AFP
AFP
Imagem Lourival Sant'Anna
Colunista
Lourival Sant'Anna
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Trump, Kim e Xi 

Trump quer um acordo com a Coreia do Norte, que lhe conferiria o status de estadista

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2018 | 05h00

O presidente Donald Trump demonstrou tanto pesar em cancelar a cúpula com o norte-coreano Kim Jong-un que sua carta de quinta-feira parece ter mais impulsionado do que minado a tentativa de negociação entre ambos.

Bastou a Coreia do Norte dar “um tempo para o presidente pensar”, falar de seu “apreço” por ele ter aceitado o convite de Kim, e cunhar o termo “fórmula Trump” como chance para a paz na Península Coreana, que ele acenou, na sexta-feira, com uma volta à mesa.

+ Leia a íntegra da carta de Trump a Kim sobre cancelamento da cúpula histórica

A cúpula foi cancelada por Trump depois que uma vice-chanceler norte-coreana (são sete no total), Choe Son-hui, qualificou de “ignorante e estúpida” uma afirmação de Mike Pence, o vice-presidente americano. Ele tinha dito que, se não chegasse a um acordo com os EUA, a Coreia do Norte acabaria como a Líbia. Choe disse que recomendaria a Kim cancelar a cúpula. Trump se antecipou para não ficar a reboque.

John Bolton, o chefe do Conselho de Segurança Nacional, já havia sugerido uma semana antes que o destino do arsenal norte-coreano devia ser o mesmo do líbio, desmantelado em 2013 depois de um acordo. A associação com Muamar Kadafi, linchado por moradores de Sirte, sua cidade natal, em 2011, juntamente com um exercício militar aéreo de rotina entre EUA e Coreia do Sul, serviram de pretexto para Kim cancelar uma reunião de alto nível com a Coreia do Sul no dia 16. 

Embora não sejam agradáveis, essas pedras no caminho são contornáveis, e não o real obstáculo para o avanço do diálogo. Paralelamente ao processo com a Coreia do Norte, Trump conduz difíceis negociações comerciais com os chineses. Ele vinha acusando a China, aliada vital de Pyongyang, de causar um endurecimento nas posições norte-coreanas. O presidente chinês, Xi Jinping, reuniu-se duas vezes com Kim de março para cá.

Trump se elegeu prometendo eliminar o déficit comercial entre EUA e China, que soma US$ 375 bilhões por ano. Ao ameaçar, em março, sobretaxar produtos chineses no valor de US$ 150 bilhões, Trump se queixou também das exigências que a China faz de que as empresas americanas instaladas no país compartilhem com sócios chineses suas inovações tecnológicas. 

Escrevo de Xangai e a impressão aqui é a de que a China não tem cedido às exigências americanas. Os chineses até aceitam importar mais dos EUA, mas não US$ 200 bilhões anuais, como quer Trump. Quanto à transferência de tecnologia, ela é considerada estratégica para o programa de inovação Made in China 2025, que simboliza a ascensão do país ao mundo desenvolvido. 

No dia do cancelamento, Xi recebeu em Pequim a chanceler Angela Merkel e convidou a Alemanha a “cooperar mais com a China em indústrias do futuro”. Merkel elogiou a China como parceira comercial.

A China sempre usou a Coreia do Norte como carta nas disputas com os EUA. A abertura de Kim ao diálogo permitiu aos chineses relaxar as sanções comerciais impostas por pressão americana, que asfixiavam a economia norte-coreana. Esse é o interesse imediato de Kim.

Trump quer ter em seu currículo um acordo com a Coreia do Norte, que lhe conferiria o status de estadista e, quem sabe, um Nobel da Paz. Mas também precisa entregar a seus eleitores a redução do déficit comercial. Querer tudo o deixa sem margem de manobra e o fragiliza nas negociações. 

Ao suspender a cúpula, Trump tentou provar que precisava do acordo menos que Kim. “O mundo, e a Coreia do Norte em particular, perderam uma grande oportunidade de paz duradoura e de grande prosperidade e riqueza”, escreveu ele, na carta endereçada a Kim.

Ao mesmo tempo, lembrou que o arsenal nuclear americano é muito maior que o norte-coreano. De fato, para o regime norte-coreano está em jogo uma questão de sobrevivência. Mas, para Trump, também se tornou algo existencial. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.