Sarah Silbiger/The New York Times
Sarah Silbiger/The New York Times

Em visita à fronteira com México, Trump diz que país 'está cheio'

Em discurso no Sul da Califórnia, presidente afirma que requerentes de asilo são membros de gangues tentando ludibriar o governo americano, e elogiou prisões de imigrantes na fronteira

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2019 | 15h14

CALEXICO, EUA — Durante um discurso numa mesa redonda no município fronteiriço de Calexico, na Califórnia, o presidente americano, Donald Trump, afirmou que o sistema de imigração dos Estados Unidos “está cheio”, independentemente dos pedidos de asilo que possam ou não ser feitos por aqueles que cruzam a fronteira e entram no território do país.

 “O sistema está cheio. Não podemos recebê-los mais, seja com pedidos de asilo ou com o que quer que vocês queiram. Trata-se de imigração ilegal”, afirmou Trump, alegando que cerca de 640 quilômetros de barreiras na fronteira serão completados ainda esse ano. “Não podemos mais receber ninguém. Sinto muito. Tratem de dar meia volta, é assim.”

Segundo Trump, a decisão de seu governo de classificar a situação na fronteira com o México como “uma absoluta emergência”. “Vejo que alguns de nossos maiores oponentes resolveram dizer nos últimos dois dias que se trata realmente de uma emergência, eles não conseguem acreditar no que está acontecendo”, afirmou o presidente. “Pessoas querem entrar para o país e não deveriam estar vindo para cá. Não deveriam.”

O presidente também voltou a repetir alegações de que requerentes de asilo estariam “ludibriando” os Estados Unidos. “Eles são recebidos pro advogados e leem o que os advogados os dizem para ler. Eles são membros de gangues e repetem “Temo pela minha vida”. “São eles que elevam medo às vidas das pessoas. É uma trapaça, ok? Uma farsa. Sei tudo sobre esse tipo de farsa, acebei de enfrentar uma delas. Não receberemos mais ninguém”.

Nas últimas semanas, o governo americano ameaçou fechar a fronteira para combater ações do narcotráfico e a imigração ilegal, e também suspendeu a ajuda a países do chamado Triângulo Norte — El Salvador, Guatemal e Honduras — algo que pode agravar ainda mais a crise migratória na fronteira sul dos Estados Unidos.

Trump provocou revolta em setores políticos e empresariais na sexta-feira passada ao advertir o México que fecharia a fronteira "por muito tempo" se as autoridades mexicanas não parassem as caravanas de migrantes. Mas ele recuou, dando ao México um ano para conter o tráfico de drogas na fronteira antes de impor tarifas sobre seus veículos, mas sem esclarecer se a contenção de imigrantes sem documentos também seria incluída neste prazo.

Ainda na quinta-feira, Trump voltou a advertir os jornalistas que não mudou de opinião, mesmo que tenha comemorado no Twitter o fato de o México estar "pela primeira vez em décadas realizando prisões significativas de ilegais em sua fronteira sul, antes que os migrantes iniciem sua longa jornada para os Estados Unidos".

"O México tem feito um trabalho fantástico nos últimos quatro dias, estão detendo todos, ontem detiveram 1.400 pessoas", disse ele nesta sexta antes de voar para a Califórnia, embora no Twitter tenha reiterado as ameaças de impor tarifas de 25% sobre os carros procedentes do México.

Um total de 80% das exportações de automóveis fabricados no México, importante pilar de sua produção industrial, destina-se aos Estados Unidos e Canadá. "Se isso não funcionar, vou fechar a fronteira", ameaçou novamente Trump, observando ainda que está avaliando o estabelecimento de sanções econômicas de cerca de US$ 500 bilhões pelas drogas que entram nos EUA.

Trump assegura que há uma emergência nacional pelo fluxo de imigrantes e drogas e são necessárias medidas drásticas, mas suas ameaças de fechamento da fronteira levantam preocupações até mesmo no próprio Partido Republicano, que alertou para as consequências econômicas. "Fechar a fronteira teria um impacto potencialmente catastrófico para o nosso país e esperamos que não faça nada parecido", disse o líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell. 

Comércio. 

A fronteira entre os EUA e o México é uma das mais movimentadas do mundo, com circulação diária de centenas de milhares de pessoas e US$ 1,7 bilhão em produtos agrícolas, industriais e outros bens de consumo.

Economistas, legisladores e empresários disseram esta semana que o fechamento seria um terremoto econômico que poderia resultar em milhares de demissões, deixando as prateleiras dos supermercados vazias.

Desde a implementação do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) em 1994, renegociado no ano passado a pedido de Trump, as economias de EUA, Canadá e México estão profundamente interligadas. O México é a maior fonte de importações agrícolas dos EUA, com cerca de 2,7 milhões de toneladas métricas de envios para o norte que alimentam o país nos meses mais frios em que os consumidores podem continuar a comer melancias, tomates e abacates. / AFP

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