Jonathan Ernst/Reuters
Jonathan Ernst/Reuters

Trump ignorou a África, e Biden?

Biden enfrentará tarefa de reverter a acentuação do racismo e fobia em relação à África, segundo Fundação Nelson Mandela

Redação, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2020 | 10h30

JOANESBURGO - O presidente Donald Trump mostrou desinteresse pela África, contentando-se em prolongar o "status quo" da presença dos Estados Unidos no continente, mas não se deve esperar grandes mudanças com seu sucessor - avaliam analistas e associações.

A Fundação Nelson Mandela disse ter-se sentido "aliviada" após o anúncio da vitória do candidato democrata, o ex-vice-presidente dos EUA Joe Biden, que sucederá ao republicano Trump em janeiro próximo.

"Não vamos mais vê-lo enfraquecer as instituições democráticas, nem ver como desonra" seu cargo, "por mais quatro anos".

Biden enfrentará, porém, "uma tarefa titânica", como a de reverter "a acentuação do racismo, sexismo, xenofobia e fobia em relação à África" promovida por Trump, lembram integrantes desta associação sul-africana.

Na África, poucos esquecem as declarações atribuídas a Trump, nas quais ele descreveu como "países de m..." as nações de origem de muitos migrantes que tentam chegar aos Estados Unidos. Palavras que soaram como sinônimo de "desprezo" e "condescendência".

Sua "atitude ao limite da falta de respeito" causou mal-estar, "assim como sua política de imigração" muito restritiva, afirma Ousmane Sène, diretor do Centro de Pesquisa da África Ocidental (WARC), com sede em Dakar, no Senegal.

Foram quatro anos de "desafeto, ou indiferença: prova disso é o pouco interesse que a imprensa africana demonstrou pelos Estados Unidos nesse período", acrescenta.

Segurança no Sahel

Os Estados Unidos se concentraram na luta contra o terrorismo e nos programas de ajuda existentes, mas limitaram a diplomacia, a política e até mesmo a estratégia econômica. Nestes "quatro anos perdidos", cedeu muito terreno à China, principalmente no comércio.

Washington concluiu acordos de defesa com Senegal, Gana e Níger e deu um "apoio decisivo" ao Sahel, junto com a França, aponta Pape Malick Ba, professor de Estudos Americanos na Universidade Cheikh Anta Diop, no Dakar.

O equilíbrio de Trump na África está "abaixo do de seus antecessores Obama e [George W.] Bush", afirma Ba, porque não tinha uma "estratégia específica".

Além disso, "não pisou no continente e até demitiu" seu então secretário de Estado, Rex Tillerson, "em plena viagem à África" em 2018, lembra.

Na Nigéria, o país mais populoso da África, a política dos EUA sob Trump foi "inerte, ineficaz e desprovida de uma bússola moral", escrevem os pesquisadores norte-americanos Judd Devermont e Matthew Page. A falta de reação dos EUA à repressão aos protestos de outubro em Lagos é um exemplo.

Joe Biden, então candidato à Casa Branca, antecipou-se ao Departamento de Estado, ao emitir um comunicado que denunciava o uso de balas contra a multidão. Uma prova de que Washington "não é reativo", enfatiza Page.

'Terceiro mandato de Obama'

Biden provavelmente estará mais ciente das violações dos direitos humanos, comenta a SBM Intelligence, uma consultoria geopolítica nigeriana.

Mas "esperar melhores relações entre África e Estados Unidos levará à decepção", adverte o ex-embaixador nigeriano em Washington George Obiozor, que lembra a decepção com os mandatos de Barack Obama.

A Presidência de Biden será algo como "uma espécie de terceiro mandato de Obama, com os Estados Unidos mais comprometidos com o resto do mundo", estima René Lake, analista político do diário senegalês L'Observateur.

Espera-se que Washington volte ao multilateralismo, consolide suas relações diplomáticas, volte à Organização Mundial da Saúde (OMS) e ao Acordo Climático de Paris.

Enquanto isso, a postura de Trump, que denuncia fraude e questiona resultados eleitorais, não serve de exemplo para as jovens democracias africanas, dando, pelo contrário, uma imagem de um país transformado em uma "república das bananas", ironizam vários comentaristas.

Sua atitude "corre o risco de criar escola na África e de reforçar todos os chefes de Estado que não querem aceitar o jogo democrático", alertou Jean Bosco Manga, presidente de uma associação de direitos humanos do Chade.

"Como disse Nelson Mandela, um bom líder sabe quando é hora de partir", acrescenta a Fundação que leva seu nome, em Joanesburgo./ AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.