AP Photo/ Manuel Balce Ceneta
AP Photo/ Manuel Balce Ceneta

Trump e a velha desculpa do 'vamos ver'

Presidente passou o último mês falando de um modo muito menos convicto, esquivando-se, por meio de um já desgastado “trumpês”, de uma série problemas diplomáticos que pesam sobre sua presidência.

Katie Rogers / The New York Times, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2018 | 05h00

Conflitos comerciais com a Europa proliferam. Tensões na fronteira com o México estão em ebulição. Negociações com a Coreia do Norte e o Irã seguem nebulosas. Que podem os americanos fazer nesses tempos incertos? Podem esperar para ver o que acontece.

O presidente Donald Trump, iniciante em política que fez a campanha na base do “deixa que eu resolvo”, passou o último mês falando de um modo muito menos convicto, esquivando-se, por meio de um já desgastado “trumpês”, de uma série problemas diplomáticos que pesam sobre sua presidência.

“Vamos ver que acontece”, disse ele terça-feira quando um repórter lhe perguntou se achava que merecia o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços nas negociações de paz entre as Coreias do Sul e do Norte. Na véspera, indagado sobre como iam as relações dos EUA com a Coreia do Norte, respondeu com outro “vamos ver...”.

Também na semana passada, ao falar da reunião de cúpula com Pyongyang, não deixou por menos: “Vamos aguardar”.

Em pelo menos dez vezes no mês passado, o presidente parece ter sucumbido a seu cacoete verbal ao usar variáveis de “vamos ver o que acontece” com líderes mundiais da França, países bálticos, Japão e Nigéria que giravam em torno da Casa Branca ou da propriedade de Trump na Flórida. Trump falou “vamos ver” ao abordar temas que incluíram México, Tratado de Livre-Comércio da América do Norte, Rússia, Amazon, Coreia do Norte, Mike Pompeo, dr. Ronny L. Jackson, Irã e a investigação do promotor especial sobre sua campanha presidencial.

Redatores de discursos republicanos e democratas e especialistas que estudaram a fala de Trump dizem que seu “vamos ver o que acontece” pode ser um meio de dirigir uma ameaça velada a adversários imprevisíveis, como o líder norte-coreano, Kim Jong-un. Entretanto, muitos dos que acompanham de perto o comportamento do presidente acham que ele usa a frase principalmente para se esquivar de futuras cobranças.

“Sempre que ele fez promessas específicas, como a de que construiria um muro e o México pagaria por ele, teve problemas em sustentá-las”, disse Khatleen Hall Jamieson, diretora do Centro Annenberg de Políticas Públicas da Universidade da Pensilvânia. “Agora, em lugar fazer previsões e se tornar responsável por elas, ele deixa em aberto a possibilidade de ocorrerem variáveis não previstas, pelas quais não assume a responsabilidade.”

Trump não é o primeiro presidente a usar “muletas” verbais para fazer comentários e afirmações, desviar-se de críticas ou driblar perguntas.

Para manifestar aprovação, o presidente George W. Bush tinha a tendência a usar a palavra “fabuloso”, um adjetivo decididamente não texano. O presidente Ronald Regan, quando queria fugir de perguntas feitas quando estava a caminho do helicóptero presidencial Marine One, cutucava o ouvido e murmurava um “não estou ouvindo”. O presidente Barack Obama, para prender a atenção do público em muitos de seus discursos do primeiro mandato, usou com frequência a frase “vou ser bem claro” - até perceber que as pessoas se cansaram do recurso retórico.

“À medida que ele usava a frase, ela perdia eficiência”, disse David Litt, um dos redatores de discursos de Obama. “Por isso, no segundo mandato foram ouvidos muito menos ’vou ser bem claro’.”

“Trump é diferente de outros presidentes pois ele parece gostar de falar de improviso sobre assuntos importantes”, disse Kathleen Jamieson, que escreveu exaustivamente sobre o talento do presidente de usar linguagem agressiva para subverter normas políticas. Kathleen coleciona frases de duplo significado de Trump. Em trumpês, “muita gente está dizendo isso” significaria “gostaria que muita gente estivesse dizendo porque quero que vocês acreditem nisso”; “as pessoas não sabem” pode significar “acabo de descobrir”; e “acredite em mim”às vezes quer dizer “tenho sérias dúvidas”.

Predecessores modernos de Trump tendem a adotar uma abordagem mais explícita. Kathleen não consegue imaginar o presidente John F. Kennedy dizendo “vamos ver o que acontece” quando procurava resolver a crise dos mísseis cubanos.

“Esses presidentes sabiam quais expectativas poderiam concretizar-se e como sua retórica poderia ajudar nesse sentido”, disse ela. “Com Trump, a função de sinalizar o caminho ficou desgastada.”

TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

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