Spencer Platt/ Getty Images/ AFP
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Trump é acusado de 'traição' sem precedentes em documentos de processo de impeachment

Em seu relatório pré-julgamento, membros da Câmara apresentaram seu caso para que o Senado condenasse Trump, enfatizando que o povo americano deve ser protegido 'contra um presidente que provoca violência para subverter' a democracia

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2021 | 18h01

WASHINGTON - Os responsáveis pelo processo de impeachment nos Estados Unidos denunciaram a alegada convocação à insurreição por parte de Donald Trump como "uma traição de proporções históricas", nesta terça-feira, 2, enquanto expunham seus argumentos contra o ex-presidente uma semana antes de o Senado começar a ouvir seu caso.

Em seu relatório pré-julgamento, membros da Câmara dos Deputados apresentaram seu caso para que o Senado condenasse Trump, enfatizando que o povo americano deve ser protegido "contra um presidente que provoca violência para subverter nossa democracia".

Os chamados "gerentes de impeachment", todos democratas, argumentaram no extenso documento de 77 páginas que Trump, falando na frente de uma multidão de apoiadores em Washington em 6 de janeiro, os levou a um "frenesi" pouco antes de marcharem rumo ao Capitólio. O golpe subsequente deixou cinco mortos e ameaçou a vida dos legisladores e do então vice-presidente Mike Pence.

"Em uma traição dolorosa ao seu juramento, o presidente Trump incitou uma multidão violenta a atacar o Capitólio dos Estados Unidos durante a Sessão Conjunta, impedindo assim a confirmação do Congresso de Joseph R. Biden Jr. como o vencedor da eleição presidencial", afirmam os deputados, liderados pelo congressista Jamie Raskin.

“Se provocar um motim insurrecional contra uma sessão conjunta do Congresso depois de perder uma eleição não é um crime imputável, é difícil imaginar o que seria”, afirma o documento.

"O fracasso na condenação encorajaria futuros líderes a tentarem reter o poder por todos os meios - e sugeriria que não há linha que um presidente não possa cruzar", alegaram, acrescentando que o povo americano deve ser protegido "contra um presidente que provoca violência para subverter" a democracia.

Trump foi indiciado e condenado pela Câmara em 13 de janeiro pela segunda vez em um processo de impeachment, após ser absolvido de outro processo no Senado em fevereiro de 2020.

Mas o mandato de Trump terminou em 20 de janeiro, antes do início do novo julgamento no Senado, levando os legisladores republicanos a argumentarem que é inconstitucional o impeachment de um presidente depois que ele deixou o cargo.

É um argumento que se espera que os advogados de Trump apresentem em sua defesa, mas os democratas já rejeitaram categoricamente esse raciocínio.

"Não há 'exceção de janeiro' para impeachment ou qualquer outra disposição da Constituição", escreveram eles em referência à data fixada para o fim do mandato presidencial, acrescentando que um presidente deve responder por sua conduta "desde seu primeiro dia no cargo até o fim".

O relatório dos legisladores democratas aponta para vários vídeos, que devem ser usados como evidência no julgamento, que eles dizem mostrar Trump incitando a multidão a cometer violência e manifestantes gritando "Enforquem Mike Pence!" e procurando a presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi.

Desde a eleição de 3 de novembro, e por muitas semanas depois, Trump alegou que sua reeleição foi roubada dele por meio de uma grande fraude. Dezenas de tribunais em vários Estados consideraram o argumento infundado.

Mas os administradores do impeachment enfatizaram que a insistência constante de Trump em acusações não comprovadas de uma eleição fraudulenta levou seus partidários a apoiar os esforços para anular a vitória de Biden.

Quando esses esforços falharam, escreveram os democratas, Trump "convocou uma multidão a Washington, os exortou ao frenesi e os apontou como um canhão carregado pela Avenida Pensilvânia" na direção do Capitólio.

"Somente depois que o presidente Trump for responsabilizado por suas ações, a nação pode seguir em frente com unidade de propósito e compromisso com a Constituição. E só então os futuros presidentes saberão que o Congresso permanece vigilante em sua defesa de nossa democracia", conclui o documento.

Resposta de Trump 

Horas depois, os novos advogados de defesa de Trump apresentaram uma resposta de 14 páginas ao artigo de impeachment, negando que ele tenha incitado a multidão  "se envolver em comportamento destrutivo". O relatório também contestou que as alegações de Trump sobre fraude eleitoral fossem falsas.

"O 45º presidente exerceu seu direito da Primeira Emenda ao abrigo da Constituição para expressar sua crença de que os resultados das eleições eram suspeitos”, afirma o documento.

A equipe de defesa de Trump também negou que o presidente tenha procurado pressionar os funcionários eleitorais estaduais para anular a vitória de Biden, abordando um episódio citado no artigo de impeachment da Câmara em que ele ligou para o secretário de Estado da Geórgia, Brad Raffensperger, no início deste ano para discutir os resultados da eleição naquele Estado.

Eles argumentaram que a exortação de Trump durante o telefonema de 2 de janeiro para que Raffensperger "encontrasse" os votos para anular a vitória de Biden era simplesmente uma expressão da crença do presidente de que um exame cuidadoso das evidências produziria uma contagem de votos mais precisa que favorecesse a ele.

Os advogados de Trump não se preocuparam com o caos em si, enquanto os deputados democratas invocaram imagens dramáticas capturadas por imagens de celulares e reportagens da mídia de legisladores "aterrorizados" presos dentro do prédio que "rezavam e tentavam construir defesas improvisadas enquanto os manifestantes destruíam a entrada" do prédio./ AFP, AP e W. Post 

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