Amanda Voisard/The Washington Post
Amanda Voisard/The Washington Post

Trump enaltece droga não comprovada como 'uma cura' e diz que vai 'acelerar sua aprovação'

Regeneron, um remédio experimental, é conhecido por criar uma sensação de bem-estar e euforia em muitas pessoas que o tomam, bem como explosões de energia

Maggie Haberman e Katie Thomas, The New York Times, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2020 | 08h30

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, divulgou na noite desta quarta-feira um vídeo em que discursa se dirigindo à nação, no qual chamou a sua infecção pelo coronavírus de "uma bênção de Deus", classificou um medicamento não aprovado como "cura" e disse que forneceria gratuitamente centenas de milhares de doses de remédios que ainda não passaram por todas as fases de testes aos americanos.

"Acho que foi uma bênção de Deus que eu peguei", disse Trump no vídeo de quase cinco minutos, publicado depois de quase dois dias fora da vista do público e pouco mais de três horas antes do vice-presidente Mike Pence começar o debate com a candidato democrata à Vice-Presidência, a senadora Kamala Harris, da Califórnia.

No vídeo, Trump explicou que considerava uma "bênção" ter ficado doente com um vírus que matou mais de um milhão de pessoas, incluindo mais de 211 mil americanos, porque ele acabou tomando um coquetel experimental de anticorpos, ainda em ensaios clínicos, que é produzido pela Regeneron.

"Para mim não foi terapêutico; apenas me fez melhor, certo? Chamo isso de cura", disse Trump, cuja pele parecia escurecida pela maquiagem e às vezes dava a impressão de ter dificuldade para respirar.

O presidente então disse que todos deveriam ter acesso "de graça" ao medicamento ainda não aprovado e que ele se certificaria de que estivesse em todos os hospitais o mais rápido possível. Ele alegou ter escolhido pessoalmente a droga como parte de seu tratamento.

"Eu me sinto ótimo. Me sinto, tipo, perfeito", declarou Trump. Foi a primeira vez que Trump reconheceu ter recebido cuidados que não estão disponíveis para nenhum membro do público em geral, desde que, na última sexta-feira, ele informou que tinha tido um teste com resultado positivo para o vírus.

Trump não forneceu quaisquer detalhes sobre como ele iria acelerar a distribuição da droga, exceto se referindo aos militares e dizendo que eles poderiam ajudar. A Regeneron recebeu mais de US$ 500 milhões do governo federal para desenvolver e fabricar seu tratamento experimental como parte da Operação Warp Speed (Operação Velocdade da Dobra), um esforço federal para criar vacinas e tratamentos viáveis para o vírus.

"São ótimos profissionais, fizeram um trabalho fantástico", disse ele sobre os profissionais de saúde que cuidaram dele.

Isso inclui Sean Conley, o médico da Casa Branca, que disse em uma entrevista coletiva dois dias atrás que não estava claro se Trump estaria "fora de perigo" por mais uma semana, dado o curso típico da doença.

Ele começou o vídeo dizendo "Talvez você me reconheça, é o seu presidente favorito", e  encerrou dizendo "Boa sorte".

O vídeo foi divulgado um dia depois que assessores rejeitaram um possível discurso ao vivo na televisão de Trump, para mostrá-lo firmemente no comando depois de ter voltado para a Casa Branca do Centro Médico Nacional Walter Reed, onde recebeu tratamento para a covid-19.

O presidente está desesperado para anunciar algum tipo de tratamento definitivo, ou uma vacina, antes da eleição de 3 de novembro, na qual quase todas as pesquisas mostram que ele está atrás de Biden nacionalmente e em Estados-chave.

O coquetel de anticorpos Regeneron não é a única droga prescrita a Trump. Ele também está tomando o antiviral Remdesivir, bem como a dexametasona, um corticóide que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA (NIH) recomendam apenas para pessoas que sofrem de casos graves ou críticos de covid-19.

Os médicos se recusaram a dizer quais outros medicamentos Trump está tomando enquanto luta contra o vírus.

É impossível saber se o tratamento curou o presidente ou mesmo se ele venceu a doença. A maioria das pessoas com covid-19 acaba se recuperando, e especialistas médicos também disseram que Trump provavelmente ainda está lutando contra a infecção.

