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Os candidatos Donald Trump e Joe Biden se enfrentam no primeiro debate presidencial de 2020 Olivier Douliery/Pool via AP

Em debate com ofensas mútuas, Biden cita Brasil para atacar ação ambiental de Trump

Em encontro marcado por interrupções mútuas, presidente exalta desempenho da economia americana e questiona currículo e inteligência de oponente; democrata ataca reação lenta do governo à pandemia e menciona destruição da floresta tropical

Beatriz Bulla / Correspondente, Washington, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 00h08

O primeiro debate entre Donald Trump e Joe Biden foi marcado por interrupções e ataques pessoais, com o presidente republicano na defensiva sobre sua gestão do país durante a pandemia de coronavírus e as recentes revelações a respeito do seu imposto de renda. Já Biden criticou a política ambiental de Trump e citou o Brasil, dizendo que a "floresta tropical" no País está sendo destruída.

A política sobre mudanças climáticas, que viraram tema de campanha com as recentes queimadas na Costa Oeste, foi um dos últimos tópicos do debate. Biden se comprometeu a recolocar os Estados Unidos no acordo climático de Paris e citou o Brasil.  "A floresta tropical do Brasil está sendo derrubada", disse Biden. O democrata prometeu se juntar com países para oferecer fundos para proteger a floresta e sugeriu que iria apresentar a solução e dizer "parem de demolir a floresta e, se não o fizerem, haverá consequências significativas", disse Biden, sem mencionar o governo brasileiro.

Trump criticou a gestão ambiental do governo Obama e acusou Biden de apoiar o plano ambiental conhecido como "Green New Deal", defendido pelas estrelas da esquerda americana: senador Bernie Sanders e deputada Alexandria Ocasio-Cortez. Biden negou apoiar a proposta e disse que tem o seu próprio plano ambiental. 

O democrata usou o debate para se desvincular de outras ideias que os republicanos têm tentado relacionar a ele, como a plataforma para tirar recursos da polícia. "Eu me oponho totalmente a tirar os recursos da polícia. Policiais precisam de mais assistência", disse o democrata, que acusou Trump de ser racista. 

Trump e os republicanos têm dito que Biden apoia a ideia de tirar recursos da polícia, um dos pedidos de manifestantes anti-racismo que protestam desde o fim de maio no país. Trump acusou prefeitos da "esquerda radical" de gerarem o caos no país ao não aceitarem ajuda federal para conter protestos. "As pessoas desse país demandam lei e ordem e você tem medo até de dizer essas palavras", disse Trump a Biden. O presidente foi questionado pelo moderador se iria criticar os supremacistas brancos, mas se esquivou ao dizer que "tudo o que vê" de problemas vem da esquerda. 

Trump insistiu que Biden está há quase 50 anos na política sem promover mudanças e que o seu próprio governo foi o melhor da história americana. O presidente foi o responsável pela maioria das interrupções e foi repreendido pelo moderador, Chris Wallace, várias vezes. Biden chamou Trump de idiota, palhaço, mentiroso, racista, pior presidente da história e em uma das interrupções pediu: "Por que você não se cala, cara?". 

O democrata levantou a questão sobre a recente revelação do jornal The New York Times de que Trump não pagou imposto de renda em 11 dos últimos 18 anos analisados e em 2016 pagou apenas US$ 750 ao fisco. Questionado pelo moderador, Trump disse que paga "milhões", e se esquivou de mais detalhes. " Eu paguei milhões de dólares em imposto de renda. Eu paguei US$ 38 milhões em um ano", disse Trump, sem explicar o conteúdo das revelações do jornal. "Mostre seu imposto de renda", rebateu Biden, que divulgou suas declarações ao fisco horas antes do debate.

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Trump buscou puxar o debate sobre as discussões a respeito da economia e acusou Biden de querer "paralisar" novamente o país como medida de contenção do coronavírus. "Fechamos a economia e estamos reabrindo e estamos fazendo negócios de forma recorde. Ele vai paralisar de novo, ele vai destruir esse país", afirmou Trump.

Já Biden atacou a gestão do presidente durante a pandemia de coronavírus, uma das principais plataformas de campanha do democrata e um calcanhar de aquiles na campanha republicana, pois a maioria dos eleitores reprova a resposta de Trump à crise de saúde. "Ele sabia desde fevereiro quão sério isso era, sabia que era mortal. O que ele fez? Ele disse que não queria criar pânico. Ele entrou em pânico", disse Biden. "Quantos de vocês acordaram essa manhã e tiveram uma cadeira vazia na mesa da cozinha de alguém que morreu de covid?", afirmou o democrata.

