John G. Mabanglo/EFE
John G. Mabanglo/EFE

Trump e Apple se preparam para batalha por desbloqueio de iPhones

Empresa se prepara para uma disputa legal com o Departamento de Justiça para defender a criptografia dos seus iPhones mesmo em casos de atiradores em massa

Jack Nicas e Katie Benner / The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2020 | 17h00

SAN FRANCISCO — A Apple se prepara para uma disputa legal com o Departamento de Justiça para defender a criptografia dos seus iPhones, ao mesmo tempo que, publicamente, procura acalmar a briga, face à relação cada vez complicada com seus clientes e o governo Trump.

Timothy D. Cook, diretor executivo da companhia, reuniu seus principais assessores quando o secretário de Justiça, William Barr, requereu à companhia ajuda para penetrar em dois celulares usados por um atirador num tiroteio mortal ocorrido no mês passado numa estação aeronaval em Pensacola, Flórida.

Os executivos da Apple foram surpreendidos pela escalada rápida desse caso, disseram pessoas ligadas à empresa. E há muita frustração e ceticismo por parte da equipe da Apple que trabalha no assunto com o fato de o Departamento de Justiça não ter gasto tempo necessário tentando acessar os iPhones com ferramentas de terceiros, disse uma pessoa inteirada do assunto.

A situação se transformou numa crise repentina dentro da Apple, quando o antigo compromisso de Cook de proteger a privacidade das pessoas se depara com acusações do governo dos Estados Unidos de que a companhia está colocando a sociedade em risco.

O caso é semelhante à disputa da Apple com o FBI em 2016 no caso do telefone de um outro atirador, morto, que se arrastou por meses.

Desta vez, a Apple se defronta com o governo Trump, que é imprevisível. Os riscos são grandes para Cook, que criou uma aliança inusitada com o presidente Donald Trump. Ele ajudou a Apple a evitar tarifas devastadoras na guerra comercial com a China. Essa relação é testada agora com Cook confrontando Barr, um dos mais próximos aliados do presidente.

“Estamos ajudando a Apple o tempo todo no âmbito comercial e em outros assuntos, contudo eles se recusam a destravar telefones usados por assassinos, traficantes de drogas e outros elementos criminosos violentos”, afirmou Trump na terça-feira, no Twitter. “Eles terão de assumir sua responsabilidade e ajudar nosso grande país."

Apple não comentou a respeito. Na última segunda-feira, depois de Barr ter reclamado que a companhia não forneceu nenhuma “assistência relevante” para acessar celulares usados no tiroteio em Pensacola, a empresa rejeitou essa caracterização, acrescentando que a “criptografia é vital para proteger nosso país e dados dos nossos usuários”.

Mas a Apple respondeu em tom conciliador, sinal de que não deseja que a discussão se intensifique. E declarou estar trabalhando com o FBI no caso de Pensacola, e que seus engenheiros forneceram recentemente assistência técnica por telefone.

“Trabalhamos incessantemente para ajudá-los a investigar esse trágico ataque contra nossa nação”, declarou a companhia.

Segurança x privacidade

No centro dessa briga está um debate entre a Apple a o governo quanto a se segurança é mais preponderante do que privacidade ou vice-versa. Segundo a Apple, ela não pretende criar um caminho “furtivo” para o governo entrar nos iPhones e ignorar a criptografia porque isso abriria um caminho perigoso e escorregadio, com a criação de uma maneira perigosa e escorregadia de destruir a privacidade das pessoas.

O governo afirmou que não cabe à Apple decidir se vai prestar ajuda ou não, uma vez que a Quarta Emenda autoriza o governo a violar a privacidade individual no interesse da segurança pública. A privacidade jamais foi um direito absoluto com base na Constituição, disse Barr em um discurso proferido em outubro.

Timothy Cook assumiu uma posição no caso da privacidade dos seus telefones em 2016, quando a Apple recebeu ordem judicial a pedido do FBI para desbloquear o iPhone de um atirador envolvido num massacre ocorrido em San Bernardino, Califórnia. A companhia informou que conseguiria abrir o celular em um mês, usando uma equipe de 6 a 10 engenheiros.

