AFP / GALI TIBBON
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Trump e o Oriente Médio

Presidente americano contradiz as próprias palavras em relação aos iranianos

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

24 Maio 2017 | 05h00

É bom manter atualizado o mapa “geoestratégico” do mundo, porque esse mapa pode mudar de cor e de forma segundo os humores da Casa Branca. A viagem de Donald Trump ao Oriente Médio deu mais algumas provas da maleabilidade do cérebro presidencial. Às vezes, ele nem precisa de uma semana para se contradizer: recua do que falou poucos momentos antes. 

Um exemplo: durante a campanha eleitoral, Trump fustigou o acordo que Barack Obama assinara com o Irã em 14 de julho de 2014, que estipulava que Teerã abriria mão de enriquecer urânio para fins militares em troca da suspensão das sanções internacionais que estrangulavam sua economia. Uma negação do legado de Obama, portanto.

Mas, enquanto viajava à Arábia Saudita na semana passada, Trump, para a surpresa de todos, confirmou a suspensão das sanções contra o Irã. Será que nos enganamos? Será que, sem avisar ninguém, Trump desistiu de empurrar o Irã para o inferno? Essa reviravolta foi colocada na conta de sua personalidade extravagante e fanfarrona. 

Infelizmente, assim que chegou à Arábia Saudita, país sunita e grande inimigo do Irã xiita, Trump “mudou de ideia mais uma vez” e vomitou todo seu ódio e desprezo pelo Irã. Na segunda-feira, em Israel, inimigo jurado do Irã, o presidente reforçou o tom: “O Irã deve parar de financiar e treinar milícias de terroristas e assassinos”. 

Sem dúvida, não se pode negar que o Irã teve papel importante no despertar do terrorismo de Estado e no problema insolúvel da Síria, mas isso valeu particularmente para os primeiros anos da revolução messiânica, nos tempos do aiatolá Khomeini. 

Desde então, a jihad se espalhou: primeiro com o horror do 11 de Setembro, em Nova York, cometido por um grupo de 19 jovens, nenhum deles iraniano – nem mesmo xiita. Ao contrário, o “cérebro” diabólico que organizara o atentado era Osama bin Laden, um saudita. Mais recentemente, a organização que agora comanda a jihad global, não sem uma selvageria abjeta, é o Daesh, ou Estado Islâmico (EI), composto por sunitas e, ainda por cima, inspirado na doutrina do wahabismo, de origem saudita.

A vendeta de Trump contra o Irã é ainda mais ilógica por se dar em um momento em que os iranianos acabam de reeleger, por votação irrepreensível, o presidente liberal Hassan Rohani, o mesmo que, alguns anos atrás, livrou o país do “iluminado” Mahmoud Ahmadinejad, aquele “pesadelo” que lançara o programa nuclear iraniano, negara a veracidade do Holocausto de Hitler e afirmara que Israel devia ser “riscado do mapa”. 

É verdade que, na república islâmica, o presidente não chega a ser o personagem principal. Ele fica abaixo do “guia supremo”, um religioso, atualmente Khamenei, feroz inimigo da cultura e das religiões ocidentais, que tem sempre a última palavra.

Mais uma razão para apoiar o presidente Rohani, que conseguiu se reeleger graças à juventude iraniana e apesar do “guia supremo” Khamenei. Vale lembrar que Khamenei envelheceu e está enfraquecido. Em uma eventual sucessão, o presidente Rohani, que também é clérigo, poderia se tornar o novo “guia supremo”, e assim o Irã poderia restabelecer os laços estreitos e fecundos que o enorme país de 80 milhões de habitantes sempre teve com o Ocidente e sua cultura.

Por isso, afora o desejo infantil de se contrapor a Obama, é difícil entender por que Trump se lançou nessa guerra contra o Irã. Por certo, a Arábia Saudita, apesar das preocupantes ligações de seus príncipes com doutrinas venenosas, é uma importante peça na estratégia americana para a região – seguindo o exemplo do presidente Franklin Roosevelt, que em 1946 firmou uma aliança com Ibn Saud. Mas, naqueles tempos, não existia o terrorismo sunita e, sobretudo, os Estados Unidos estavam sedentos pelo petróleo que alimentava sua formidável maquinaria industrial. 

Essa aliança, fundada sobre o petróleo árabe, funcionou muito bem por quase meio século. Hoje, graças ao petróleo de xisto, a América não precisa mais do petróleo saudita. Não há mais razão para uma aliança entre Estados Unidos e Arábia Saudita. Consequentemente, a Casa Branca pode optar por políticas mais racionais. 

É verdade que Trump, quando chegou a Riad, pegou a caneta e começou a assinar contratos “por um punhado de dólares”, como diria Clint Eastwood no filme de Sergio Leone. Quantos dólares? US$ 110 bilhões. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

 

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