AP Photo/Susan Walsh
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Trump é investigado por fraudar declarações de bens para atrair investidores

Presidente americano teria entregado a potenciais investidores e seguradoras 'declarações de condição financeira' com números inflados e sem informações de dívidas em propriedades

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2019 | 19h26

O  presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, inflou o seu patrimônio, declarou que sua marca valia US$ 4 bilhões e omitiu informações de dívidas patrimoniais de diversas propriedades em documentos entregues a investidores para causar boa impressão, informou ontem o jornal Washington Post, com base em diversos documentos fiscais obtidos pela publicação. Segundo o jornal, investigadores em Washington e em Nova York estão se debruçando sobre esses documentos em uma tentativa de determinar se o hábito de Trump de se vangloriar de sua riqueza cruzou a linha da fraude.

O Post afirma que quando Donald Trump queria causar uma boa impressão a um credor, a um parceiro de negócios ou a um jornalista, ele enviava documentos oficiais chamados “declarações de condição financeira". Estes documentos, que às vezes tinham a ter 20 páginas, estavam cheios de números, apresentando as propriedades de Trump, dívidas e patrimônio líquido de vários bilhões de dólares.

“Mas, para alguém tentando obter uma imagem real do patrimônio líquido de Trump, os documentos eram profundamente falhos”, afirmou o jornal. “Alguns simplesmente omitiram propriedades que carregavam grandes dívidas. Alguns ativos foram supervalorizados. E diversos números importantes estavam errados.”

Os documentos obtidos pelo jornal mostram que a declaração financeira de Trump em 2011 informava que a Trump National Golf Club, na Califórnia, está atualmente zoneada para 75 casas com vista para o mar e “um campo de golfe inigualável”. Em 30 de junho de 2011, havia 55 terrenos disponíveis para venda. Naquele momento, apenas 36 lotes foram aprovados para venda e, 5 já haviam sido vendidos. Isso deixou 31 - não 55 - disponíveis para venda. Como Trump estava prometendo que poderia vendê-los por pelo menos US$ 3 milhões cada, havia uma diferença de US$ 72 milhões entre suas reivindicações e a realidade.

Esse tipo de artíficio era corriqueiro neste documento. Ele também alegou que seu vinhedo da Virgínia tinha 8 milhões de metros quadrados, quando na verdade tem 4,8 milhões. Em outro documento ele afirma que uma Trump Tower tem 68 andares - e na verdade tem 58.

As declarações estão no centro de pelo menos dois dos inquéritos que continuam a investigar Trump, não afetados pelo fim da investigação do procurador Robert Mueller. Na quarta-feira, o Comitê da Câmara sobre Supervisão e Reforma disse que solicitou 10 anos dessas declarações da firma de contabilidade de Trump, a Mazars USA.

E no início deste mês, o Departamento de Serviços Financeiros de Nova York solicitou judicialmente os registros da seguradora de Trump, a Aon. Uma pessoa familiarizada com a investigação afimou ao Wahsington Post que "um componente-chave" era descobrir se Trump entregou esses documentos à Aon, em um esforço para reduzir seus prêmios de seguro.

Ambas as investigações surgiram do depoimento no mês passado do ex-advogado de Trump, Michael Cohen, que disse ao Congresso que Trump usou essas declarações para inflar sua riqueza - e depois as enviou para seus credores e suas seguradoras. "Donald Trump é um trapaceiro”, disse Cohen, ao descrever o que as declarações mostraram.

Trump não é o primeiro empreendedor imobiliário a inflar seus projetos ou riqueza. Mas existem leis contra fraudar seguradoras e credores com informações falsas. Especialistas financeiros e jurídicos disseram ao Washington Post que não está claro se Trump enfrentará quaisquer consequências legais. Eles disseram que isso depende se Trump pretendia enganar ou se as distorções lhe deram um benefício financeiro. "Quanto os erros afetariam um investidor?", perguntou Kyle Welch, professor assistente de contabilidade da Universidade George Washington. "Se é sistemático e está em toda a parte, e é tudo em uma direção, aí você tem um problema."

Segundo Welch, Trump poderia ser ajudado pela enorme escala dos exageros. “Eles estavam tão longe da realidade, será que algum banco ou seguradora poderia ter sido enganado?”, pergunta Welch. “É até engraçado. É uma demonstração financeira bem humorada.”/ WASHINGTON POST

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