Mohammad Berno/Iranian President's Office via NYT
Mohammad Berno/Iranian President's Office via NYT

Trump fez ameaça privada a países europeus que pressionaram Irã

Governo americano pretendia impor tarifa de 25% sobre automóveis europeus se Alemanha, França e Reino Unido rejeitassem advertir Teerã

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2020 | 21h25

WASHINGTON - Na semana passada, antes de Alemanha, França e Reino Unido acusarem formalmente o Irã de descumprir o acordo nuclear de 2015, o governo de Donald Trump enviou uma ameaça privada que chocou diplomatas dos três países. Se eles rejeitassem advertir Teerã e acionar o mecanismo de disputas do acordo, os EUA poderiam impor uma tarifa de 25% sobre os automóveis europeus.

A ameaça foi revelada nesta quarta-feira, 15, pelo Washington Post com base em fontes europeias. Na terça-feira, os três países acusaram o Irã formalmente de violação, acionando um recurso que poderia levar ao restabelecimento de sanções e enterrar o pacto alcançado no governo de Barack Obama.

Os esforços dos EUA para coagir a política externa da Europa por meio de tarifas, uma medida que os funcionários europeus qualificaram de “extorsão”, representam um novo nível de táticas dos EUA contra antigos aliados, destacando a tumultuada relação transatlântica.

Anteriormente, Trump ameaçou impor a tarifa de 25% sobre os automóveis europeus para obter mais benefícios nas relações comerciais com a União Europeia, mas nunca ditou a política externa do continente. Não ficou claro se foi a ameaça que levou os europeus a tomar a decisão, que eles já vinham considerando. 

Os EUA consideram o mecanismo para solução de disputas, previsto no acordo de 2015, um fator crítico para a imposição de sanções após 65 dias. Os europeus, porém, veem a medida como a última chance de salvar o pacto que eles consideram vital para reduzir as tensões e limitar o programa nuclear do Irã.

“A ameaça de impor tarifas é uma tática da máfia. Não é assim que o relacionamento entre aliados funciona”, disse Jeremy Shapiro, diretor de pesquisas do European Council on Foreign Relations.

Quando questionado sobre a ameaça de Trump, um funcionário de alto escalão da Casa Branca disse que os EUA deixaram claro que o acordo nuclear com o Irã era “horrível”.

Funcionários europeus disseram privadamente que a ameaça de Trump somente complicou a decisão de acionar o mecanismo, que tenta obrigar o Irã a voltar a negociar os termos do acordo. Se a disputa não for solucionada em no máximo 65 dias, as sanções da ONU serão reimpostas ao Irã, incluindo o embargo de armas.

No ano passado, após os EUA deixarem o acordo, o Irã começou gradualmente a descumprir as limitações para pressionar os europeus a manter suas promessas de amenizar as sanções. O acordo limita o número de centrífugas que o Irã pode ter, o teor de enriquecimento de urânio, além da quantidade de material estocado. /WP

 

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