EFE/EPA/ERIK S. LESSER
EFE/EPA/ERIK S. LESSER

Trump leva tanques e caças para Washington na celebração da independência dos EUA

Presidente americano, que fará discurso no Monumento a Lincoln, promete a maior celebração do 4 de julho na história do país; opositores alertam contra politização do evento e criticam o provável custo elevado das festividades

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2019 | 12h17
Atualizado 04 de julho de 2019 | 15h38

WASHINGTON - Os tanques já estão no centro de Washington para a grande festa patriótica do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, evento que atrairá para a capital do país simpatizantes e críticos do governo.

Trump quer transformar as comemorações do 4 de julho, Dia da Independência dos EUA, em uma parada militar nacionalista, um desejo que começou a alimentar quando atendeu convite do presidente da França, Emmanuel Macron, e visitou Paris há dois anos para acompanhar o desfile do Dia da Bastilha.

Depois de o Pentágono ter frustrado os planos de realizar um desfile similar em novembro do ano passado, Trump decidiu organizar uma comemoração do Dia da Independência, com a participação de 300 militares, de tanques que já estão estacionados no centro da cidade e de aviões de combate que sobrevoarão Washington durante o discurso presidencial.

"Nossa 'Homenagem aos Estados Unidos' pelo 4 de julho em frente ao Monumento a Licoln será muito grande. Será o espetáculo para toda uma vida!", escreveu Trump no Twitter, enquanto que a Casa Branca prometeu "as maiores festividades de 4 de julho na história" da capital dos Estados Unidos.

As novidades da programação do Dia da Independência imediatamente fizeram a oposição reagir e vários democratas do Congresso alertaram o presidente contra a possibilidade de um realizar "um comício de campanha" em rede nacional por ocasião da data nacional.

Isso porque o 4 de Julho é geralmente um dia de trégua em que os americanos "agitam a bandeira nacional sem entrar em discussões políticas", observa o especialista em mídia Richard Hanley. Em todo o país, a atmosfera costuma ser boa, com desfiles, fanfarras, churrascos e shows de fogos de artifício.

Para muitos, no entanto, as festividades prometidas por Trump dão a impressão de serem o início da campanha presidencial de 2020, uma vez que o presidente americano anunciou recentemente sua candidatura a um novo mandato.

Este ano, o roteiro habitual foi reescrito. Às 18h30 (19h30 em Brasília), Trump subirá as escadas do monumento em homenagem a Abraham Lincoln, o presidente que defendeu a unidade do país durante a Guerra de Secessão (1861-1865), para liderar o ato batizado de "Saudação aos Estados Unidos".

Este evento sem precedentes incluirá um discurso transmitido pela televisão, mobilização de equipamento militar e uma enorme exibição de fogos de artifício. O Boeing 747 usado como avião presidencial Air Force One sobrevoará o lugar, assim como aeronaves de combate. É esperada a exibição dos modernos caças F-35 e de aparelhos do esquadrão Blue Angels da Marinha.

Blindados e veículos de combate estarão estacionados nos arredores. Não haverá um desfile militar porque as rodas dos taques podem danificar as ruas da capital. De qualquer modo, os holofotes não estarão nas armas, nem nos fogos de artifício, mas em Trump. "Seu presidente favorito, eu!", tuitou ao anunciar o evento.

Discurso

O presidente americano insiste que pode superar as divisões com seu discurso. "Acredito nisso, acho que vou atingir a maioria dos americanos", disse ele a jornalistas esta semana. 

Incluir um discurso presidencial de alto perfil na celebração o coloca em risco, pois embora Trump conte com o apoio fervoroso de cerca da metade do país para sua reeleição em 2020, a outra metade o rejeita.

Trump aproveitou, aliás, seu último comício há duas semanas, em Orlando, na Flórida, para convidar simpatizantes a viajar a Washington para provar que tem apoio mesmo em uma cidade majoritariamente democrata.

"Quero apoiar o presidente, ajudar a fazer os Estados Unidos grande de novo", disse John Belazik, membro do grupo Motociclistas por Trump, que veio de Maryland, Estado vizinho do distrito onde fica a capital americana.

Enrolado em uma gigantesca bandeira com o nome do presidente, Belazik lamentou que Trump seja criticado por levar tanques ao centro da cidade. "Por que não? Outros países fazem isso. A França os faz passear pelas ruas, pela Champs-Élysées, tanques, mísseis e outras coisas. O presidente só quer homenagear nossos militares", disse o simpatizante do republicano.

Belazik ri ao dizer que foi a Washington para a posse de Trump em 2017 e que participou dos confrontos com manifestantes de esquerda, que prometem protestar também contra a parada militar de amanhã. "Se eles quiserem (brigar), por mim tudo bem", afirmou.

A polícia de Washington está preocupada com a possibilidade de confrontos, sobretudo no sábado, quando um evento convocado por organizações de extrema direita no centro da capital coincidirá com um protesto do grupo "Black Lives Matter".

Mobilização da oposição

Os opositores de Trump planejam sua própria artilharia política no National Mall, a ampla esplanada de grama que vai do Monumento a Lincoln até o Congresso.

A organização progressista Code Pink instalará seu "Baby Trump", um enorme boneco inflável que mostra o presidente de fralda. O balão não ganhar os céus de Washington devido a uma proibição em vigor no centro da capital, mas o Code Pink também trará à festa um robô de quase cinco metros de altura que mostra Trump sentado em uma privada dourada.

E grupos de soldados veteranos planejam distribuir camisetas em homenagem ao falecido senador John McCain, um republicano com o qual Trump tinha confrontos frequentes.

Trump fará uso de suas habilidades no mundo do espetáculo para o evento. "O mais forte e avançado Exército do mundo. Sobrevoos incríveis e os maiores fogos de artifício!", prometeu o presidente na terça-feira, "vendendo" seu show.

O simples fato de falar do Monumento a Lincoln, local do emblemático discurso "Eu tenho um sonho", de Martin Luther King, em 1963, já vai lhe garantir imagens impressionantes.

Festa sob críticas

As críticas pela realização da festa cresceram depois de o jornal The Washington Post revelar que o Serviço Nacional de Parques dos EUA (NPS, inglês) se viu forçado a tirar US$ 2,5 milhões que seriam destinados a melhorar as áreas de lazer do país para cobrir os custos do evento.

Trump minimizou a notícia, ao afirmar no Twitter que a conta da festa é muito pequena se comparada ao valor que as Forças Armadas têm para os EUA. A Casa Branca distribuiu ingressos das primeiras filas do evento para grandes doadores republicanos, mas doadores do partido afirmaram ao site "Politico" que tiveram dificuldades para preencher os lugares.

Somada às previsões de chuva para a hora do discurso de Trump, a hipótese de esvaziamento da festa fez algumas figuras republicanas a trabalhar contra o relógio para evitar os espaços vazios registrados na posse presidencial. / AFP e EFE

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