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Lourival Sant'Anna
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Trump e a ‘pax russa’

Enquanto a Rússia fortalece sua influência no Oriente Médio e Norte da África com base na estabilidade das ditaduras, um novo 'equilíbrio do terror' poderá ser a marca do neoisolacionismo americano

O Estado de S. Paulo

02 Janeiro 2017 | 05h00

Escrevo de Nova York, de cuja Trump Tower emanam as ideias que remodelarão o mundo nos próximos anos, certo? Sim e não. A importância dos EUA torna inevitável o impacto global de qualquer mudança de rumo no país. Mas uma das mudanças mais importantes será justamente a de não se dedicar mais a mudar outros países, num movimento de introspecção dos EUA em direção aos seus problemas internos e interesses imediatos. Sendo assim, sua capacidade de influir no mundo tende a diminuir, enquanto cresce a da Rússia e da China.

O isolacionismo de Trump não será uma mudança de tendência, mas sim acentuará uma atitude já assumida por Barack Obama. O intervencionismo americano atingiu o paroxismo no governo de seu antecessor, George W. Bush. Se, de um lado, a intervenção militar no Afeganistão foi quase inevitável, para uma superpotência desafiada por um ataque da magnitude do 11 de Setembro, a invasão do Iraque foi uma aventura irresponsável, que contribuiu para a crise econômica e a derrota republicana em 2008. Uma das principais promessas de campanha de Obama foi retirar as tropas do Iraque, e fazer um combate mais eficaz ao terrorismo, simbolizado pela eliminação de Osama bin Laden, numa operação cirúrgica, não no Afeganistão, mas no Paquistão.

Claro que, para entender as forças que influem nos ciclos entre isolamento e intervenção nos EUA, é preciso lembrar que Bush também se elegeu com base em uma campanha isolacionista, no contexto da exaustão do intervencionismo de seu antecessor, Bill Clinton, na Bósnia e na Somália. Bush, como agora Trump, também falava em dirigir sua atenção para os problemas internos, e modular as políticas externa e de defesa segundo os estritos interesses nacionais. Mas acabou arrastado para a arena internacional pelos atentados da Al-Qaeda.

O movimento pendular entre isolamento e intervenção acompanha toda a história dos EUA. Em 1823, o presidente James Monroe elaborou uma política, que ficaria conhecida como Doutrina Monroe, segundo a qual o Novo Mundo (as Américas) e o Velho Mundo (a Europa) obedeciam a sistemas distintos e os EUA não deviam intervir nas guerras entre as potências europeias.

Na década de 1930, a conclusão de que custara caro demais o envolvimento do presidente Woodrow Wilson na 1.ª Guerra, combinada com a Grande Depressão, levou à aprovação de sucessivas leis de neutralidade dos EUA, que contribuíram para uma complacência do Reino Unido e da França em face do expansionismo nazista. Isso foi assimilado como uma traumática lição, de que os EUA teriam responsabilidade de zelar pelo “mundo livre”. Desde então, os EUA são sempre criticados, seja por intervir ou por cruzar os braços.

Trump, com seu narcisismo suscetível e visível necessidade de provar sua virilidade, também pode ser facilmente arrastado por uma provocação para uma aventura militar. Mas suas tendências, hoje, são: aprofundar o desengajamento iniciado por Obama e alinhar-se com a Rússia de Vladimir Putin na Mena (Oriente Médio e Norte da África), com exceção de Israel, a quem dará carta branca.

Será um giro de 180 graus. A Rússia apoia o ditador sírio Bashar Assad, que enfrenta insurgentes laicos árabes e guerrilheiros curdos, apoiados pelo governo Obama, e grupos radicais sunitas também combatidos pelos EUA. Na Líbia, Putin patrocina o líder militar rebelde Khalifa Haftar na luta contra o governo do primeiro-ministro Fayez al-Serraj, reconhecido pela ONU e apoiado pelos EUA. Estamos diante do nascimento de uma “pax russa” na Mena, baseada na estabilidade das ditaduras.

No jogo global, Trump e Putin ensaiam uma corrida nuclear. O presidente russo assinou no dia 3 de outubro decreto suspendendo acordo firmado com os EUA em 2000, que previa que cada um queimasse em seus reatores 34 toneladas de plutônio, evitando assim que o combustível fosse destinado a armas nucleares. No decreto, Putin acusou os EUA de “ameaçar a estabilidade estratégica, com suas ações não amistosas”. E acrescentou que seu governo precisava adotar “medidas urgentes para defender a segurança da Federação Russa”.

No dia 22, Putin declarou, em uma reunião do Ministério da Defesa em Moscou: “Precisamos fortalecer o potencial militar das forças nucleares estratégicas, especialmente com complexos de mísseis que possam penetrar confiavelmente quaisquer sistemas de defesa de mísseis”.  A preocupação, aqui, é com os planos da Otan de reforçar a defesa dos países do Leste Europeu. Em seguida à declaração do presidente russo, Trump tuitou: “Os EUA devem se fortalecer muito e expandir sua capacidade nuclear até o tempo em que o mundo adquira consciência com relação às armas nucleares”.

Parece contraditório, mas não é. Com seu poder devastador, as armas nucleares desestimulam a guerra. Um novo “equilíbrio do terror” poderá ser a marca do neoisolacionismo americano.  “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda, como farsa”, escreveu Karl Marx. Bem-vindo à nova guerra fria, dessa vez entre dois nacional-populismos.

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