Ao falarem sobre a nomeação à Suprema Corte às vésperas da eleição, Biden novamente puxou a discussão para o fato de a indicada por Trump, Amy Coney Barrett, ter se posicionado de maneira crítica ao Obamacare, a reforma do sistema de saúde feita durante o mandato de Obama. Trump defendeu a possibilidade de nomear a indicada: "Eu não sou eleito para três anos, fui eleito para quatro anos".

Trump não se comprometeu a pedir calma aos eleitores e a esperar o fim da contagem das cédulas antes da declaração de vitória e novamente disse que há problema com o voto pelo correio. “Estou pedindo aos eleitores que vão às urnas e observem muito atentamente”, disse o presidente, que vem sugerindo sem evidências de que há fraude na eleição. Ele também disse esperar que a Suprema Corte analise questões sobre as cédulas. 

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Análise: Sem moderação, candidatos americanos falaram aos convertidos

Se debate entre Trump e Biden serviu para algo, foi para convencer seus eleitores a saírem de casa para votar

Mauricio Moura*, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 00h39

No debate presidencial não houve oportunidade de nenhum dos lados moderar as propostas, os discursos. Trump veio com uma estratégia consistente com o estilo dele, falando para o seu eleitorado, com as mensagens que ele costuma usar nas entrevistas e declarações. Biden trouxe propostas que são amplamente conhecidas no eleitor democrata. Em alguns momentos, ele tentou falar para a câmara, buscando talvez um grupo mais moderado. O monitoramento da audiência nos Estados críticos mostrou uma queda acentuada no total de espectadores na segunda metade do debate, o que corrobora o fato de que eles estavam falando para convertidos. 

Outro ponto a ser destacado é que a campanha do Trump tem duas narrativas muito fortes. Uma apareceu bastante no debate, da lei e da ordem. E outro flanco, que não foi abordado, mas deve surgir nos próximos é EUA x China, um discussão central para ele.

Houve também a questão da economia. Hoje, os eleitores americanos estão preocupados com as empresas que fecham, o desemprego. No entanto, esse tema foi abordado de forma muito superficial. O que se viu foi Biden querendo mostrar os números da gestão Obama e Trump se vangloriando.

Se esse debate serviu para algo, foi para convencer as pessoas a saírem de casa para votar. Houve poucas tentativas de buscar uma consistência, ou uma moderação, dos dois lados. 

* É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE GEORGE WASHINGTON E PRESIDENTE DO  INSTITUTO DE PESQUISA IDEA BIG DATA

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'Eleitor americano foi o maior perdedor', afirma cientista político

Para Hussein Kalout, primeiro debate entre Donald Trump e Joe Biden foi caótico e desprovido de conteúdo

Entrevista com

Hussein Kalout

Angela Perez, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 00h48

Para o cientista político Hussein Kalout, o debate entre o republicano Donald Trump e o democrata Joe Biden foi desprovido de conteúdo e o presidente fez constantes ataques a seu rival na tentativa de induzi-lo ao erro ou mesmo dificultar suas reflexões. Confira a entrevista:

Quem foi o vencedor do debate?

Foi um dos piores debates da história das eleições americanas. Um debate caótico e desprovido de conteúdo e de propostas estruturais. O confronto se deu de forma rasteira e é impossível de auferir a vitória a um dos lados. O eleitor americano foi o maior perdedor. 

Por que Trump manteve uma posição ofensiva durante quase todo o debate?

O presidente Trump foi agressivo deste o início, desferindo constantes ataques contra o seu rival. A sua estratégia era impedir o seu oponente de responder às perguntas ou refletir de forma organizada. No fundo, queria induzir Biden ao erro. Além disso, Trump estava preparado para não responder a perguntas sensíveis como o tema racial. Negou-se, categoricamente, a condenar grupos supremacistas brancos e desviou da questão. Seu objetivo foi o de arrastar o debate para a arena ideológica e preservar a premissa de que a eleição é entre a prosperidade versus o socialismo, por um lado, e entre a ordem versus a anarquia, por outro. 

Qual foi o ponto forte das declarações de Biden?

Biden foi assertivo ao lançar luz sobre a plataforma de política ambiental de seu partido. Conseguiu esboçar com mais clareza os compromissos dos democratas com a bioeconomia e o Acordo de Paris. Biden conseguiu ainda explorar as fraquezas e os equívocos do governo Trump em como lidar com a pandemia, enfatizando que o governo que nega a ciência deve arcar com as consequências.

Qual foi o ponto forte das declarações de Trump?

O ponto forte de Trump foi o de defender bem a sua política de segurança pública, deixando Biden com o raciocínio desarticulado. Trump conseguiu proteger suas vulnerabilidades, impedindo Biden de atacá-lo.

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