Saul Loeb / AFP
Saul Loeb / AFP

Trump e como minar a imagem de um país no Twitter

Declarações do presidente criam incertezas sobre política americana da Coreia ao Paquistão

Steve Erlanger / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 Janeiro 2018 | 05h00

Desde o início do ano, o presidente Donald Trump atacou vários países em suas postagens no Twitter, exortou os manifestantes a derrubar o governo iraniano, ameaçou explodir a Coreia do Norte e exigiu cortes no auxílio aos palestinos. Em arrogância e tom, começou 2018 de onde parou.

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Duas coisas se destacam quanto às mensagens de política externa que Trump postou em seus tuítes desde que assumiu o cargo: o ponto até onde elas se desviam da forma tradicional de expressão dos presidentes americanos, e mais ainda, o modo de lidar com a diplomacia. Isso, além de revelar o quão raramente Trump segue suas próprias palavras. Na verdade, quase um ano depois de entrar na Casa Branca, o resto do mundo tenta descobrir se Trump é mais de fazer ameaças ou brigar, mais tigre de papel do que alguém a ser levado a sério.

Os países não têm certeza se tomam suas palavras como pronunciamentos políticos, ou se elas podem ser ignoradas com segurança. Se as ameaças de Trump são vistas como ocas, como isso afeta a credibilidade americana? Em uma série de tuítes no sábado, Trump reagiu a perguntas sobre sua aptidão mental, chamando a si mesmo de “um gênio muito estável”.

Mesmo que se admita que os tuítes de Trump podem ser em grande parte destinados a servir como desabafo ou tranquilizar sua base doméstica, há uma sensação crescente de que a credibilidade da administração e a própria presidência estão sendo minadas.

Temores

Richard N. Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores em Nova York, recentemente repetiu alguns dos tuítes mais beligerantes de Trump e disse: “Este é o nosso comandante em chefe. Pense nisso.” As palavras do presidente americano são importantes, acrescentou em uma mensagem pelo Twitter: “é por isso que tantos dos tuítes deste presidente trazem intranquilidade. A questão não é apenas uma política questionável, mas um julgamento e uma disciplina questionáveis.

O mais importante, disse Haass, é que as postagens no Twitter devem ser levadas tão a sério quanto qualquer outra declaração da Casa Branca, antes que as palavras do presidente venham a ser desvalorizadas.

O secretário de Estado, Rex W. Tillerson, falou sobre os tuítes de Trump em uma entrevista recente à The New York Times Magazine, dizendo que a abordagem de seu departamento era “suficientemente resistente” para lidar com o inesperado e ainda perseguir objetivos de longo prazo. “Eu encaro o que o presidente declara no Twitter como sua forma de comunicação, e incluo nas minhas estratégias e táticas”, disse ele.

Mas as postagens já desvalorizaram as palavras do presidente, argumenta R. Nicholas Burns, ex-diplomata de carreira e embaixador na Otan , que é professor em Harvard e trabalhou na campanha de Hillary Clinton. “Essas são declarações do presidente, do governo dos EUA, e, portanto, os tuites são importantes”, disse Burns.

“Mesmo quando Trump está certo", defendendo manifestantes iranianos ou opondo-se aos testes de mísseis da Coréia do Norte, “sempre existe algum excesso ou alguma afirmação questionável que prejudica a credibilidade americana e é difícil reconquistar isso”, disse ele. “Aliados e adversários investem no seu julgamento e bom senso”.

Israel

Ele referiu-se à decisão de Trump de transferir a embaixada americana de Tel-Aviv para Jerusalém, como hesitante ou simbólica. Isso rompeu com anos de consenso político internacional, que pedia que o status de Jerusalém fosse resolvido nas negociações de paz.

“Quando você dá unilateralmente o status a Jerusalém e não obtém nada de Israel, acaba irritando os palestinos e desafiando o mundo. E se perder, é um desastroso exemplo de falta de credibilidade dos EUA”, disse Burns.

A decisão enfureceu os palestinos e os europeus. Então, Trump e sua embaixadora nas Nações Unidas, Nikki R. Haley, ameaçaram cortar a ajuda a qualquer país que se opusesse à nova posição americana, em uma votação na Assembleia-Geral.

No final, a votação foi uma humilhante reprimenda aos Estados Unidos, de 128 a 9, com 35 abstenções. A maioria dos aliados europeus votou contra os Estados Unidos, e mesmo os aliados europeus na Europa Central, que consideram Washington uma garantia fundamental contra a Rússia, não votaram em Washington, abstendo-se.

Um importante diplomata europeu, falando sob anonimato por não estar autorizado a fazer declarações públicas, considerou desestabilizador o episódio de Jerusalém e disse que havia chegado no momento em que nem o Oriente Médio nem o mundo precisavam disso.

Da mesma forma que o presidente palestino, Mahmoud Abbas, irritou Trump ao criticar a medida em relação a Jerusalém, dizendo que esta desqualificou Washington de um papel sério em qualquer conversa de paz, também Israel pediu a Trump que abandone sua ameaça de cortar ajuda à agência das Nações Unidas que cuida de milhões de refugiados palestinos registrados.

Quanto à Coreia do Norte, apesar dos tuites de Trump, Pyongyang, prosseguiu com testes de mísseis balísticos intercontinentais e não deu nenhuma indicação de que concordará em deixar as armas nucleares em troca de negociações com Washington. Em vez disso, evitou Washington, ao reabrir conversas com Seul.

