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Trump em Guantánamo

Presidente dos EUA propõe medidas que farão com que mais mexicanos tentem ingressar no país

Moisés Naím, O Estado de S. Paulo

23 Janeiro 2017 | 05h00

Em 2007, o então candidato à presidência Barack Obama prometeu que uma das suas primeiras medidas ao tomar posse seria fechar a prisão na base militar americana em Guantánamo, Cuba. E já como presidente tentou várias vezes, e de diversas maneiras, fechá-la. Nada deu certo. Depois de oito anos no cargo, Obama deixa a Casa Branca e a prisão continua no mesmo lugar. 

Donald Trump terá muitas frustrações como ocorreu com Obama no caso de Guantánamo. Na verdade, no mundo atual, isso é normal. Os presidentes, mesmo nos países mais autoritários, se deparam com mais limitações do que nunca para fazer tudo o que quiserem. Poderíamos chamar isso de síndrome de Guantánamo. 

Embora a incapacidade de os presidentes para cumprir o que prometem seja o normal, Trump terá uma dose alta anormal de promessas não cumpridas e desejos insatisfeitos. O que é paradoxal, já que o novo presidente conta a maioria no Congresso e uma Suprema Corte que lhe é favorável. Mas não será suficiente para contrabalançar outras forças que limitarão sua capacidade de realizar o que prometeu. 

Extraditar milhões de imigrantes ilegais, proibir a entrada de muçulmanos, substituir completamente a reforma da saúde promulgada por Obama, obrigar o México a pagar pelo muro que pretende construir na fronteira dos dois países e autorizar o uso da tortura são algumas das promessas que ele não conseguirá cumprir. 

Os obstáculos políticos, as restrições fiscais, os limites impostos pela economia e a política mundial, a inexperiência e o estilo pessoal do novo presidente, e sobretudo os tribunais, serão fonte de muitas frustrações para o governo que acabar de ser investido em Washington. 

Trump descobrirá, por exemplo, que algumas das suas iniciativas não contam com a simpatia de seus partidários no Congresso. Os senadores e deputados republicanos não formam um bloco monolítico e o seu apoio ao presidente não é automático, nem está assegurado. Muitos dos líderes republicanos não compartilham da duvidosa afinidade do novo presidente com Putin e defendem uma linha dura com a Rússia. Recentemente no Senado, Marco Rubio pressionou Rex Tillerson, indicado para ser secretário de Estado, a admitir publicamente que o líder russo é um criminoso de guerra. 

Trump também descobrirá que o Congresso não aprovará todos os gastos exigidos pelos seus planos. Além disso, o presidente pretende baixar os impostos, o que fará com que a diferença entre receitas e despesas do governo cresça significativamente. O déficit fiscal provocará muito atrito entre o presidente e companheiros de partido, que têm posições bem mais conservadoras com relação ao gasto público. 

O mundo também não vai facilitar as coisas. Não só existem tratados e alianças internacionais dos quais os EUA não conseguirão se evadir, como também as posições mais radicais de Trump provocarão reações de outros países que limitarão as opções da Casa Branca. Suas políticas também poderão ter efeitos inesperados que dificultarão sua implementação. 

O México é um bom exemplo. Durante o governo de Obama, o número de mexicanos vivendo ilegalmente nos EUA diminuiu em cerca de um milhão, em relação ao máximo registrado durante o governo de George W. Bush. Apesar disso, Trump planeja construir um muro de 3 mil quilômetros a um custo estimado de US$ 25 bilhões. Mas ao mesmo tempo que pretende construir esse muro, propõe medidas que farão com que mais mexicanos tentem ingressar nos EUA. Antes mesmo de tomar posse, Trump criou um ambiente que já fragilizou a economia mexicana (o peso se desvalorizou e várias empresas cancelaram seus investimentos). Uma economia frágil significa menos vagas de trabalho e piores salários, o que estimula a emigração para o norte, que o muro não impedirá. A Europa não é separada da África por um muro, mas um oceano, e isso não detém os imigrantes decididos a chegar ao Velho Continente. Não importa. 

O bilionário Wilbur Ross, novo secretário do Comércio, declarou que renegociar o acordo de livre-comércio com o México e Canadá será prioridade do novo governo. 

Entretanto, as batalhas mais frequentes e duras não serão no Congresso ou no campo internacional, mas nos tribunais. Trump adotará muitas medidas políticas e tomará decisões legalmente vulneráveis. Várias das suas propostas violam a Constituição ou leis promulgadas no país. Grupos de oposição e organizações não governamentais que se ocupam da proteção dos direitos civis, da defesa dos direitos humanos, do meio ambiente, da liberdade de imprensa ou que lutam pelos direitos das mulheres e dos imigrantes, já se preparam para discutir nos tribunais as iniciativas do novo presidente. Governos estaduais, como o da Califórnia, já adotaram medidas para anular algumas iniciativas prometidas por Washington. 

É evidente que Donald Trump terá muito poder. Mas é também incontestável que ele será surpreendido pela síndrome de Guantánamo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

 

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