EFE/EPA/MCS 3RD CLASS MATT BROWN / US NAVY/ HANDOUT
EFE/EPA/MCS 3RD CLASS MATT BROWN / US NAVY/ HANDOUT

‘Trump não pode adiar questão norte-coreana’

Líder americano tem de avaliar opções de ataque preventivo para evitar que regime crie mísseis capazes de atingir EUA

Entrevista com

Scott Snyder, especialista em península coreana do Council on Foreign Relations

Cláudia Trevisan, correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2017 | 05h00

WASHINGTON - O governo de Donald Trump não poderá adiar a definição de uma estratégia de enfrentamento da ameaça nuclear da Coreia do Norte, que trabalha para desenvolver mísseis capazes de atingir os EUA em um prazo de até quatro anos. Quanto mais avançada Pyongyang estiver em seu programa, maior será a pressão para um ataque preventivo americano. A avaliação é de Scott Snyder, especialista em península coreana do Council on Foreign Relations, principal centro de pesquisas sobre relações internacionais dos EUA. 

A seguir, trechos da entrevista de Snyder ao Estado:

Em janeiro o sr. disse que a janela de oportunidade para a desnuclearização pacífica da Coreia do Norte pode ter se fechado. O que isso significa?

A nova liderança na Coreia do Norte declarou que sua prioridade é o simultâneo desenvolvimento nuclear e econômico. Eles têm enviado sinais de que não querem voltar à mesa de negociação. Eles querem ter conversas com os EUA como um Estado nuclear. Mas será muito difícil para os EUA aceitarem uma Coreia do Norte nuclear, especialmente se o país estiver na trajetória de conquistar a capacidade de atacar os EUA de maneira direta.

Quais são as opções dos EUA? 

O governo Obama reconheceu que a Coreia do Norte era um problema sério, mas era um problema que os EUA enfrentariam no futuro, não imediatamente. Mas os que chegaram agora veem uma Coreia do Norte que poderá ter a capacidade de atingir os EUA dentro de quatro anos. Ou antes. Isso significa que o governo Trump não pode adiar a questão. 

Se você aceitar a premissa de que o tempo não está do nosso lado, isso remove a maioria das opções palatáveis, se pensarmos no espectro das opções existentes para lidar com a Coreia do Norte. Nos dois extremos desse espectro estão aceitar uma Coreia do Norte nuclear, o que é impossível para os EUA, ou forçar a desnuclearização com ação militar. 

O melhor caminho para os EUA é preservar opções intermediárias, que aumentem a pressão econômica, o que exige cooperação com a China. Mas é preciso ir além dessa cooperação. Os EUA precisam identificar medidas unilaterais para sancionar entidades ou companhias chinesas que fazem negócios com a Coreia do Norte, contrariando as sanções da ONU.

O governo Trump tem repetido que ‘todas as cartas estão na mesa’ no caso da Coreia do Norte, o que abrangeria uma eventual ação militar preventiva.

Qualquer novo governo tem de avaliar todas as possibilidades disponíveis. Na medida em que a Coreia do Norte avance no desenvolvimento de mísseis, isso naturalmente alimentará a análise de ações preventivas. O limiar que a Coreia do Norte cruzaria ao obter a habilidade de atingir o território americano com armas nucleares mudaria a dinâmica na região. Durante a transição, houve a mensagem direta de Obama para Trump de que a Coreia do Norte é a principal preocupação dos EUA em termos de segurança nacional. Washington está olhando com muito cuidado para um amplo leque de opções.

Quais são os riscos de uma ação militar? 

Quando o governo dos EUA cogita tomar ações preventivas ele volta para a mesma questão intransponível: a Coreia do Norte tem capacidade de responder e colocar em risco a Coreia do Sul, especialmente Seul, o que já serviu para deter possível ataques. Na medida em que a Coreia do Norte aumenta sua capacidade de atingir o Japão, por exemplo, a situação fica mais complexa. Estaríamos diante de um cenário em que uma eventual guerra não ficaria confinada à península coreana. 

Se a Coreia do Norte conquistar a capacidade de atingir os EUA com um míssil, a ação militar seria inevitável?

Causaria uma decisão desafiadora para os EUA sobre um ataque preventivo. Nós já vemos o início desse debate. Não quero prever em que circunstâncias os EUA usarão a força, mas posso dizer que a capacidade da Coreia do Norte está sendo observada de perto. Se os EUA perceberem que a Coreia do Norte está se preparando para utilizar suas armas nucleares, esse é o ponto em que estarão inclinados a um ataque preventivo.

Temos uma situação na qual as barreiras para o uso de capacidades nucleares estão sendo reduzidas por essa dinâmica entre Estados Unidos e Coreia do Norte, exacerbada pelas expressões ofensivas de Pyongyang. Os EUA e a Coreia do Norte têm essa relação hostil há seis décadas e não entendem bem um ao outro. Há um elevado grau de incompreensão, o que pode levar a erros de cálculo.

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