram com espanto e entraram em contato com o governo dos EUA para entender o alcance dos planos da Casa Branca.

“O México não permitirá ações que violem sua soberania”, disse nesta quarta o chanceler mexicano, Marcelo Ebrard, no Twitter. “Cooperação, sim. Intervencionismo, não”, disse o presidente Andrés Manuel López Obrador. Ricardo Monreal, líder do governo no Senado mexicano, classificou de “inadmissível” a ideia americana.

Críticas

Arturo Sarukhan, ex-diplomata mexicano e professor da Elliott School of International Affairs, da Universidade George Washington, disse que aplicar ao crime organizado as mesmas ferramentas reservadas ao combate ao terrorismo apresenta “erros conceituais”.

“A designação seria uma ferramenta a mais na narrativa de Trump para tentar convencer a sociedade americana de que a fronteira com o México representa uma ameaça à segurança nacional dos EUA, justificando gastar milhões de dólares na construção de um muro”, disse.

Associações e ativistas dos direitos dos imigrantes alertaram para o risco de que a medida impeça as vítimas dos cartéis mexicanos de pedirem asilo nos EUA. “Isso pode ser devastador para pessoas fugindo da violência no México”, afirmou a advogada Laura Barrera.

As ferramentas para combater as organizações terroristas variam de acordo com a classificação – podendo passar pelo congelamento de contas bancárias, sanções ou ações mais agressivas. Outra dificuldade, de acordo com especialistas, é designar um cartel mexicano como “organização”, já que não há unidade nos grupos mexicanos. O normal, segundo eles, é delimitar a classificação a um grupo organizado, como as Farc.

Os presidentes George W. Bush e Barack Obama já consideraram a possibilidade de designar os cartéis mexicanos como organizações terroristas. Segundo Sarukhan, desistiram depois que perceberam as consequências que a medida teria nas relações comerciais e na cooperação em segurança com o México.

Guerra contra os cartéis

No início de novembro, Trump se ofereceu para "ajudar" os mexicanos a "travar uma guerra contra os cartéis de drogas e varrê-los da face da terra", após o ataque mais sangrento contra cidadãos americanos no México nos últimos anos.

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Família LeBarón pertence a um grupo de colonos que se mudaram para o México no início do século 20, procurando, na época, praticar a poligamia, proibida pela igreja americana

Três mulheres e seis crianças de dupla nacionalidade EUA-México, membros de uma comunidade mórmon, foram mortos em uma emboscada no norte do território mexicano. As autoridades mexicanas disseram que eles podem ter sido vítimas equivocadas de quadrilhas de traficantes da região.

Alex LeBaron, ex-congressista mexicano e parente de algumas das vítimas, rejeitou a ideia de uma "invasão" nos EUA. "Já fomos invadidos por cartéis terroristas", escreveu ele. "Exigimos uma coordenação real entre os dois países. Ambos são responsáveis ​​pelo crescente comércio de drogas, armas e dinheiro." / COM REUTERS, AFP e EFE

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