EFE/ERIK S. LESSER
EFE/ERIK S. LESSER

Trump não é o futuro dos EUA, nem do Partido Republicano 

Podemos renovar o país com princípios conservadores e políticas ambiciosas de longo prazo, mas isso exigirá persistência e liderança

JEB BUSH* - THE WASHINGTON POST, O Estado de S. Paulo

20 de julho de 2016 | 05h00

Pode chamar de ponto crítico, de momento de escolher ou testar. Chame como chamar, está claro que esta eleição terá consequências de longo alcance tanto para o Partido Republicano como para nosso excepcional país. 

Embora Donald Trump sem dúvida venha explorando a ansiedade prevalente hoje nos Estados Unidos, não acredito que ele reflita os princípios ou o legado de inclusão do Partido Republicano. E sinceramente espero que não reflita seu futuro. Mas, por mais que eu rejeite Donald Trump como líder de nosso partido, ele não criou sozinho a atual cultura política dos EUA. 

Oito anos de táticas divisionistas do presidente Obama e seus aliados solaparam a fé americana em que política e governo possam fazer qualquer coisa construtiva. O presidente ampliou seus poderes – excedendo frequentemente sua autoridade – para punir oponentes, legislar da Casa Branca e transformar regulamentações de agências em arma do dogma liberal. 

Uns poucos no Partido Republicano responderam tentando diminuir o presidente, o que nos fez parecer anti-imigrantes, antifeministas, anticiência, antigays, antitrabalhadores e contra o senso comum. 

O resultado foi o desaparecimento de tudo que lembre compromisso ou bipartidarismo em nossa capital. Problemas simples não são solucionados. Fazem-se discursos, mas não se faz nada importante. O fracasso em eleger líderes que quebrem o impasse em Washington criou um eleitorado cada vez mais dividido, que por sua vez levou a um colapso do sistema político. 

Infelizmente, a raiva e medo compreensíveis não conduziram a um ressurgimento de propósitos na política ou a um debate renovado em nosso partido sobre como os republicanos reconquistariam a Casa Branca com o poder de nossas ideias. 

Na verdade, abriram caminho para o sucesso de um candidato que continua a manipular grotescamente a profunda insatisfação de muitos americanos. A retórica abrasiva, nativista de Trump bloqueou nosso discurso sóbrio sobre como enfrentar grandes desafios. 

Na esquerda, Hillary Clinton promete dar prosseguimento às desastrosas políticas exterior e econômica do governo Obama, bem como a seu hiperpartidarismo. Ela foi longe a ponto de dizer que os republicanos são seus “inimigos” – num claro indício de que não tem maior interesse que seu ex-chefe em forjar o consenso. 

Os próximos quatro meses de sua campanha certamente vão levar em conta a política; eu, porém, não estou transbordando de otimismo de que a eleição presidencial venha a ser o catalisador da restauração do dinamismo em nosso país. 

Ainda não decidi como votarei em novembro – se voto naquele candidato libertário ou em outro qualquer. Mas sei que há muito que os republicanos podem fazer nos próximos meses para construir os alicerces da reconstrução de nosso partido e os fundamentos para uma renovação verdadeiramente conservadora do país. 

Primeiro, não há nada mais importante que manter o controle do Congresso e de governos e assembleias estaduais. Precisamos que o presidente da Câmara, Paul D. Ryan (republicano de Wisconsin) e outros retenham esses importantes freios do poder da Casa Branca e da burocracia federal, não importando quem conquiste a presidência. 

Segundo, temos de ir além do quem está xingando quem no Twitter e nos unirmos para uma agenda que leve a maior crescimento econômico, revitalize a liderança americana no cenário mundial e fortaleça a democracia. 

Reconstruir a confiança em nosso partido, e, por extensão, no governo, exige que sejamos os catalisadores da mudança. Vamos tentar conseguir tanto poder quanto possível fora de Washington; onde for possível, devemos permitir aos Estados inovar e confiar nas famílias e pessoas para que tomem as próprias decisões. 

Devemos trabalhar para acabar com o capitalismo de clientela e com negócios públicos em conluio com privados. Devemos reformar o sistema de carreiras no funcionalismo federal para premiar o desempenho e incentivar resultados; e usar o poder da tecnologia para deixar o governo mais enxuto e voltado para a população. 

Vamos nos empenhar na redução do número de mandatos e na busca de orçamentos equilibrados e do poder parcial de veto – mesmo que isso exija a convocação de constituintes estaduais. E precisamos retomar a articulação de uma política exterior coerente, centrada na crença de que é necessário restaurar o posto dos Estados Unidos como líderes mundiais para a segurança nacional e de nossos aliados – e isso começa com liderarmos a luta contra o terrorismo. 

Terceiro, o poder de nossos princípios conservadores para influir no futuro desta nação vai além de eleições federais. Podemos ajudar a reconstruir as instituições que sempre foram os verdadeiros pilares dos Estados Unidos: famílias e comunidades fortes e um próspero setor privado. 

O melhor programa contra a pobreza é uma família forte, constituída por pai e mãe, tendo o redor uma comunidade vibrante. Igualmente, maior crescimento econômico alcançado com um sistema de livre empresa dá oportunidade a todo americano, independentemente do passado, de ir em frente por meio do trabalho duro e do potencial que ele ou ela receberam de Deus. 

Finalmente, este ano nos ensinou sobre os riscos de permitir a personalidades que passem brutalmente por cima de substância e princípios. Vamos reintroduzir a civilidade, as ideias e o otimismo na política. Vamos encontrar meios de fazer campanhas políticas e governar de modo inclusivo. Vamos descobrir como diminuir o medo e a angústia das pessoas sem, cinicamente, alimentá-los. 

Podemos renovar o país usando princípios conservadores e políticas ambiciosas de longo prazo, mas isso exigirá persistência e liderança forte nos anos vindouros. O Partido Republicano sempre foi a agremiação da esperança e otimismo, da oportunidade e liberdade. Tenho confiança em que podemos voltar a ser esse partido. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

*EX-GOVERNADOR DA FLÓRIDA, FOI RIVAL DE TRUMP NAS PRIMÁRIAS DO PARTIDO

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.