Mladen Antonov/Reuters
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Lourival Sant'Anna
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Trump equilibra os pratos

Ao mesmo tempo, líder americano lida com as provocações da Coreia do Norte e a projeção de poder da China e da Rússia

O Estado de S.Paulo

09 Julho 2017 | 05h00

Todo presidente americano convive com o triplo desafio de cuidar da economia, dos interesses estratégicos globais dos EUA e, claro, da própria popularidade. As políticas externa e de defesa americanas são um resultado da correlação entre esses três objetivos. 

Ao longo de décadas sobrevivendo e crescendo no selvagem mercado imobiliário de Nova York, Donald Trump desenvolveu uma autoconfiança sobre sua habilidade de equilibrar pratos. É o que o presidente americano está tentando fazer, ao lidar com as provocações da Coreia do Norte e a projeção de poder da China e da Rússia. 

Não é um jogo simples, mas o presidente americano dobra a aposta, ao insistir na vinculação entre comércio e defesa. Trump adotou essa abordagem com a China desde antes de tomar posse, em janeiro, acenando com a imposição de tarifas sobre os produtos chineses se o país não contiver o regime norte-coreano. 

Ele voltou ao tema nesta semana, depois do lançamento, pela Coreia do Norte, de seu primeiro míssil intercontinental, com alcance para atingir o Alasca. Trump ameaçou sobretaxar o aço chinês, que hoje detém 26% do mercado americano, e está sob pressão em razão do excedente de produção das siderúrgicas estatais da China. 

O presidente falou também de “severas” consequências para o comportamento de Pyongyang, e sua embaixadora na ONU, Nikki Haley, admitiu o uso da força militar, mesmo ressalvando que os EUA prefeririam evitá-lo.

Durante a campanha, Trump ameaçou impor tarifas de até 45% sobre os produtos chineses na tentativa de reverter a exportação de empregos industriais americanos. Em si mesma, essa estratégia já é controvertida. Associá-la ao plano geral dos objetivos de defesa americanos seria uma inovação, com resultados duvidosos.

Sanções econômicas têm sido aplicadas para pressionar países a mudar de curso, com variados graus de sucesso. Os exemplos de maior êxito foram o embargo comercial contra a África do Sul como pressão pelo fim do apartheid, nos anos 80, e o papel das sanções contra o Irã na ascensão do presidente moderado Hassan Rohani, em 2013, seguida da assinatura do acordo nuclear, dois anos mais tarde.

Há mais exemplos de fracasso que de êxito: as cinco décadas de bloqueio contra Cuba, as sanções adotadas em 2014 contra a Rússia após a anexação da Crimeia e do apoio aos separatistas russos no leste da Ucrânia e as próprias medidas contra a Coreia do Norte. 

Considerando-se a cultura chinesa, a índole nacionalista do presidente Xi Jinping e a própria importância econômica e comercial da China para o mundo, sanções para pressioná-la a abandonar o excêntrico ditador norte-coreano Kim Jong-un à própria sorte poderiam surtir o efeito contrário do esperado.

Já no papel de caixeiro-viajante, Trump tem colhido resultados. O governo americano aprovou a venda de armas no valor de US$ 1,4 bilhão para Taiwan, que a China considera uma província desgarrada e uma ameaça a sua integridade territorial.

Na visita a Varsóvia, na quarta-feira, Trump selou a venda de oito baterias de mísseis Patriot à Polônia, por US$ 7,6 bilhões.

O alvo é a Rússia, que ainda vê o Leste Europeu como sua zona de influência, mantém mísseis perto da fronteira polonesa, com as ex-repúblicas soviéticas do Mar Báltico e se ressente da incorporação desses países à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Depois de considerar a aliança atlântica “obsoleta”, Trump a elevou ao status de anteparo contra a barbárie. Mais uma vez vinculando economia e defesa, ele louvou a Polônia por ser um dos únicos países a cumprir a meta da Otan de destinar no mínimo 3% do PIB ao orçamento militar.

Depois de condenar o “comportamento desestabilizador da Rússia” e seu “apoio a regimes hostis” (sírio e iraniano), ele firmou com o presidente Vladimir Putin um cessar-fogo na Síria. Qual será o ponto de convergência de tantos objetivos? Tudo depende de onde Trump pretende ancorar sua popularidade cada dia mais rarefeita.

 

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