AP Photo/Don Ryan
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Trump não participará de tradicional festa mexicana na Casa Branca

Ausência do presidente na festa do Cinco de Maio não causou surpresa, já que comunidade vive momento delicado em meio ao ambiente hostil gerado desde sua chegada ao poder

O Estado de S. Paulo

04 Maio 2017 | 18h48

LOS ANGELES - A celebração do orgulho dos imigrantes mexicanos nos Estados Unidos representada no Cinco de Maio vive um momento delicado em meio ao ambiente hostil gerado desde a chegada do presidente Donald Trump, que neste ano quebra uma tradição ao não participar da festa.

Em uma decisão que não surpreendeu quase ninguém, especialmente após sua recusa de participar do tradicional jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, Trump também não estará nesta quinta-feira, 4, na tradicional festa que a Casa Branca organiza todo ano por ocasião do Cinco de Maio em homenagem a seu vizinho do sul.

A festa, marcada para um salão do Edifício do Escritório Executivo Eisenhower, contíguo à Casa Branca, contará com a presença do vice-presidente Mike Pence, que será o anfitrião na ausência de Trump, que estará em Nova York com o primeiro-ministro australiano, Malcolm Turnbull, em um evento para comemorar a batalha do Mar do Coral na 2ª  Guerra.

A festa deste ano contrasta com as comemorações anteriores, especialmente as realizadas pelo ex-presidente Barack Obama, como a última em 2016, quando convidou a banda mexicana Maná para se apresentar para 500 convidados.

No entanto, apesar das atenções dadas à comunidade latina pelo ex-presidente, alguns teriam preferido que as ações de apoio tivessem se focado mais em promover uma reforma na lei de imigração. 

"Com Obama tivemos reconhecimentos como comunidade, mas se perdeu uma grande oportunidade para atingir uma reforma de imigração", declarou à agência EFE o analista político Angel Sánchez.

Segundo o especialista, essa possibilidade teve seu melhor momento durante o primeiro ano do presidente Obama, quando contava com a maioria democrata no Congresso e um alto grau de aceitação pública.

"No entanto, se esqueceu de sua promessa de campanha e dedicou todo seu esforço a impulsionar a lei de reforma da saúde, que, embora tenha favorecido os latinos mais pobres, é frágil em relação com o que teria significado uma legalização para a maioria dos indocumentados do país", acrescentou.

Apesar do simbolismo e da importância da festa do Cinco de Maio para o mexicanos, muitos latinos se mostram um pouco incomodados por converter um acontecimento em outro dia festivo.

"Pela enésima vez, o Dia da Independência de México é em setembro, não em maio. Não sei quem decidiu - e também não me importa - que o aniversário de uma batalha entre o Exército francês e o mexicano requeria que se ingerissem quantidades enormes de álcool, só gostaria que (isso) terminasse", escreveu a colunista hispânica Esther Cepeda em seu último artigo.

David Hayes Bautista, um especialista no tema e autor do livro "Cinco de Maio: uma tradição americana", destacou as verdadeiras origens da comemoração nos EUA.

Segundo explicou à EFE Hayes Bautista, a comemoração tem suas raízes "no apoio que os latinos da Califórnia deram à defesa dos direitos humanos em meados do século 19".

Essa vitória de um reduzido grupo do exército mexicano contra a melhor armada das forças francesas em 1862 "foi recebida na Califórnia como um triunfo próprio da luta pelo reconhecimento dos direitos civis para todos".

O médico e historiador lamentou que as verdadeiras origens do Cinco de Maio não sejam conhecidas e não façam parte do currículo básico da educação cívica no país.

Mas, na década de 1960, o recém-nascido Movimento Chicano tomou o triunfo da batalha como um de seus exemplos para promover a luta pelos direitos civis dos mexicano-americanos.

"Eu sou chicano e cresci com essa geração e não conhecia este pedaço da história", ressaltou Hayes Bautista.

A comemoração foi se popularizando tentando derivar mais para uma amostra da influência cultural dos mexicanos nos EUA, enquanto as empresas se aproveitaram do momento ao ver na festa um importante momento para captar esse crescente mercado de consumo.

Neste ano, durante a era Trump, o tema político também está presente e com dureza.

O ex-boxeador Oscar de la Hoya aproveitou para "lançar um direto na mandíbula" em uma das propostas do presidente, ao promover uma luta de boxe neste fim de semana, precisamente para celebrar o Cinco de Maio.

O comercial do evento, no qual se enfrentarão os pugilistas de origem mexicana Saúl "Canelo" Álvarez e Julio César Chávez Jr., mostra ambos "atravessando um muro" para a luta em Las Vegas.

"A ideia do muro foi um golpe direto em Donald Trump", declarou De la Hoya em uma entrevista ao jornal New York Times ao referir-se ao vídeo de promoção de seu evento.

 

No ano passado, De la Hoya convidou Trump a um evento similar de boxe por ocasião do Cinco de Maio e, depois de aceitar o convite, o magnata cancelou sua presença devido a um comentário feito pelo ex-boxeador, que o acusou de trapacear no golfe.

Dos 56,6 milhões de latinos residentes nos Estados Unidos em 2015, 63,4% é de origem mexicana, segundo os dados do censo. Além disso, dos aproximadamente 11,3 milhões de imigrantes sem documentos em 2016 no país, 5,6 milhões são mexicanos, de acordo com dados apresentados em abril pelo Pew Center. / EFE

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