Doug Mills/The New York Times
Doug Mills/The New York Times

Trump enfrenta problemas para restabelecer a comunicação direta com sua base; leia análise 

Algo ficou faltando também para os apoiadores de Trump; para muitos deles, as postagens nas redes sociais eram as notícias da presidência

The Washington Post / Philip Bump, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2021 | 07h00

WASHINGTON - A equipe do ex-presidente Donald Trump sugeriu que lançará uma plataforma de mídia centrada no republicano com a sutileza que lhe é característica. “É algo que, acredito, será a rede social mais badalada”, afirmou o consultor Jason Miller à Fox News, em março. “Isso vai redefinir completamente o jogo, e todos ficarão ansiosos e atentos para ver exatamente o que o presidente Trump faz."

A última parte da afirmação é verdadeira - as pessoas certamente estão curiosas a respeito dos próximos passos de Trump. E então, na tarde da terça-feira, veio a resposta: a equipe de Trump lançou um blog.

Chamado 'Da mesa de Donald Trump', o site é pouco mais que uma lista, ao estilo Twitter, dos “comunicados à imprensa” que substituíram as frequentes postagens do ex-presidente na rede social que já foi sua favorita. Esses comunicados, disse ele no mês passado a Sean Hannity, da Fox News, são “melhores que o Twitter, muito mais elegantes que o Twitter”. E agora são publicados como se fossem tuítes, com um botão de “compartilhar no Twitter” para os fãs.

O blog, declarou um vídeo de apresentação, é um “lugar para falar livremente e com segurança”, o que, dado o contexto, é parecido com gabar-se das liberdades garantidas pela Primeira Emenda que cada um desfruta dentro da própria casa. A coisa toda gira em torno de uma dupla premissa negativa: trata-se de uma plataforma que pouco tem de rede social lançada como uma rede social indireta, que não contém nenhum elemento de sociabilidade. Falando com a Fox após o lançamento do site, Miller sugeriu que a “badalação” prometida ainda está por vir, após “informações adicionais postadas por lá em um futuro muito próximo”. OK, claro.

O timing do episódio é muito interessante. A equipe de Trump lançou a 'Mesa' menos de 24 horas antes de o Conselho de Supervisão do Facebook anunciar que manterá, pelo menos por agora, o banimento das contas de Trump tanto na principal rede social da empresa quanto no Instagram. Assim como fizeram outras plataformas, o Facebook baniu Trump após o ataque de 6 de janeiro contra o Capitólio promovido por seus apoiadores e depois de o ex-presidente não ter demonstrado interesse em usar a plataforma para desencorajar uma insurreição similar motivada por sua derrota na eleição de 2020.

Para um líder acostumado a atrair (e buscar) atenção constante, deve ter sido devastador perder ao mesmo tempo suas contas no Twitter e Facebook e, pouco depois, a presidência. Ele ficou mais quieto por um tempo, dado o processo de impeachment que se seguiu ao ataque contra o Capitólio e dadas as tensões que se desenvolviam em razão da transferência de poder - tensões fomentadas por Trump. Mas, com o tempo, a impossibilidade de se dirigir diretamente à sua ainda entusiástica base claramente começou a cobrar seu preço.

Trump ainda consegue aparecer na Fox News ou dar declarações a algum podcast conservador aleatório, mas não é a mesma coisa. Seus comunicados à imprensa não dão o mesmo barato que assistir aos números do alcance de seus tuítes e postagens, uma métrica que ele admitiu que acompanha. Algo estava faltando.

Algo ficou faltando também para os apoiadores de Trump. Para muitos deles, as postagens de Trump nas redes sociais eram as notícias da presidência. Uma pesquisa do Pew Research Center feita durante o fim da campanha eleitoral e o período que se seguiu à eleição mostrou que somente 6% dos republicanos mais conservadores confiavam plenamente nas notícias veiculadas pelos meios de comunicação do país. Sessenta e quatro porcento afirmaram que acompanhavam bastante ou muito atentamente os comentários de Trump após a eleição.

Michael Kruse, do Politico, abordou esse fenômeno ouvindo apoiadores de Trump que ficaram atordoados pela incerteza que decorreu do silêncio do ex-presidente. Em um comício de um candidato apoiado por Trump em Ohio, Kruse constatou que muitos dos presentes não sabiam que o candidato havia recebido o endosso de Trump em pessoa, e não meramente da equipe do ex-presidente. Essa linha direta de Trump com sua base estava rompida.

