EFE/EPA/Chris Kleponis / POOL
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'Trump é melhor': na Ásia, forças que defendem a democracia se preocupam com Biden

O objetivo do presidente eleito de restaurar a normalidade na política externa assustou defensores dos direitos humanos na Ásia, para quem o presidente Trump era visto como alguém que enfrentava os ditadores

Hannah Beech, The New York Times

02 de dezembro de 2020 | 08h00

BANGCOC - Um dissidente que já foi considerado inimigo público número um pelo Partido Comunista da China está disseminando teorias da conspiração a respeito de uma fraude na eleição presidencial americana.

Defensores da democracia em Hong Kong estão defendendo as alegações do presidente Donald Trump, que se diz vencedor da eleição.

Líderes religiosos e defensores dos direitos humanos no Vietnã e em Myanmar manifestam suas reservas quanto à capacidade do presidente eleito Joe Biden de manter os governantes autoritários sob controle.

Pode parecer surpreendente que os defensores da democracia na Ásia estejam entre os maiores defensores de Trump, que se declarou amigo do líder chinês Xi Jinping e do norte-coreano Kim Jong Un. Mas é justamente a disposição de Trump de ignorar o protocolo diplomático, abandonar acordos internacionais e manter os adversários desequilibrados que lhe valeu aplausos dignos de um líder forte o bastante para enfrentar ditadores e defender ideais democráticos no exterior, mesmo sendo criticado por diminuir esses ideais no seu próprio país.

Agora que Biden prepara sua equipe de política externa, importantes defensores dos direitos civis em toda a Ásia se preocupam com o desejo dos Estados Unidos de retomarem as normas internacionais. Eles acreditam que Biden será como o ex-presidente Barack Obama, buscando uma acomodação em vez do confronto diante das jogadas assertivas da China. 

E sua opinião favorável a Trump foi consolidada pela desinformação na internet, frequentemente fornecida por fontes de notícias duvidosas, segundo as quais Biden estaria trabalhando com os comunistas ou seria secretamente um simpatizante socialista.

"Biden é o presidente, e é como se fosse o próprio Xi Jinping na Casa Branca", disse o empreendedor Elmer Yuen, de Hong Kong, que publicou vídeos no YouTube criticando o Partido Comunista da China. "Ele deseja a coexistência com a China, e quem opta por coexistir com o PCC, perde."

Com o mandato presidencial de Trump chegando ao fim, esses ativistas estão fazendo ao governo dele um apelo para que enfrente mais uma vez os autocratas asiáticos, como se fosse uma última tentativa de expandir o muro na fronteira com o México.

O secretário de estado, Mike Pompeo, visitou cinco países da Ásia em outubro, abandonado os bons modos e descrevendo o governo chinês como "predador", "sem lei e ameaçador", e "a mais grave ameaça ao futuro da liberdade religiosa". O giro tinha como objetivo equilibrar a influência chinesa em uma região na qual a diplomacia de Pequim baseada no dinheiro comprou-lhe considerável poder de influência.

Em novembro, Lobsang Sangay se tornou o primeiro líder do governo tibetano exilado a visitar a Casa Branca; a provocação do convite enfureceu Pequim, para quem Sangay é um separatista.

Em junho, Pompeo participou de uma reunião virtual com o líder do movimento pela democracia em Hong Kong, Joshua Wong, e a presidente Tsai Ing-wen, de Taiwan, personalidades desprezadas pelo governo chinês.

A popularidade de Trump é particularmente duradoura entre os cristãos, como estudiosos do direito nascidos na China que criticam o núcleo ateu do comunismo e ativistas defensores de minorias étnicas no Sudeste Asiático. Eles acreditam que Pompeo e outros funcionários do governo Trump estão desempenhando no exterior uma missão baseada na fé.

No ano passado, Trump recebeu na Casa Branca um grupo de líderes religiosos de todo o mundo, incluindo Hkalam Samson, presidente da Convenção Batista Kachin, que representa a minoria cristã Kachin, perseguida em Myanmar.

"Minha experiência na Casa Branca foi muito significativa, tive um minuto para defender a causa dos Kachin, e isso mostrou que Trump se importa conosco", disse Samson. "Para os Kachin, Trump é melhor que Biden."

O ceticismo em relação a Biden se estende também entre aqueles que lutam por direitos políticos seculares. De acordo com eles, não adianta o presidente eleito demonstrar respeito pelas regras diplomáticas se o outro lado estiver jogando sujo.

"Em relação às políticas de Biden para a relação com a China, a ideia de fazer a China respeitar as regras internacionais me parece muito oca", disse Wang Dan, que ajudou a liderar os protestos da Praça da Paz Celestial em 1989, quando era estudante universitário. "Como sabemos, o Partido Comunista da China não costuma ligar para as regras internacionais."

"Os EUA precisam se dar conta que não haverá melhoria na situação dos direitos humanos na China sem uma mudança de regime", acrescentou Wang. Ele prosseguiu questionando a derrota de Trump nas urnas, com alegações infundadas repetidas por outros dissidentes chineses de destaque.

Mas outros, especialmente em Hong Kong e na China, disseram que defender Trump é hipocrisia, e pode até ser perigoso.

"O histórico de Trump quanto aos direitos humanos me impede de apoiá-lo: os filhos de imigrantes detidos, o veto aos muçulmanos, a supremacia branca, as mentiras. Mas, aparentemente, esse não é o posicionamento mais popular entre muitos dissidentes na China, em Hong Kong e em Taiwan", disse Badiucao, artista político nascido na China que vive atualmente exilado voluntariamente na Austrália.

Badiucao, que usa um pseudônimo para proteger os parentes na China, discutiu na internet com Wang e outros dissidentes conhecidos, fazendo desse debate uma inspiração para sua arte.

"São pessoas utilitaristas, que acreditam que, se Trump for à guerra contra o PCC, ele será a melhor alternativa", disse Badiucao. "É uma mentalidade que se encaixa na ideologia dos 'EUA em primeiro lugar', segundo a qual o sofrimento alheio não importa se nosso objetivo for alcançado, e seu objetivo é derrubar o PCC."

Assessores de política externa ligados a Biden dizem que é injusto supor que ele manterá o posicionamento moderado do governo Obama. De acordo com eles, estamos em uma era diferente. A legislação de proteção aos direitos humanos defendida pelo governo Trump recebeu amplo apoio bipartidário.

E alguns dissidentes asiáticos reconhecem que sua antipatia em relação a Biden é motivada em parte por uma enxurrada de desinformação na internet que retrata o presidente eleito como um simpatizante socialista secreto ou alega sem nenhuma prova que "dinheiro comunista" estrangeiro foi usado para impedir a vitória de Trump. Esse tipo de alegação infundada foi repetida por publicações online específicas em vietnamita, mandarim e outros idiomas.

"A crise da democracia no mundo deixa as pessoas - e em especial os ativistas - confusas e suscetíveis à influência de teorias da conspiração e à manipulação das informações", disse Nguyen Quang A, dissidente vietnamita que já foi detido várias vezes por criticar a liderança comunista do país. "Não há mídia independente no Vietnã, e as pessoas (particularmente os ativistas) já odeiam a grande mídia." / Tradução de Augusto Calil

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