Trump e o desafio da imprensa

Também considerado fenômeno, Herman Cain não resistiu ao escrutínio em 2011

NATE/COHN THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2015 | 02h02

Enquanto jornalistas se inquietam sobre como lidar com a candidatura de Donald Trump - procurando sinais de colapso inevitável após cada nova controvérsia - vale recordar o caso de outro "intruso" que liderou, por um breve espaço de tempo, as pesquisas em primárias: Herman Cain.

Cain saltou para o topo das pesquisas em 2011 quase tão abruptamente como Trump. Ele venceu uma sondagem informal na Flórida naquele ano e se viu no topo das pesquisas duas semanas depois.

Tinha mais apoio do que Trump tem hoje. Até aquele ponto, Cain, um ex-executivo de uma empresa de pizza, não havia recebido muita atenção. Os jornalistas haviam avaliado, compreensivelmente, que ele tinha poucas chances de conseguir a nomeação.

Seus concorrentes não o viam tampouco como uma ameaça séria. Sendo assim, os jornalistas direcionaram a maior parte de sua energia para outros candidatos. Mas, quando Cain alcançou o topo das pesquisas, jornalistas e candidatos rivais adotaram uma posição diferente.

Seu projeto de reforma fiscal foi questionado no debate e pela mídia noticiosa. Depois, o site

Politico reportou que duas mulheres haviam acusado Cain de assédio sexual.

Esses desdobramentos repercutiram negativamente no respaldo a Cain. Em fins de novembro, ele havia perdido metade de seu apoio do começo de outubro, caindo de perto de 30 para menos de 15. Seu destino estava claro. Foi razoável os jornalistas ignorarem Cain em agosto ou setembro? Jornalistas fazem juízos iniciais sobre quais candidatos merecem mais atenção com base em sua probabilidade percebida de ser um sério concorrente na disputa.

Mas retirar o escrutínio de Cain na suposição de que seu declínio era inevitável teria sido abandonar o papel que a mídia noticiosa com frequência cumpre com candidatos não sérios, os que nunca ocuparam um cargo eletivo ou não têm o background para ser candidatos realistas, no longo prazo, à Casa Branca.

Esses candidatos, sem uma base mais forte para sua sustentação nas pesquisas, podem sucumbir à maioria dos testes básicos que candidatos sérios enfrentam rotineiramente e em geral aguentam.

Em retrospecto, sabemos que Cain estava à caminho da derrota - ele se retirou um mês depois da revelação das alegações de assédio sexual. Mas se procurássemos sinais de um rápido colapso nas pesquisas no início de novembro de 2011, não os teríamos encontrado.

Portanto, não há muitos motivos para se acreditar que Trump se encontrará em 5% nas pesquisas amanhã, ou mesmo na próxima semana.

O mais significativo é que o processo de esquadrinhamento, tanto pela mídia como por seus adversários, está em andamento.

Os jornalistas podem se recriminar por cobrir uma candidatura como a de Trump. Mas sua disposição de fazê-lo é, em última análise, uma parte crucial do processo de escrutínio de candidatos que faz parte de uma campanha nacional. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É COLUNISTA

 

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