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Trump na Normandia

Ele fez a longa viagem para exaltar a amizade dos EUA e a Europe ou acelerar seu fim?

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2019 | 05h00

Donald Trump esteve no Reino Unido para o 75.º aniversário do desembarque dos aliados nas praias da Normandia. Em 6 de junho de 1944, ao custo da vida de milhares de jovens, era desferido o golpe de morte em Adolf Hitler

Normalmente, esses encontros ocorrem a cada cinco anos para celebrar a indefectível solidariedade entre as duas margens do Atlântico Norte: EUA e Europa. Neste ano, Trump não fugiu à regra, apresentando-se na Inglaterra e na Normandia. Mas, no fundo, acabamos nos perguntando se ele fez a longa viagem para exaltar e reforçar a amizade dos EUA com a Europa ou para acelerar seu fim. 

É bom notar que a decadência da União Europeia não precisa esperar por Trump. A UE é perfeitamente capaz de se desfazer sozinha. Trump só precisa deixar o tempo correr e, se estiver demorando muito, um soco nessa titubeante UE para apressar sua queda. 

Seus dois dias no Reino Unido testemunham isso. Londres lhe proporcionou um desses momentos que ele adora: um jantar tocado a beleza, elegância, protocolo, com uma rainha e aristocratas ostentando cinco séculos de distinção hereditária.

Outro mérito do Reino Unido: está deixando essa horrível UE que, aos olhos de Trump, só faz bobagens. 

A Itália também vai bem. Matteo Salvini é como o presidente americano: tem horror a blocos ”supranacionais”. Acha uma perda de tempo negociar com um só interlocutor que representa 27 países – embora os quase 600 milhões de habitantes desses países, juntos, sejam mais poderosos que os EUA. Não. É melhor esquecer essas federações e restaurar a antiga diplomacia, conversando isoladamente com cada país sobre seus problemas. 

A Alemanha também está bem, pois vacila. Emmanuel Macron já conseguiu, a pretexto de fortalecer a dupla franco-alemã, perturbá-la e enfraquecê-la. Basta só um pouco mais de esforço. Se preciso, Trump fará o possível para ampliar o fosso entre Paris e Berlim. 

O novo caminho que a Itália segue agrada a Trump. Salvini não gosta do pessoal de Bruxelas. Prefere passar seu tempo a cantar as glórias dos chefes da Europa Oriental (Hungria, Polônia, República Checa, etc.), que corroem a UE. Assim, a demolição do bloco está no bom caminho. É efeito da estranha diplomacia de Trump? Certamente não. Trump, porém, está sempre perto para dar uma mãozinha...

A diplomacia de Trump parece geralmente absurda e condenada ao fracasso. A Europa o despreza, atribuindo-lhe todos os defeitos: é grosseiro, mentiroso, incoerente, instável, ridículo, estúpido e esquece de suas promessas. 

Minha impressão é que suas incoerências de Trump têm coerência, suas futilidades obedecem a uma necessidade, os meandros de seu raciocínio seguem um rumo constante. No fundo, ele é inteligente. 

Um exemplo. Ele pôs o dedo na ferida ao acusar a Europa de recorrer aos EUA para sua defesa e pagar por isso somas irrisórias. Mas, em essência, um país entregar sua proteção a soldados de outro é preparar o próprio declínio. Uma nação não tem vida sem Forças Armadas. Ela pode até multiplicar seus sucessos econômicos ou culturais, mas perde força quando, na primeira tempestade, vai se abrigar sob o guarda-chuva do mais forte.

Esse é o papel da Otan como entendem os americanos: ser um instrumento para assegurar o controle de metade do mundo. Um único dirigente europeu compreendeu a força desse terrível instrumento: o general Charles de Gaulle. Mas esse era De Gaulle... / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

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