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Paquistão

Mesmo no Paquistão, onde Trump prosseguiu na semana passada com as ameaças de suspensão da ajuda, pelo apoio ambíguo do país à batalha americana contra os talibãs, o presidente passou para os paquistaneses a ideia de estar contra eles. Em um de seus primeiros telefonemas a um líder estrangeiro depois de ser eleito, Trump falou com o primeiro-ministro paquistanês, Nawaz Sharif, e afirmou que ele era uma “pessoa fantástica”.

“Trump disse que adoraria vir a um país fantástico, fantástico lugar de pessoas fantásticas”, disse a assessoria de Sharif em um comunicado descrevendo o telefonema. “Por favor, transmita para o povo paquistanês que eles são incríveis e todos os paquistaneses que eu conheci são pessoas excepcionais”.

Mais recentemente, Trump passou a ameaçá-los, dizendo em tuites que o Paquistão “não nos deu nada além de mentiras e engano” e acusando-o de fornecer “refúgio seguro aos terroristas que caçamos no Afeganistão”.

A humilhação pública indignou Islamabad, dando uma abertura à China, que em 24 horas passou a elogiar a luta do Paquistão contra o terrorismo. O Paquistão então concordou em adotar a moeda chinesa para transações, a fim de melhorar o comércio bilateral.

François Heisbourg, um analista francês de defesa e segurança, comentou de forma sucinta a ira de Trump: “empurrou o Paquistão para uma relação exclusiva com a China”.

China

Trump tem sido igualmente instável em relação aos chineses, a quem ameaçou repetidamente de punição por praticar dumping comercial e manipulação de moeda, apenas para dizer em dezembro que ele tinha sido “brando” em Pequim, pois estava precisando de ajuda na questão da Coréia do Norte.

Alguns sugerem que as postagens de Trump não devem ser levadas muito a sério. Daniel S. Hamilton, ex-funcionário do Departamento de Estado que dirige o Centro de Relações Transatlânticas da Universidade Johns Hopkins, diz que Trump “usa esses tuites e redes sociais para garantir sua base política” e “se os tuites se transformam ou não em uma política, é uma questão completamente diferente”.

Não se pode ignorar os tuites presidenciais, disse Hamilton, “mas seu objetivo não é fazer pronunciamentos políticos diários”. Trump está bem ciente de seu impacto e senso de oportunidade, e quando os manda pela manhã, disse Hamilton, “deixa os meios de comunicações preparados para o dia todo”.

Para aqueles que cercam Trump em Washington, a batalha diária é “tentar moderar seu temperamento”, disse Hamilton. “Mas para os aliados é muito difícil entender”. Mas quando as ameaças de Trump não são seguidas - ou são moderadas pela equipe da Casa Branca, pelo Congresso ou pelos tribunais - isso também prejudica a credibilidade americana.

Embora os aliados não tomem necessariamente suas postagens como pronunciamentos políticos, eles ainda criam significativa confusão, disse Pierre Vimont, ex-embaixador da França em Washington e ex-assessor do chefe da política externa da União Europeia.

Coreia 

Mesmo em áreas onde há acordo entre os aliados - por exemplo, sobre a ameaça representada pela Coreia do Norte e seu líder, Kim Jong-un – “temos dificuldade em entender a verdadeira linha política de Washington”, disse Vimont.

Existem claras diferenças com os aliados europeus quanto às mudanças climáticas, comércio multilateral e Jerusalém, disse ele, “mas mesmo sobre Ucrânia e Síria, em que há um acordo, temos dificuldade em entender onde a liderança dos EUA está e o que eles realmente estão buscando”.

Quanto ao Irã, por exemplo, muitos europeus concordam com os que protestam contra o governo islâmico, mas acreditam que o apoio total de Trump a eles no Twitter ajuda o grupo da linha-dura e prejudica os moderados.

Os europeus estão unidos na tentativa de manter um diálogo ativo com o Irã e preservar o acordo nuclear, o que muitos dizem que deveria ser melhorado, mas mantido em separado de outras questões.

Críticas

O presidente Emmanuel Macron, da França, criticou os Estados Unidos, Israel e a Arábia Saudita na semana passada, por encorajar os protestos antigovernamentais, dizendo que a posição “é algo que praticamente nos levaria à guerra”. Macron disse que a França queria evitar “a reconstrução sub-reptícia do ‘eixo do mal’”, uma referência aos países escolhidos pelo ex-presidente George W. Bush - Irã, Coreia do Norte e Iraque.

“Os tuites de Trump modelam a forma como os outros reagem", disse Leslie Vinjamuri da SOAS, Universidade de Londres. "Se eles já estiveram voltados para sua base, agora parecem ser a forma de Trump responder ao mundo, e ele continua retornando aos mesmos problemas. De certa forma, ele é previsível, emocional e errático, mas ele não é coerente”.

Mas ninguém pode ignorar o presidente dos Estados Unidos, disse Vinjamuri. “Os EUA ainda têm importância, e as pessoas têm um certo medo”, disse ela. "Há muitas técnicas de preservação por aí, os países se abstendo, mas sem votar contra ele. Mas isso não basta para Trump. Este é um homem que quer lealdade”. /Tradução de Claudia Bozzo

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