AP Photo/Andrew Harnik
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Trump elogia guarda de imigração hispânico por falar inglês perfeitamente

Em evento para homenagear funcionários da Agência de Imigração e Alfândega, presidente americano fala de forma irônica sobre habilidade linguística de um dos laureados; líder de organização que representa agentes diz que não viu problema no comentário

O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2018 | 15h50

WASHINGTON - Era pra ser uma cerimônia em homenagem aos agentes da Agência de Imigração e Alfândega (ICE, em inglês) que arriscam suas vidas para proteger os cidadãos americanos. Mas o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parecia estar interessado em ressaltar algo a mais: a etnia de um dos homens que ele estava honrando.

"Fala inglês perfeitamente", disse Trump ao encorajar Adrian Anzaldua, um agente de patrulha de fronteira hispano-americano, a se juntar a ele no palco no East Room da Casa Branca

Anzaldua foi o responsável pela prisão recente um contrabandista em Laredo que tentou levar ilegalmente 78 pessoas para os EUA dentro de um caminhão. "Venha aqui. Eu quero perguntar-lhe sobre isso - 78 vidas”, disse Trump, colocando Anzaldua no púlpito. “Você salvou 78 pessoas. Então, como você sentiu ao saber que havia pessoas naquele caminhão?"

Se Anzaldua ficou ofendido, ele não demonstrou. O agente de patrulha sorriu, caminhou até o púlpito e depois ofereceu um breve relato de como recebeu um alerta sobre o caminhão e usou um cão farejador para procurar e localizar "muitos sujeitos".

"Trabalho incrível - que ótimo trabalho ele fez", disse Trump, acrescentando ironicamente: "Amanhã ele anunciará que disputará a presidência."

O episódio é o mais recente exemplo de um comentário com conotação racial feito por Trump em público, desta vez durante um evento planejado para destacar sua dura agenda sobre imigração. 

Hector Garza, colega de Anzaldua e vice-presidente do Conselho Nacional da Patrulha de Fronteira - organização que apoiou Trump na disputa presidencial de 2016 -, disse estar orgulhoso do amigo e não ter visto nada de errado na declaração do presidente americano. 

"Eu não achei nada disso", afirmou Garza, que assim como Anzaldua é hispânico. "O que acontece é que o presidente Trump se sente muito confortável com nossos agentes, e nossos agentes apoiam o presidente Trump", justificou. "Acho que ele (Trump) se sentiu confortável ao falar com um de nossos agentes. Eu não vi nada de errado com isso."

O agente Anzaldua não respondeu os contatos feitos pelo NYT por telefone e por e-mail para comentar a declaração de Trump. Representantes da Casa Branca e do ICE também não se pronunciaram.

Apesar do objetivo oficial do evento, Trump transformou a cerimônia em um ataque político contra democratas, argumentando que se seus opositores assumirem o Congresso depois da votação de novembro o país sucumbirá ao caos e ao crime.

Trump também  retratou democratas e progressistas que criticaram as táticas do ICE como fracos em relação ao combate ao crime e disse que eles não reconhecem os sacrifícios que os agentes fazem para policiar as fronteiras do país e combater aqueles que violam a lei.

"O muro (na fronteira com o México) está ficando mais longo, alto e resistente a cada dia", disse o presidente, apesar de o próprio Congresso - controlado pelos republicanos - ter barrado o gasto de parte da verba que foi alocada para a construção dos protótipos da barreira. 

"Estamos construindo o muro, passo a passo, e não é fácil porque temos uma pequena oposição chamada democratas. Imagino que eles não se importam com os crimes. E isto é triste."

Políticos democratas que apoiam o fim do ICE como a agência funciona atualmente acusaram Trump de exagerar deliberadamente suas visões para ganhar "pontos políticos" com apoiadores.

"(As declarações de Trump) são puramente política e teatro", disse o deputado Adriano Espaillat, democrata de Nova York que defende uma legislação para dissolver o ICE e a criação de uma comissão para repensar como uma sucessora da agência deve atuar. "Ele está tentando caracterizar as pessoas que defendem uma agência imigratória justa e prática como os vilões." / NYT

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