Mas numa carta inflamada, com 1.100 palavras aos clientes da Apple, na época, Cook alertou que criar um caminho para as autoridades acessarem o iPhone de uma pessoa “vai corroer o real poder de ação das pessoas, as liberdades em geral e a liberdade do indivíduo,  que o governo deve proteger”.

Bruce Sewell, antigo advogado da Apple que ajudou na resposta da companhia no caso de San Bernardino, disse em uma entrevista no ano passado que Cook apostou sua reputação na posição assumida. Se a direção da Apple não concordasse com sua posição ele estava disposto a renunciar ao cargo, disse Sewell.

O caso de San Bernardino foi duramente debatido entre o governo e a companhia até que surgiu uma empresa privada que ofereceu uma maneira de entrar no iPhone. Desde então Cook tornou a privacidade um dos princípios fundamentais da Apple, o que a manteve afastada de outras gigantes do setor de tecnologia, como Facebook e Google, que vêm sendo investigadas pela extração de dados de usuários para venda de anúncios.

“É um marketing brilhante”, avaliou Scott Gallowy, professor de marketing da universidade de Nova York, referindo-se à Apple. “Estão tão preocupados com a sua privacidade que estão dispostos a entrar em desacordo com o FBI."

A pequena equipe de Cook na Apple agora pretende encaminhar a situação atual para uma solução de fora, que não envolva a necessidade de a empresa violar sua própria segurança, mesmo se preparando para uma batalha legal potencial sobre o assunto, disseram pessoas a par do assunto.

Departamento explorou falhas de software para acessar iPhones

Parte da frustração dentro da companhia com relação ao Departamento de Justiça tem por base a maneira como, em ocasiões anteriores, explorou falhas de software para acessar iPhones. Os celulares do atirador de Pensacola eram um iPhone 5 e um iPhone 7, segundo pessoa ligada às investigações.

Esses telefones, lançados em 2012 e 2016 não tinham a criptografia mais avançada da Apple. O iPhone 5 é ainda mais antigo do que o usado em San Bernardino, um iPhone 5C.

Pesquisadores da área de segurança e um antigo executivo da Apple disseram que ferramentas de pelo menos duas empresas, Cellebrite e Grayshift, têm conseguido contornar a criptografia desses modelos de iPhone.

A Cellebrite informou em um e-mail que tem ajudado “milhares de organizações globalmente a acessarem e analisarem legalmente” informações digitais, mas não comentou sobre alguma investigação. A Grayshift não se manifestou.

As duas empresas possuem ferramentas que exploram falhas no software do iPhone e permitem remover limites sobre quantas senhas podem ser tentadas antes de o aparelho apagar seus dados. Normalmente o iPhone permite dez tentativas de senha. Então com essas ferramentas, é usado um chamado ataque de força bruta, ou repetidas tentativas automatizadas de milhares de senhas, até uma funcionar.

Pesquisadores da área de segurança especularam que, no caso de Pensacola, o FBI poderia ainda ter tentado esse tipo de ataque para entrar nos celulares. E disseram que o maior dano físico poderia ter sido impedir que qualquer ferramenta de terceiros abrisse os dispositivos. O atirador de Pensacola atirou no iPhone 7 Plus uma vez e tentou destruir o iPhone 5, segundo fotos do FBI.

O FBI declarou ter consertado os iPhones em um laboratório de modo que fossem ligados, mas as autoridades ainda não conseguiram contornar sua criptografia. Segundo pesquisadores e o antigo executivo da Apple qualquer dano impedindo o uso de ferramentas de terceiros também impediria uma solução por parte da Apple.

'Pode nos ajudar ou não?'

Porta-voz do Departamento de Justiça disse em um e-mail que “a Apple projetou esses celulares e implementou sua criptografia. É um pedido simples: Ela pode nos ajudar a entrar nos telefones do atirador, ou não?”.

Embora a Apple tenha corrigido as falhas que a polícia aproveitou para acessar seus aparelhos, e resistiu a pedidos para acessá-los, ela normalmente tem ajudado as autoridades a entrar nos telefones em casos que não exigem violação da criptografia. A Apple tem realizado seminários para departamentos de polícia sobre a forma mais rápida de entrar no telefone de um suspeito e tem uma linha direta e uma equipe montada para ajudar a polícia em casos urgentes. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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