AFP PHOTO / MANDEL NGAN
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Trump governa para base republicana

Presidente não busca eleitor moderado e agrava polarização da política americana

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2018 | 20h51

Em mais um aceno para sua base de apoio, Donald Trump tornou-se nesta sexta-feira o terceiro presidente em exercício dos EUA a falar aos participantes da Marcha pela Vida, uma manifestação anual contra o aborto realizada em Washington desde 1974. 

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A vida de Trump está longe de ser um modelo para conservadores cristãos – o presidente está em seu terceiro casamento, usa linguagem chula, não vai à igreja com frequência e já se gabou de poder fazer o que quiser com as mulheres por ser famoso. Em uma entrevista de 1999, ele se declarou favorável ao direito das mulheres de escolherem entre a gravidez e o aborto.

Mas sua posição mudou poucos anos antes do lançamento de sua candidatura presidencial, o que lhe garantiu o apoio de cristãos conservadores, especialmente evangélicos brancos. Muitos votaram em Trump sob o argumento de que não poderiam permitir a chegada à Casa Branca de Hillary Clinton, a democrata que é pró-escolha.

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“Como vocês sabem, Roe versus Wade resultou em uma mais liberal das leis sobre aborto de qualquer lugar do mundo”, declarou o presidente nos jardins da Casa Branca, em mensagem transmitida por vídeo aos participantes. Roe versus Wade foi a decisão que legalizou o aborto nos EUA, proferida pela Suprema Corte em 1973.

A posição de Trump nessa questão foi decisiva para ele conquistar o voto de Paul Nitkiewicz, de 27 anos, que participou da marcha, ontem. Católico, ele não gosta da posição do presidente em relação a imigrantes, mas disse que sua condenação ao aborto foi importante. “Estamos só no primeiro ano, mas vi muitas coisas positivas, como o corte de impostos. A economia está disparando.”

Levantamento do Pew Research indica que 57% dos americanos dizem que o aborto deve ser legal, enquanto 40% sustentam que o procedimento deve ser ilegal. Na quinta-feira, o governo anunciou que médicos poderão alegar razões religiosas ou de consciência para não praticar abortos. Ontem, Trump declarou que 19 de janeiro será o Dia Nacional da Santidade da Vida.

Vanessa Cloutier, que estava em sua décima marcha, votou no republicano e ficou emocionada com seu discurso. “É completamente o oposto do que tínhamos um ano atrás. Nós nos sentíamos derrotados por Barack Obama”, afirmou, referindo-se ao antecessor de Trump.

Mas nem todos os participantes tinham uma visão positiva. A nova-iorquina Anna, que não revelou o sobrenome, disse se identificar com Trump na condenação ao aborto, mas não em outras questões. “Não sei se ele ajuda ou atrapalha o movimento pró-vida.” 

No dia seguinte à posse de Trump, milhões de pessoas participaram da Marcha das Mulheres, a maior manifestação da história do país. O evento atraiu um público três vezes maior do que a posse do presidente, segundo o New York Times. A principal mensagem era a rejeição de Trump e suas políticas como as restrições ao aborto e aos direitos reprodutivos das mulheres.

A Marcha das Mulheres voltará às ruas neste sábado, e o foco será a mobilização para as eleições de novembro, quando democratas tentarão conquistar maioria no Congresso. 

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