AFP PHOTO / Nicholas Kamm
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Trump na Europa

Frente aos ataques americanos, a Europa busca uma resposta e não acha

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

11 Julho 2018 | 05h00

Com alguns meses de atraso, os europeus começam a levar Donald Trump a sério. A prova é a ansiedade explícita com que a União Europeia aguardava a semana que começa. De repente, a UE passou a lembrar uma colmeia cujas abelhas sentinelas assinalam a aproximação de zangões inimigos e gritam, na língua das abelhas: “Aos abrigos!”

Isso é um pouco o que fizeram a UE e as grandes capitais ao tomarem conhecimento do programa de Trump desta semana: hoje e amanhã, ele participará da cúpula da Otan em Bruxelas. Depois, visitará Londres. Por três dias, terá ao alcance da mão todos os aliados tradicionais dos EUA. Dará alguns beijinhos. Mas para quê? Para dar força aos europeus ou para os demolir? Para apoiar a Europa ou para quebrá-la? Para fortalecer a Otan ou para dobrá-la à vontade dos EUA?

Na Europa, esperamos sempre o pior. Ao mesmo tempo em que compreendemos que Trump não era o palhaço grotesco que parecia no começo, tomamos consciência de que, frente à Europa, ele manteve sempre o mesmo discurso – a princípio, com voz suave e brincalhona, mas, depois de alguns meses, com uma cólera não dissimulada e vontade de humilhar. E, às vezes, até com o tom maligno que adotava antes de ser presidente. 

Em 2013, Trump afirmou que o euro “não tem outra finalidade senão perturbar os EUA”. Três anos depois, em março de 2016, decretou que a Otan estava obsoleta. Já presidente, não perdeu ocasião de aplaudir os países que agridem Bruxelas: Polônia e Hungria. Fez também ataques contra a própria UE. “Quando se pensa em UE, pensamos em um bloco amigo, simpático. Mas, na verdade, a UE é brutal conosco.” Em 28 de abril, em Michigan, foi ainda mais claro. “A UE foi criada para tirar proveito dos EUA.” 

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Há alguns meses, uma nova infâmia juntou-se à lista de pecados da UE: para a entourage de Trump, “o continente caminha para a islamização”. Alguns países, para Trump, são piores que outros. A Alemanha, principalmente Angela Merkel, ocupa o primeiro lugar. Por quê? Primeiro, porque Merkel é a chefe do país mais poderoso da Europa. Segundo, porque acolheu na Alemanha 1 milhão de migrantes. Terceiro, por ser mulher. 

Assim, a pobre Angela, ao mesmo tempo em que balança no poder, sacudida por seu ministro do Interior, tem de engolir as críticas de Trump. “Angela, nós a protegemos, e isso deveria significar muito, porque não vejo que proteção recebemos de você”, disse Trump, no dia 5. 

E, às vésperas da reunião da Otan, ele ameaçou: “Vou dizer à Otan: comece a pagar suas contas”. 

É um tiroteio contra a Otan. E tiroteio perigoso, porque Trump deve se reencontrar em Helsinque, no dia 16, com Vladimir Putin. Frente a essa ofensiva, ora descontrolada, ora coerente, a Europa procura uma resposta e não acha. Quem a poderá ajudar? Emmanuel Macron? Talvez. Ele é jovem, combativo e um dos últimos grandes líderes europeus que acreditam na UE. Outros se abrigam a sua sombra ou se unem contra a UE. 

Mas os trunfos que Macron acreditava ter nas mãos caem como folhas de outono. Na França, ele passou do estado de graça para o de desgraça. Ele jamais escondeu seu projeto de assumir a direção da Europa, com Merkel como adjunta. Acontece que Merkel luta pela própria sobrevivência. Há também Theresa May, líder de um grande país que está em vias de deixar a UE. Todo o restante da Europa não ama suficientemente a Europa, à exceção de Luxemburgo. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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