Tom Brenner/The New York Times
Tom Brenner/The New York Times

Trump não tem condições para ser o presidente dos EUA

Declarações do republicano sobre ação de supremacistas brancos em Charlottesville mostram que ele não faz ideia do que significa ocupar a Casa Branca

The Economist, O Estado de S.Paulo

20 Agosto 2017 | 05h00

Os defensores do presidente dos EUA, Donald Trump, costumam apresentar dois argumentos em seu favor: de um lado, dizem que ele é um empresário que combaterá a intervenção excessiva do Estado na economia; de outro, sustentam que, ao demolir os tabus politicamente corretos da elite progressista, ajudará o país a recuperar seu orgulho e confiança. Desde o início, ambos os argumentos soavam a conversa fiada. Depois da entrevista coletiva que Trump deu em Nova York na terça-feira, nenhum dos dois para mais em pé.

Era a terceira tentativa que o presidente fazia para responder aos confrontos ocorridos em Charlottesville, Virgínia, no fim de semana passado. Suas declarações representaram um passo atrás em relação à condenação - previamente redigida por assessores - que ele dirigira na véspera aos participantes da marcha de supremacistas brancos contra a remoção de uma estátua do general confederado Robert E. Lee. Em Nova York, sob o olhar contrariado de seu novo chefe de gabinete, Trump soltou a língua, tornando a dizer que a violência havia sido causada tanto pelos supremacistas quanto pelos manifestantes antirracistas. E, ao responsabilizar “ambos os lados”, deixou claro qual deles merece sua simpatia.

Trump não é um supremacista branco. Ele repetiu sua crítica aos neonazistas e lamentou a morte de Heather Heyer. Ainda assim, seu vaivém verbal contém uma mensagem terrível para os americanos. Longe de ser o salvador da América, o atual ocupante da Casa Branca é um homem politicamente inepto, moralmente raso e temperamentalmente despreparado para o cargo.

Automutilação. Comecemos pela inépcia. Na eleição do ano passado, Trump voltou todas as baterias contra a classe política americana, com efeitos devastadores. Esta semana, fracassou no mais simples dos testes políticos: encontrar palavras para condenar os nazistas. Depois de ser ambíguo e evasivo na primeira entrevista, no sábado, ele disse o que precisava ser dito na segunda-feira, para então se desdizer por completo na terça. Proeza rara, atraiu críticas tanto dos conservadores da emissora Fox News, quanto dos progressistas da revista Mother Jones. Com alguns dos executivos mais importantes dos EUA abandonando em massa os conselhos empresariais da Casa Branca, tratou de dissolvê-los. Em compensação, recebeu o apoio de David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan.

A extrema direita realizará novas manifestações em diversas cidades do país. Trump tem pela frente a difícil tarefa de manter as marchas sob controle e garantir a paz. O estrago também contaminará o restante de sua agenda. A entrevista de terça-feira tinha como tema suas propostas para reformar a infraestrutura dos EUA, que dependerão do apoio dos democratas. De forma totalmente desnecessária, o presidente comprometeu a iniciativa, como já havia feito no passado. Em junho, a “semana da infraestrutura” foi tragada pela investigação sobre a interferência da Rússia na eleição do ano passado - investigação que Trump ajudou a instigar ao demitir o diretor do FBI num acesso de raiva. A revogação do Obamacare também fracassou porque lhe faltaram conhecimento e carisma para fazer com que republicanos rebeldes mudassem de ideia. Como não bastasse, Trump reagiu à derrota criticando o líder republicano no Senado, de cuja ajuda precisa para aprovar seus projetos de lei. São boas amostras de sua capacidade de fazer as coisas acontecerem.

A inépcia política deriva de uma deficiência moral. Alguns dos manifestantes antirracistas realmente recorreram à violência e Trump poderia ter incluído palavras duras contra eles em suas declarações. Mas colocar racistas e antirracistas em pé de igualdade é algo que mostra quão raso é seu caráter. Vídeos gravados em Charlottesville mostram os participantes da marcha carregando símbolos fascistas, agitando tochas, brandindo porretes e escudos, cantando coisas como: “Os judeus não vão tomar nosso lugar”. Na manifestação antirracista, o que se vê nos vídeos são basicamente cidadãos comuns, gritando palavras de ordem contra os adversários. Coisa que tinham toda a razão em fazer: os supremacistas brancos e os neonazistas querem uma sociedade com base na raça das pessoas - ideia contra a qual os EUA travaram uma guerra. A defesa aparentemente sincera que Trump fez dos que marcharam em prol das estátuas confederadas revela como o ressentimento e a nostalgia raivosa cultivados por certa parcela dos brancos americanos fazem parte de sua visão de mundo.

Na raiz disso tudo está o temperamento de Trump. Em tempos difíceis, o presidente tem o dever de unir o país. Foi o que ele tentou fazer na entrevista de segunda-feira. Se não conseguiu sustentar o esforço nem por 24 horas é porque isso está além de suas capacidades. Um presidente precisa se colocar acima da disputa mesquinha com os adversários e agir em benefício do interesse nacional. Em vez de se dar conta de que seu trabalho é honrar o cargo que ocupa, Trump só se preocupa em honrar a si mesmo e assumir o crédito por suas supostas realizações.

O momento atual é perigoso. Os EUA estão rachados ao meio. Mesmo depois de ameaçar lançar um ataque nuclear contra a Coreia do Norte, dizer que poderia invadir a Venezuela e fazer declarações desastrosas sobre Charlottesville, Trump ainda conta com a aprovação de 80% dos eleitores republicanos. Tal popularidade é um obstáculo para a união do país.

Isso leva à questão de como os republicanos que participam da vida pública deveriam tratar Trump. Para os que estão no governo, trata-se de uma escolha difícil. Alguns se sentirão inclinados a deixar seus cargos. Mas os assessores diretos do presidente, em particular os três generais que atualmente chefiam o gabinete da Casa Branca, o Pentágono e o Conselho de Segurança Nacional, são os que mais têm condições de controlar os piores impulsos de seu comandante-chefe.

Para os republicanos do Congresso, as escolhas deveriam estar mais claras. Muitos deles taparam o nariz e apoiaram Trump porque acharam que o presidente encamparia muitas de suas propostas. A coisa não rendeu frutos. Longe de ser um republicano, Trump é a estrela única de seu show particular. Ao atrelar seu destino ao do presidente, os republicanos estão prejudicando s EUA e o partido. As tentativas grosseiras que Trump faz para se apresentar como alguém que não tem papas na língua servem apenas para envenenar a vida nacional. Quaisquer ganhos a serem obtidos com reformas econômicas - e a atual alta do mercado de ações e o baixo desemprego devem mais ao desempenho da economia mundial, às empresas de tecnologia e à desvalorização do dólar do que a Trump - virão com um preço inaceitável.

Se estiverem dispostos a tanto, os republicanos têm como manter Trump sob controle. Em vez de condescender com as afrontas do presidente, na esperança de que algo de bom possa resultar delas, seu dever é condená-las. Foi o que os melhores republicanos fizeram esta semana. Outros deveriam fazer o mesmo. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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