AP/Jim Mone
AP/Jim Mone

Trump e o Partido Republicano

Magnata não dividirá a legenda, que vem sobrevivendo apesar dos prognósticos

Jacob S. Hacker e Paul Pierson * / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S. Paulo

05 Abril 2016 | 05h00

Para qualquer lado que você olhe, no ano de Donald Trump, os observadores se referem a um realinhamento do partido no plano nacional ou a um fracasso catastrófico dos republicanos. Nosso sistema bipartidário não sofreu nenhum realinhamento importante desde que o Sul se tornou solidamente republicano. Não ocorreu uma extinção de um grande partido desde que o Partido Whig ( formado no século 19 em oposição ao governo) foi derrotado às vésperas da Guerra Civil.

Trump (ou Ted Cruz) podem muito bem levar o partido a uma derrota decisiva e desagregadora. Se for muito catastrófica, provocará mudanças na estratégia do partido. No entanto, os prognósticos de uma divisão republicana devem ser recebidos com ceticismo. Embora rumores de morte do partido tenham se tornado comuns nas últimas eleições presidenciais, ficou comprovado repetidas vezes que eram exagerados.

Essa discrepância entre expectativas e realidades políticas reflete dois erros: o primeiro é superestimar a importância das eleições presidenciais para nosso sistema, que privilegia o equilíbrio de poderes. O segundo é não interpretar corretamente os sucessos eleitorais republicanos recentes – que dependeram menos da governança efetiva e mais dos ataques ao governo, especialmente contra o atual ocupante do Salão Oval.

Pense em 2008. A saída de George W. Bush foi humilhante. Os índices de aprovação do partido caíram a níveis muito baixos. O veredicto foi claro: o Partido Republicano teria de mudar ou morrer. Mas não foi o que ocorreu. Em vez de buscar a reforma e a moderação, o partido iniciou uma campanha de confronto e obstrução do novo governo.

Dois anos depois, a estratégica mostrou resultados. Nas eleições de meio de mandato, o presidente Barack Obama sofreu uma clara derrota e os republicanos conquistaram mais assentos na Câmara do que qualquer outro partido desde 1938.

Em resumo, o Partido Republicano moderno tem uma história de fracassos e sucessos. Depois de 1988, ele teve problemas em eleições presidenciais: o candidato republicano só conquistou o voto popular apenas uma vez, em 2004.

Erros. No entanto, esse histórico medíocre em termos de eleições presidenciais não levou o partido à beira do colapso.

Pelo contrário, os republicanos contabilizaram um desempenho bastante bom, dominando a Câmara e o Senado – ou ambos – durante a maior parte das últimas três décadas. E, ao mesmo tempo, aumentou o número de governadores e legisladores estaduais. Além disso, o partido conseguiu tal resultado sem realizar os ajustes que os democratas fizeram após a derrota esmagadora de Walter Mondale, em 1984, que criou os “novos democratas”, como Bill Clinton.

Quebra-cabeças. Por outro lado, em assuntos importantes, os expoentes do partido se colocaram firmemente à direita, pelo menos até Trump entrar em cena. Solucionar este quebra-cabeça é chave para compreender porque grandes derrotas eleitorais não aniquilaram o Partido Republicano.

A Casa Branca é o prêmio mais importante, mas em nosso sistema em que prevalece o equilíbrio dos poderes, o presidente legisla com o Congresso. No contexto de um eleitorado dividido, partidos muito polarizados e um combate incessante numa série interminável de eleições para cargos estaduais e nacionais, as eleições presidenciais abrem menos a possibilidade de predomínio do poder e se tornam mais um convite à oposição.

Em parte porque os anos de eleição presidencial – em que o eleitorado é grande e diverso demograficamente, além do peso mais ou menos igual dos votos em todo o país – são muito diferentes dos anos de eleições mais frequentes para outras instituições. Como afirmou o cientista político Thomas F. Schaller em seu livro The Stronghold (“A Fortaleza”), o Partido Republicano está centralizado no Congresso, refletindo a geografia de sua base de apoio, que mudou.

Na última geração, os republicanos ganharam força nas áreas rurais. O que significa uma vantagem enorme no Senado, onde Estados menos populosos possuem a mesma quantidade de assentos que os mais densamente povoados.

Essa vantagem estrutural se aplica à Câmara dos Deputados. Muitos votos democratas são desperdiçados em maiorias amontoadas nas cidades. Os republicanos conseguem manter uma maioria mesmo que os democratas conquistem mais votos. Em 2012, os republicanos tinham uma vantagem de mais de 30 cadeiras na Câmara mesmo recebendo menos votos em eleições para deputado.

Nossas eleições frequentes oferecem mais uma vantagem estrutural para os republicanos: o comparecimento dos eleitores nas eleições tem diminuído drasticamente, desde as eleições presidenciais até as intermediárias. 

O que é uma novidade é a grande vantagem hoje dos republicanos no caso de um menor comparecimento do eleitor nas eleições intermediárias, provocado em grande parte pela mudança dos eleitores mais velhos, que votam em massa, do Partido Democrata para o Republicano. O desequilíbrio explica o sucesso republicano nas eleições para governador, mais de quatro quintos das quais não coincidem com as eleições presidenciais.

Mudança. O eleitorado vem mudando de modo que reduzirá a vantagem dos republicanos no futuro. Em particular, ele vem ficando muito mais diversificado.

Os republicanos conseguiram rechaçar esta tendência até um certo ponto, endurecendo a legislação eleitoral (como a lei que exige identidade do eleitor e outras) e mobilizando seus eleitores mais fiéis de maneira mais agressiva. E os têm mobilizado não apesar da desvantagem presidencial, mas em razão dela.

Não se trata somente das vantagens estruturais desfrutadas pelo Partido Republicano. Cada vez mais o partido se nutre do fracasso de seus candidatos presidenciais. Os líderes do partido honestamente lamentam essas derrotas constantes (e podem vir a lamentar mais com o equilíbrio da Suprema Corte agora em jogo). Não estão tentando vencer perdendo, mas é o que estão de fato fazendo. E isso revela muito como o Partido Republicano contemporâneo funciona. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* HACKER É DIRETOR DO INSTITUTO DE ESTUDOS POLÍTICOS E SOCIAIS E PROFESSOR DE CIÊNCIAS POLÍTICA DA UNIVERSIDADE YALE

* PIERSON É PROFESSOR DE CIÊNCIAS POLÍTICAS DA UNIVERSIDADE DA CALIFÓRNIA, BERKELEY

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