Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times

Em derrota para Trump, republicanos desistem de votar fim do Obamacare

Revés, apesar de um Legislativo dominado pelos republicanos, coloca em dúvida capacidade do presidente americano de cumprir outras promessas, como a reforma tributária

Cláudia Trevisan / CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2017 | 17h14

Em uma derrota devastadora para Donald Trump, os republicanos foram obrigados nesta sexta-feira a abandonar o projeto que revogava o Obamacare e o substituía por outro modelo de assistência médica. A medida era uma das principais promessas de campanha do presidente e era defendida por todos os parlamentares que integram sua legenda. Ainda assim, eles não chegaram a um acordo sobre as características do novo sistema.

Com o fracasso, a reforma do sistema de saúde aprovada pelos democratas em 2010 continuará em vigor. Os republicanos centrarão seus esforços na reforma tributária, outra prioridade da agenda de Trump. “Nós vamos viver com o Obamacare no futuro previsível”, disse o presidente da Câmara dos Deputados, Paul Ryan, outro grande derrotado do dia.

Durante a campanha, Trump prometeu reiteradas vezes que substituiria “imediatamente” o Obamacare por outro modelo mais barato e ampliaria o número de pessoas com acesso a seguro-saúde. O revés de ontem foi seu primeiro grande teste legislativo e mostrou que seu talento negociador como empresário pode não funcionar em Washington.

O presidente disse que a retirada do projeto era a “melhor coisa” que poderia acontecer. “Nós vamos ter um ótimo projeto de assistência médica no futuro, depois que essa confusão chamada Obamacare explodir”, afirmou.

A liderança do partido abandonou o projeto quando ficou claro que não havia votos suficientes para aprová-lo. A decisão foi comunicada aos parlamentares em uma reunião pouco antes das 16 horas (17 horas no horário de Brasília). 

Os republicanos tentam há sete anos revogar o Obamacare, aprovado com o objetivo de ampliar o universo da população com seguro-saúde e garantir acesso à cobertura a pessoas com doenças pré-existentes. Trump e seu partido afirmam que a reforma encareceu o preço dos contratos e representou uma ampliação indevida da intervenção do Estado nas escolhas médicas dos cidadãos. Também argumentam que ela provocou custos excessivos para pequenas e médias empresas e teve impacto negativo sobre a geração de empregos.

Nas eleições de novembro, os republicanos conquistaram a Casa Branca e mantiveram sua maioria na Câmara e no Senado. Em tese, isso abriu a possibilidade para o cumprimento da promessa feita por todos os parlamentares da legenda nos últimos sete anos. “Passar de um partido de oposição para um partido de governo vem com dores de crescimento”, disse Ryan após a retirada do projeto.

A proposta fracassou por não ter apoio dos ultraconservadores da legenda, que queriam o desmantelamento de uma série de garantias dadas pelo Obamacare, com o objetivo de obter uma redução acentuada nos preços de seguro-saúde. Durante a negociação, eles conseguiram incluir na proposta a eliminação da obrigatoriedade de cobertura de serviço de maternidade, saúde mental e medicamentos, mas demandavam mais mudanças.

Ao atender a exigências dos conservadores, a liderança republicana perdeu apoio de alguns moderados, que não queriam ver reduções drásticas nos benefícios oferecidos pelas seguradoras. Para aprovar a medida, os republicanos precisavam de no mínimo 216 votos, mas tinham conseguido garantir pouco mais de 190.

“Eu nunca disse ia rejeitar e substituir (o Obamacare) em 64 dias”, disse Trump, quando questionado sobre sua promessa de campanha. Mas foi o presidente que deu um ultimato à bancada republicana na noite de quinta-feira, ao dizer que os parlamentares deveriam votar o projeto e viver com o Obamacare, caso ele fosse rejeitado.

Preocupação. O órgão do Congresso encarregado de avaliar o impacto de propostas legislativas estimou que a proposta deixaria 14 milhões de americanos sem seguro-saúde no próximo ano, em comparação com os números que seriam obtidos com as regras atualmente em vigor. Dentro de dez anos, a cifra chegaria a 24 milhões.

Pesquisa divulgada na quinta-feira pela Universidade Quinnipiac mostrou que apenas 17% dos entrevistados apoiavam o projeto republicano, enquanto 56% o rejeitavam – 26% se declararam indecisos. Entre simpatizantes da legenda, 46% disseram que estariam menos inclinados a votar em um parlamentar que apoiasse o projeto. Apenas 19% afirmaram que o voto a favor reforçaria sua preferência pelo parlamentar. Outros 29% declararam que o voto não influenciaria sua posição em uma eleição.

A grande dúvida é se a derrota no Obamacare é um prenúncio das dificuldades que Trump terá no futuro para aprovar sua agenda no Congresso. Também não há consenso entre os republicanos em relação à “taxa de ajuste na fronteira”, que eleva o custo das importações e é um dos principais pontos da reforma tributária.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.