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Trump e o Brasil

Além de prejudicar Europa, Irã e palestinos, eleição do magnata é desafio para o Brasil 

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2016 | 05h00

A eleição de Donald Trump representa riscos econômicos e políticos que precisam ser incorporados ao debate sobre as escolhas que o Brasil tem pela frente. Suas principais promessas, se cumpridas, muito provavelmente causarão um freio na atividade econômica brasileira, já ultradeprimida. No campo da política externa, as predileções de Trump apontam para um mundo ainda mais instável e violento, com pressões sobre o preço do petróleo, valorização do dólar e aversão ao risco - que é inerente aos investimentos no Brasil.

Começando pela proposta econômica mais consistente de Trump, por ser a mais palatável para o seu Partido Republicano, que manterá a maioria na Câmara e no Senado: a redução dos impostos. Segundo um cálculo do Tax Policy Center, de Washington, a renúncia fiscal contida na proposta de Trump resultará em queda de US$ 6,2 trilhões da arrecadação na próxima década. Ele não apresentou planos de cortes de gastos. Não prevê, por exemplo, reforma da Previdência, que, como no Brasil, é uma das principais fontes de déficit do governo. Ao contrário. Trump falou em investimento de US$ 1 trilhão em infraestrutura. A diminuição nos impostos, combinada à injeção de dinheiro na economia, deve aumentar o consumo e, com ele, a pressão inflacionária.

Outra promessa de Trump é erguer barreiras comerciais contra a China e o México, que abastecem o mercado americano com bens industriais baratos. Mesmo que ele não adote medidas tão radicais quanto as que alardeou, como impor tarifas de até 45% sobre os produtos chineses e de 35% sobre os mexicanos, qualquer sobretaxa ou inibição do comércio com esses países elevará os preços dos produtos.

Por último, a expulsão de imigrantes ilegais causará aumento do custo da mão de obra, com a consequente subida dos preços, uma vez que esses trabalhadores, por sua condição precária, aceitam salários mais baixos.

Tudo isso aponta para o aumento dos juros nos EUA, para conter a inflação e aumentar a capacidade do governo de se endividar. Com isso, o Brasil terá de fazer um esforço ainda maior de ajustar suas contas e conter a inflação, se quiser manter a trajetória de queda dos juros - condição para a retomada da atividade econômica - e, ao mesmo tempo, atrair investimentos.

Cenários. A eleição de Trump beneficia a Rússia, a Síria e Israel, e prejudica os países da Europa, o Irã e a Autoridade Palestina. Na campanha, ele disse que não defenderia os aliados do Leste Europeu e do Báltico de eventuais ameaças da Rússia se eles não arcassem com o custo da ação militar. Sua eleição reacendeu o debate sobre o aumento dos gastos com defesa na Europa.

A aproximação que Trump pretende promover com o presidente Vladimir Putin poderá reforçar a posição do ditador Bashar Assad, em nome de uma suposta aliança contra o inimigo comum, o radicalismo islâmico. Trump concorda com a anexação da Crimeia, e é possível que retire as sanções impostas contra a Rússia em razão dessa anexação e também de seu apoio aos separatistas russos no leste da Ucrânia.

Durante a campanha, ele se reuniu com Binyamin Netanyahu e disse em um debate com Hillary Clinton que o premiê israelense estava “muito aborrecido” com o acordo nuclear com o Irã, que o republicano descreveu como “o pior acordo jamais negociado”. A escolha do deputado Mike Pompeo, ferrenho crítico do acordo, para dirigir a CIA confirma a perspectiva de sua anulação pelos EUA. Apesar da oposição israelense, o acordo foi um importante fator de distensão e, ao lado da normalização com Cuba, o maior feito da política externa de Barack Obama. Trump falou sobre reconhecer Jerusalém como capital de Israel - contra a posição da ONU e da comunidade internacional. O anseio de atender a Netanyahu, que prioriza a segurança em detrimento da paz, reforça a política de colonização de Jerusalém Oriental e da Cisjordânia e praticamente enterra qualquer possibilidade de um acordo de paz árabe-israelense.

Isso reforça os grupos radicais Hamas e Jihad Islâmica e enfraquece a posição dos moderados da Fatah. Igualmente, a hostilidade de Trump para com os muçulmanos é um presente para o Estado Islâmico, a Al-Qaeda, o Boko Haram e outros grupos extremistas, que afirmam defender o Islã de uma suposta conspiração judaico-cristã para destruí-lo. Tudo isso tende a trazer mais tensão, violência e instabilidade, com impacto negativo sobre os investimentos de que o Brasil tanto precisa. Se os brasileiros já tinham motivos internos mais que suficientes para se livrar da corrupção, da má gestão e do desequilíbrio das contas públicas, precisam agora de uma clareza ainda maior de que, sem reformas e sem moralização, vão sucumbir ainda mais à pobreza e ao atraso. Não há espaço para a irresponsabilidade.

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