EFE/EPA/Rod Lamkey / POOL
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Médico diz que Trump 'está muito bem', mas chefe de gabinete fala que 'quadro é preocupante'

Segundo Sean Conley, a febre diminuiu e o republicano está respirando sem auxílio, mas Mark Meadows disse que os próximos dois dias serão determinantes para o tratamento; fontes falam que o presidente recebeu oxigênio na Casa Branca

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2020 | 13h06
Atualizado 05 de outubro de 2020 | 14h49

WASHINGTON - Apesar de médicos da Casa Branca terem informado em coletiva no sábado que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passa bem após testar positivo para a covid-19, o chefe de gabinete do republicano traçou um quadro mais grave. Segundo Mark Meadows, "os sinais vitais de Trump nas últimas 24 horas (sexta-feira) foram preocupantes e as próximas 48 horas serão determinantes para o tratamento".  

"Essa manhã o presidente está se sentindo muito bem", afirmou o médico Sean Conley ao divulgar o estado de saúde de Trump, internado desde a noite de sexta-feira no hospital militar Walter Reed

"Os sinais vitais de Trump nas últimas 24 horas foram preocupantes e as próximas 48 horas serão determinantes para o tratamento. Nós ainda não estamos em um caminho claro para uma recuperação completa", completou Meadows. A informação dada pelo chefe de gabinete havia surgido logo após a coletiva médica, mas foi atribuída a uma fonte próxima ao presidente ao ser enviada a jornalistas que cobrem o dia a dia da Casa Branca.  No meio da tarde deste sábado, veículos americanos confirmaram que Meadows era a fonte.  

A informação do chefe de gabinete revela um quadro mais sério do que o médico Conley descreveu oficialmente. A pergunta que ficou no ar durante a coletiva foi se o presidente recebeu oxigênio suplementar em algum momento desde que começou a se sentir mal. "Ele não teve dificuldade de respirar, não está recebendo oxigênio nesse momento", afirmou Conley. Questionado por jornalistas sobre se Trump precisou de auxílio para respirar em algum momento, o médico apenas disse que desde a noite de sexta não e se negou a dar mais detalhes.

A pergunta foi feita diversas vezes para a equipe médica porque fontes próximas a Trump afirmaram ao The New York Times a à rede ABC News que o presidente estava com dificuldade de respirar quando ainda estava na Casa Branca, na sexta-feira, e recebeu oxigênio suplementar. Foi justamente esse episõdio que levou à necessidade de internação de Trump.

Segundo as fontes, o oxigênio suplementar foi essencial para que o presidente conseguisse sair andando em direção ao helicóptero antes de ser levado ao hospital na noite de sexta. A imagem de Trump andando transmitida ao vivo pelas televisões, nesse caso, seria importante para mostrar que o presidente continuava apto a governar.

Antes de ser levado, em helicóptero, para o hospital, Trump postou um vídeo no Twitter dizendo que se sentia "muito bem". "Quero agradecer a todos pelo tremendo apoio", disse. "Vou ao hospital Walter Reed. Acho que estou muito bem. Mas vamos nos assegurar de que tudo correrá bem".

Conley se recusou a determinar uma data para a alta de Trump e disse que a internação "foi uma precaução". "Ainda não queremos falar em dia da alta porque a fase dois dessa doença (covid) pode vir acompanhada de um quadro inflamatório, então temos que ter cuidado", afirmou o médico, na frente do Centro Médico e acompanhado pelo resto da equipe que cuida de Trump. 

"A primeira-dama não tem indicações para uma internação, ela está muito bem", explicou Conley sobre Melania Trump, que também testou positivo para a covid-19 na sexta-feira, mas não foi internada como o marido.

Conley explicou que Trump teve febre, sem detalhar quanto, tosse e fadiga, mas que os sintomas estão diminuindo. "Nesse momento estamos muito felizes com o progresso de Trump, não vemos nenhuma complicação no momento", disse o médico da Casa Branca, explicando que desde a manhã da sexta-feira a febre vem diminuindo e neste sábado Trump não apresentou mais febre. 

