Reprodução / Marinha EUA
Reprodução / Marinha EUA

Trump herda máquina militar fragilizada

Apesar de ser a maior do planeta e a mais cara, Defesa americana sofreu uma redução durante o governo Obama

Roberto Godoy, O Estado de S. Paulo

15 Janeiro 2017 | 05h00

A máquina militar dos Estados Unidos, que na sexta-feira passará a ser chefiada pelo republicano Donald Trump, o 45.º presidente americano, é a maior do mundo, com 90 instalações espalhadas pelo planeta, a maior da história, a mais cara de todos os tempo – só em despesas correntes vai custar ao contribuinte US$ 583 bilhões em 2017. 

Somados os programas de desenvolvimento e contratos de longo prazo, o valor passa de US$ 1 trilhão. Ainda assim, a estrutura da Defesa da potência está fragilizada, de certa forma reduzida durante a administração do democrata Barack Obama, de 2009 a 2017. Pior: o caixa está baixo. Um estudo da Universidade de Georgetown destaca que “em nenhuma outra época houve tantas iniciativas malsucedidas e demandas urgentes no setor”. 

Na campanha para a eleição presidencial de 2008, Obama prometeu retirar as tropas do Iraque e do Afeganistão, ao mesmo tempo em que reduziria os gastos do Pentágono. Havia em 2009 mais de 150 mil homens e mulheres nas duas frentes. 

A desmobilização no teatro de operações iraquiano, em ondas que variaram de 33 mil a 10 mil soldados por vez, acabaram limitando a presença do Exército americano no país a um time pequeno dedicado à segurança da embaixada em Bagdá; apenas 150 combatentes no final de 2011. Durou pouco. Em 2016, o número batia em 3,5 mil. Em novembro do ano passado eram 13 mil, envolvidos na luta contra o Estado Islâmico. 

Nos oito anos que separam a invasão do Iraque pelas forças da coalizão liderada pelos EUA, em 2003, e o desmanche da ocupação, a Casa Branca gastou com a guerra no país cerca de US$ 1,2 trilhão. O dinheiro ainda faz falta. 

A conta do Departamento de Defesa, o Pentágono, teve de ser encolhida. Washington mantém 1,49 milhão de militares em ação permanente ou prontos para serem acionados. Na reserva de primeira linha, preparada para convocação imediata, há mais um milhão. Na ativa deveriam ser ao menos mais 500 mil, mas a expansão gradual do quadro, em quatro etapas a contar de 2010, não foi encaminhada por Obama, que optou por uma política de aperfeiçoamento profissional para estimular a fidelização à carreira e a reposição do pessoal. “Custa menos, mas cria déficit de capacidade”, alertou o general James Mattis, novo secretário de Defesa. “Erramos muito, não podemos nos dar a esse luxo”, concluiu.

Os desacertos citados por Mattis, o “Cachorro Louco” – apelido que ganhou no Afeganistão pela mão pesada aplicada na ofensiva de 2001 contra a Al-Qaeda e o Taleban, após o ataque às Torres Gêmeas, em Nova York –, certamente tem a ver com determinadas escolhas feitas por Barack Obama. Veio da Casa Branca a decisão de manter o multibilionário programa do novo caça F-35 Lightining, aeronave padrão da Força Aérea e da aviação naval, avaliado em US$ 1,58 trilhão a serem aplicados entre 1996 e 2070. 

A encomenda é de 2,5 mil jatos em três ou quatro versões. O custo unitário varia de US$ 98 milhões a US$ 116 milhões. O avião tem problemas e partes do lote de 200 unidades em processo de entrega ainda estão sendo submetidas a novas avaliações. Donald Trump disse há duas semanas que pretende rever todo o pacote.

Na Marinha, foi preciso que o futurista Zumwalt, um espetacular navio de US$ 3,5 bilhões, sofresse sucessivas panes na viagem inaugural – até ficar parado na região do Canal do Panamá – para que fosse considerado “um conceito em progresso”, pelo atual secretário da Marinha, Ray Mabus. 

Da série prevista de 32 destróieres furtivos ao radar, poderosamente armados, foram construídos 2. O Pentágono optou por uma volta ao convencional e está retomando a construção de embarcações lançadoras de mísseis do tipo “Arleigh Burke” mais baratas: US$ 1,8 bilhão por peça. O contrato, de prazo longo, deve abranger até 62 de uma frota estimada em 94 navios, encomendados durante os próximos 20 anos. A assinatura na primeira encomenda será de Trump, provavelmente ainda neste ano.

Em novembro, o secretário da Defesa, Ash Carter, anunciou que 8,4 mil soldados permanecerão no Afeganistão “por tempo indeterminado”, um número maior que o esperado. Na Síria, formalmente, a parte americana da luta é trabalho da aviação, que em 2016 despejou 32 mil bombas guiadas e mísseis contra alvos de grupos radicais. A reposição de urgência abrange um pedido de 45 mil armas, que exigiu uma suplementação orçamentária de US$ 1,8 bilhão.

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