Essa linha direta, em si, pode ser problemática. Uma pesquisa publicada este mês mostra que as pessoas que buscavam informações em canais e redes sociais conservadores no ano passado tinham mais propensão de acreditar em teorias da conspiração a respeito da pandemia de coronavírus.

O próprio Trump, é evidente, usou com frequência as redes sociais para espalhar notícias falsas, um hábito que se tornou cada vez mais problemático  após a eleição, enquanto Trump lutava para reverter sua derrota. Trump usava o Facebook e o Twitter para ser ouvido diretamente por seus apoiadores - mas o que ele dizia era, frequentemente, mentira.

Mas o Facebook, em particular, foi muito útil para o ex-presidente. Em primeiro lugar, é justo afirmar que, sem o Facebook, ele não teria conquistado a presidência. A equipe de Trump usou o Facebook com ótimos resultados em 2016, com a colaboração de um funcionário do Facebook, levantando enormes quantias em dinheiro e veiculando anúncios segmentados para aumentar o apoio ao então candidato. O Twitter lhe serviu como meio de chamar atenção e dar forma à sua narrativa. O Facebook era o fundamento de sua verdadeira atuação política.

No centro da discussão a respeito da atividade de Trump no Facebook está a maneira como a rede social pode ter dado vazão para os mais obscuros impulsos do ex-presidente. O Conselho de Supervisão alertou para a necessidade urgente de cortar a conexão de Trump com sua base nas horas que se seguiram ao ataque ao Capitólio, um período em que Trump elogiou publicamente quem participou da insurreição.

“O Conselho constatou que, ao manter uma infundada narrativa de fraude eleitoral e fazer persistentes chamados à ação, Trump criou um ambiente em que havia um sério risco de violência”, declarou o organismo em sua decisão. “No momento das postagens de Trump, havia um risco claro e imediato de violência, e as palavras dele em apoio às pessoas envolvidas nos distúrbios legitimavam suas ações violentas.”

Posteriormente, a questão passou a ser se o banimento deveria ser mantido mesmo após aquele sério risco ter sido superado. 

Não há dúvidas de que, se for readmitido no Facebook e no Twitter, Trump continuará a espalhar notícias falsas e provocações. Basta ler os “comunicados à imprensa” do ex-presidente para constatar que ele mantém a mesma relação casual e o mesmo desapego em relação à verdade que definiram sua presidência. Chama um pouco a atenção o fato de o Conselho de Supervisão ter sido contrário ao banimento definitivo de Trump sem notar que os comportamentos exibidos em 6 de janeiro continuaram inalterados.

Mas o conselho fez uma recomendação que aborda o ponto central da questão. De acordo com o organismo, o Facebook deveria:

“…realizar uma análise abrangente da contribuição potencial do Facebook para a narrativa de fraude eleitoral e as tensões exacerbadas que culminaram na violência vista nos EUA em 6 de janeiro. Esta deveria ser uma reflexão aberta a respeito das escolhas de design e política feitas pelo Facebook que podem possibilitar o abuso de sua plataforma.”

Isso fala diretamente a respeito do perigo que a possibilidade das notícias falsas fluírem sem impedimentos representa. Também trata do ponto central da questão em torno do banimento de Trump.

Agora ele tem sua própria plataforma não-social, onde pode “falar livremente e com segurança” tudo que sente. Mas não está resolvida a questão em torno da facilidade com que Trump e outros - como no esforço pós-eleitoral do 'Stop the Steal' (Parem a fraude), que ele inspirou - aproveitam o Facebook e outras ferramentas para criar uma infraestrutura fundada amplamente na desinformação, em primeiro lugar.

A linha entre a censura e o bloqueio de discursos problemáticos é tênue o suficiente para chegar agora ao centro da mal definida guerra da mídia conservadora contra a “cultura do cancelamento". Deveria ser permitido a um presidente passar a mão na cabeça de desordeiros rebeldes enquanto eles ainda estão cercando o Capitólio? Provavelmente não. Deveria ser permitido a um ex-presidente continuar dando declarações falsas a respeito do resultado de uma eleição com o objetivo específico de minar a confiança no processo eleitoral? Essa resposta não é tão clara.

É evidente que toda essa discussão perde a importância diante da promessa da equipe de Trump de criar sua transformadora rede social, ainda sem data de lançamento. Enquanto isso, a linha direta de Trump com sua base está sendo recosturada por seu novo blog e o fluxo de entrevistas na Fox News. E, enquanto isso, felizmente não houve nenhum outro ataque contra o Capitólio./ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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