Origem da doença

De acordo com o médico, o diagnóstico de covid-19 de Trump começou a ser fechado antes do resultado do teste ser divulgado, mas, mais uma vez, ele não deu detalhes. Ele levantou a dúvida sobre a data do diagnóstico ao afirmar que o presidente estava há 72 horas com a confirmação da infecção por coronavírus.

Se confirmado, o prazo faria com que Trump já soubesse na quarta-feira da doença e, portanto, o presidente teria feito eventos de campanha sabidamente infectado. Logo depois da coletiva de imprensa, no entanto, o médico se retratou e disse que Trump só foi diagnosticado na quinta-feira, à noite. O anúncio de que o presidente estava com covid foi feito perto da 1h da manhã de sexta-feira.

Questionado sobre evidências de quando e como o presidente se contaminou com o novo coronavírus, Conley se recusou a comentar. "Não vou entrar nos detalhes". 

O presidente, segundo a equipe médica, formada por 10 profissionais, está com as funções cardíaca e renal sendo monitoradas a todo tempo. "Nesse momento está com 96% de saturação. Estamos tomando os cuidados necessários".

Na sexta-feira, a porta-voz da Casa Branca, Kayleigh McEnany, informou que Trump continuaria trabalhando. "Após a recomendação de seu médico e de especialistas, o presidente trabalhará do gabinete presidencial do hospital militar de Walter Reed nos próximos dias", disse ela. O gabinete é equipado para permitir que o presidente continue a desempenhar suas funções.  

 

Em nenhum momento foi passado pela equipe um quadro de saúde que preocupasse mais sobre algum risco de morte. "Ele ainda tem muito trabalho a fazer como chefe de Estado", afirmou o médico, que também não quis comentar sobre testes anteriores realizados pelo presidente.

Aos 74 anos e obeso, Trump é parte do grupo de risco que pode ter complicações decorrentes do contágio por coronavírus. O presidente tem uma conhecida fobia a germes e se incomodou ao saber de pessoas próximas a ele contaminadas pelo coronavírus, antes de sua própria infecção, apesar de seu discurso público e político de que a pandemia não é grave e tem baixo índice de letalidade.  

Rastreando o vírus 

Entre segunda e sexta-feira, Trump interagiu com vários membros da sua equipe, doadores de sua campanha eleitoral e apoiadores. O rastreamento de contágio entre a alta cúpula do governo americano que teve contato com o presidente continuou no sábado. O evento na Casa Branca de nomeação da juíza Amy Coney Barrett à Suprema Corte tem sido apontado com o episódio de propagação do vírus. Pelo menos cinco presentes no evento, além de Trump, estão com covid-19, incluindo dois senadores republicanos, a ex-assessora da Casa Branca, Kellyanne Conway e o responsável pela campanha de Trump, Bill Stepien.

Na sexta-feira, a Casa Branca informou que Trump recebeu o coquetel de anticorpos da empresa Regeneron e, depois, que ele está sendo tratado Trump está sendo tratado com o antiviral Remdesivir. O presidente fez poucas postagens no twitter no sábado e agradeceu o apoio que tem recebido, além de elogiar a equipe do hospital onde está internado. "Tremendo progresso foi feito nos últimos seis meses lutando contra a praga. Com a ajuda deles, estou me sentindo bem!", escreveu Trump.

Nos últimos seis meses, o presidente americano resistiu a usar máscaras em público, entrou em choque com as orientações do corpo de infectologistas que orienta a Casa Branca e minimizou a gravidade do vírus. Em plena disputa eleitoral, ele deve ficar ao menos duas semanas afastado dos comícios, um grande ativo político em sua campanha. O candidato opositor, Joe Biden, endossou no final de semana o apelo para que os americanos usem máscara e se protejam.

Conley explicou que todos os médicos estão usando luvas, máscaras e tomando as medidas necessárias para não contraírem a doença ao cuidar de Trump.   

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