EFE/EPA/Andrew Harrer / POOL
EFE/EPA/Andrew Harrer / POOL

Trump minimiza protestos contra ele e Casa Branca amplia crítica à imprensa

Presidente americano ironiza protestos liderados por mulheres questionando no Twitter: ‘por que não votaram?’; governo chama meios de comunicação de mentirosos e sustenta, com base em ‘fatos alternativos’, que nenhuma outra posse teve tanto público

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington , O Estado de S. Paulo

22 Janeiro 2017 | 21h46

Os dois primeiros dias de governo de Donald Trump foram marcados por confronto com a imprensa e a tentativa do presidente de minimizar protestos organizados por mulheres contra ele. Um ato em Washington no sábado teve 500 mil manifestantes, mais do que o verificado em sua posse na sexta-feira.

 A medição do público na cerimônia de sucessão foi justamente a principal razão de choque com os meios de comunicação. O porta-voz Sean Spicer usou seu primeiro pronunciamento no cargo no sábado para acusar a imprensa de mentir sobre a assistência ao evento com o objetivo de minar o entusiasmo da população com o novo governo.

“Esse foi o maior público que testemunhou uma posse. Ponto”, disse Spicer, apesar de dados disponíveis indicarem que o recorde de participação foi registrado por Barack Obama em 2009. A declaração contraria fotos aéreas da multidão, registros de viagens de metrô, estimativas de especialistas e dados sobre audiência na TV. 

Neste domingo, 22, a assessora presidencial Kellyanne Conway aumentou a controvérsia ao defender o porta-voz, argumentando à MSNBC que ele usou “fatos alternativos” aos relatados pela imprensa para sustentar sua alegação. “Fatos alternativos não são fatos. Eles são falsidades”, respondeu o apresentador Chuck Todd.

Durante a campanha, Trump usou notícias falsas ou fora de contexto para promover sua candidatura e atacar a adversária Hillary Clinton. O Politifact, um dos principais institutos de checagem de dados dos EUA, concluiu que 70% das declarações de Trump eram falsas ou distorcidas. O novo presidente também transformou a imprensa em um dos principais alvos de sua campanha.

Os dois elementos continuaram presentes nas primeiras horas de seu governo. “Eu tenho uma guerra em andamento com a imprensa”, declarou o presidente no sábado em discurso na Agência Central de Inteligência (CIA), em sua primeira visita a um órgão de governo desde sua posse. 

Segundo Trump, um dos indícios da falta de honestidade da mídia foram reportagens sobre seus atritos com os serviços de inteligência do país. Grande parte delas foram fundamentadas em declarações públicas do próprio presidente. Ele atacou a conclusão da CIA de que a Rússia tentou interferir nas eleições e fez uma série de comentários depreciativos em relação à eficácia dos serviços de inteligência americano.

Na CIA, o presidente também se referiu pelo nome a um jornalista da revista Time que informou de maneira equivocada que o busto de Martin Luther King Jr. havia sido retirado do Salão Oval. O erro foi corrigido em minutos, mas Trump usou o fato para reforçar seus argumentos contra a imprensa.

Suas primeiras horas no governo também revelaram a obsessão com índices de aprovação e popularidade. No mesmo discurso da CIA, ele estimou que sua posse atraiu 1,5 milhão de pessoas, número semelhante ao recorde de 1,8 milhão registrado por Obama em 2009. Três analistas em estimativas de multidões consultados pelo New York Times disseram que o público foi inferior a 200 mil.

Em seu Twitter hoje, Trump afirmou que seu discurso de posse foi assistido por 31 milhões na televisão, 11 milhões a mais do que os que viram o pronunciamento de Obama em sua reeleição, há quatro anos. Há oito anos, quando chegou ao poder, o pronunciamento de Obama foi assistido por 38 milhões de pessoas.

O novo presidente também usou o Twitter para ironizar a Marcha das Mulheres, nas quais centenas de milhares de pessoas protestaram contra sua administração no sábado. 

“Vi os protestos de ontem, mas tenho a impressão que acabamos de ter uma eleição! Por que essas pessoas não votaram?”, perguntou. Uma hora depois, ele saudou a livre manifestação de opiniões em outro tuíte. Trump perdeu a eleição no voto popular direto por 2,9 milhões de votos, mas venceu a disputa no colégio eleitoral.

Em pronunciamento na Casa Branca hoje, Trump mostrou que já pensa em reeleição. “Vamos fazer grandes coisas nos próximos oito anos”, declarou, durante cerimônia de posse de alguns integrantes do governo. Mais tarde, ele cumprimentou de maneira efusiva o diretor do FBI James Comey, que muitos democratas acreditam ter sido o responsável pela derrota de Hillary, em razão de anúncios feitos a poucos dias da eleição sobre o uso por ela de um servidor privado de e-mails. “Ele ficou mais famoso do que eu”, disse Trump.

Mais conteúdo sobre:
Donald TrumpEstados Unidos

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.