A dexametasona, que Trump recebeu pela primeira vez no sábado, é conhecida por criar uma sensação de bem-estar e euforia em muitas pessoas que a tomam bem como explosões de energia, embora especialistas ouvidos pelo GLOBO disseram que esse efeito colateral depende da dose e da duração do tratamento.

Especialistas médicos de fora da Casa Branca disseram que a próxima semana será crucial porque muitos pacientes pioram na segunda semana após o aparecimento dos sintomas.

Com a ajuda federal, a Regeneron disse que pode produzir até 300 mil doses do tratamento, que deve ser fornecido aos americanos gratuitamente. Esta é uma das várias terapias de anticorpos - outra está sendo desenvolvida pela Eli Lilly - que visa dar às pessoas anticorpos poderosos na esperança de aumentar sua resposta imunológica ao coronavírus.

Embora ambas as empresas tenham relatado resultados iniciais promissores, os testes clínicos ainda estão em andamento e não foram concluídos. Embora Trump credite ao tratamento Regeneron a melhora de sua doença, não há como saber se um medicamento é seguro e se funciona sem testá-lo em grandes grupos de pessoas, com algumas que recebem o medicamento e algumas que recebem um placebo .

A Regeneron e Eli Lilly disseram que as terapias podem estar disponíveis antes do final do ano. Alguns especialistas médicos têm visto as terapias como uma espécie de ponte até que as vacinas estejam disponíveis - a infusão de anticorpos poderia ser dada a pessoas que foram expostas ao vírus para prevenir a infecção, bem como a pessoas que ainda estão no início da doença.

Em seu vídeo, Trump sugeriu que os tratamentos poderiam ser autorizados em breve para uso de emergência, uma medida potencialmente arriscada porque poderia permitir que os tratamentos se tornassem amplamente usados antes de se provar que funcionam. O acesso mais amplo aos medicamentos poderia prejudicar a inscrição em ensaios clínicos, porque as pessoas podem ficar relutantes em participar se houver uma chance de receberem um placebo.

Preocupações semelhantes foram levantadas depois que a Food and Drug Administration (FDA, a Anvisa americana) criou um amplo programa de acesso para uma terapia semelhante, conhecida como plasma convalescente. A inscrição em testes de plasma foi interrompida em parte porque médicos e hospitais puderam obter acesso ao tratamento por meio do programa da FDA. Como resultado, ainda não está claro se o plasma convalescente é eficaz no tratamento da covid-19, embora o FDA o tenha aprovado para uso de emergência depois que Trump pressionou a agência a fazê-lo.

Anticorpos monoclonais como os que a Regeneron está desenvolvendo são difíceis e caros de fabricar, e alguns levantaram questões sobre se as empresas serão capazes de produzir o suficiente para atender à demanda global se for comprovado que funcionam. Em agosto, a empresa anunciou que estava se associando a uma empresa maior, a Roche, para aumentar a produção.

Investigações de fraude eleitoral autorizadas

O Departamento de Justiça suspendeu uma proibição de investigações de fraude eleitoral nos últimos meses antes de uma eleição, que existia por medo de que isso pudesse diminuir o comparecimento de eleitores ou minar a confiança nos resultados.

A ação ocorre no momento em que Trump e o procurador-geral William Barr promovem uma narrativa falsa de que a fraude eleitoral é avassaladora, potencialmente minando a fé dos americanos na eleição.

Um advogado do Departamento de Justiça em Washington disse em um memorando aos promotores na sexta-feira que eles poderiam investigar suspeitas de fraude eleitoral antes que os votos fossem tabulados. Isso reverteu uma política de décadas que proibia em grande parte a condução agressiva de tais investigações durante as campanhas para impedir que sua existência se tornasse pública e, possivelmente, "inibisse a votação legítima e as atividades de campanha" ou "interpusesse a própria investigação como um problema" para os eleitores.

O memorando cria "uma exceção à não interferência geral na política eleitoral" para suspeitas de fraude eleitoral, particularmente má conduta de funcionários do governo federal, incluindo funcionários dos correios ou militares. A exceção permite que os investigadores tomem medidas de investigação explícitas, como interrogar testemunhas, que antes eram proibidas em tais investigações até que os resultados das eleições fossem certificados.

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