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Trump nega áudio em que critica May e promete acordos

Após repercussão negativa, presidente volta atrás e acusa jornalistas de espalharem ‘notícias falsas’ durante sua visita ao Reino Unido

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2018 | 20h49

A visita do presidente dos EUA, Donald Trump, ao Reino Unido transformou-se nesta sexta-feira em desastre diplomático. Depois de criticar a premiê Theresa May, na quinta-feira, o republicano negou tudo e acusou os jornalistas de propagarem “notícias falsas”. Após a repercussão negativa, ele prometeu fechar acordos comerciais após a saída dos britânicos da União Europeia.

Recebido com pompa em Londres, na quinta-feira, Trump havia cravado horas antes uma faca nas costas de May, que enfrentou nesta semana uma crise política após a demissão de dois dos ministros mais estratégicos de seu governo.

Na entrevista ao Sun, Trump afirmou que um dos demissionários, o ex-ministro das Relações Exteriores Boris Johnson, defensor do Brexit, “é um cara talentoso, que daria um excelente primeiro-ministro”. 

O elogio não foi em vão: Johnson é acusado de trabalhar pela queda de May para assumir seu posto. Não bastasse, Trump atacou a nova estratégia anunciada pela premiê, que prevê um desligamento “suave” da UE, com a assinatura de acordos de livre-comércio. Para o presidente americano, “o acordo que ela (May) tem em mente é um diferente daquele pelo qual as pessoas votaram”. “Eu o teria feito de uma forma muito diferente. Eu disse a Theresa May como fazê-lo, mas ela não me escutou”, disse Trump. 

As declarações foram agravadas pelo fato de que o presidente fechou as portas a um futuro acordo de livre-comércio entre o Reino Unido e os EUA. “Se eles concluírem um acordo como esse, trataremos com a UE, e não com o Reino Unido, o que vai matar o acordo (de livre-comércio com os EUA)”, disse Trump. 

Ignorando o protocolo, Trump atacou também o prefeito de Londres, o trabalhista Sadiq Kahn, a quem acusou de ser um “prefeito horrível”, que “faz um péssimo trabalho quanto ao terrorismo”. No momento das declarações, o presidente assistia a uma demonstração de operação conjunta entre forças especiais americanas e britânicas contra o terrorismo na Academia de Sandhurst, uma das mais tradicionais da Europa.

Horas depois, Trump concedeu entrevista ao lado de May, na qual afirmou que não disse o que estava no conteúdo da entrevista publicado pelo jornal The Sun. Depois de chamar a entrevista gravada de “fake news”, ele disse não ter criticado a primeira-ministra, com quem teria uma relação “muito sólida”, e garantiu que os EUA estarão abertos a um acordo de livre-comércio com o Reino Unido. 

“Concordamos que, quando o Reino Unido tiver deixado a UE, estabeleceremos um acordo de livre-comércio muito ambicioso”, afirmou. A essa altura, a reviravolta já havia unido conservadores e trabalhistas em críticas ao presidente. Via Twitter, o ministro da Educação, Sam Gymiah, questionou o comportamento do americano. “Onde estão suas boas maneiras, senhor Trump?”, escreveu.

A performance do americano também preocupou Paris. O chanceler da França, Jean-Yves Le Drian, acusou Trump de tentar impor uma relação de força com os europeus. “Trump toma iniciativas para desestabilizar a UE”, advertiu. “Mas a Europa não se deixará desestabilizar.”

Protestos. “#DumpTrump” (“Trump no lixo”) era o lema das milhares de pessoas que saíram às ruas contra a visita ao Reino Unidos de  Trump, considerado “misógino, homofóbico e xenófobo”. “Este é o carnaval da resistência”, “Minha mãe não gosta de você, e ela gosta de todo mundo”, eram frases escritas nos cartazes.

“Não a Trump, não à Ku Klux Klan, não aos EUA fascistas!”, gritava a multidão, estimada em 100 mil, ao avançar pela Oxford Street com destino a Trafalgar Square, coração de Londres. Também eram numerosos os balões laranjas – com o lema “Stop Trump” –, uma referência à cor de pele do americano, adepto do bronzeamento artificial.

A viagem de Trump foi por muito tempo adiada justamente pelo temor da reação dos opositores britânicos, indignados com a ideia de seu país lhe estender um tapete vermelho.

Grant White, de 32 anos, usava uma faixa representando Trump como o pássaro do logotipo do Twitter, rede social transformada pelo americano em palanque, com uma suástica sob a asa. “Sou anti-Brexit, anti-Trump. Há uma onda de fascismo da qual temos de nos libertar”, disse. 

Passando diante do número 10 da Downing Street, residência da primeira-ministra britânica, os manifestantes vaiaram e gritaram: “Vergonha!”. May foi a primeira líder estrangeira a viajar a Washington para encontrar Trump, após sua posse, em janeiro de 2017.

Pela manhã, um balão gigante representando Trump de fraldas flutuou perto do Parlamento, iniciativa que recebeu luz verde do prefeito de Londres, Sadiq Khan, alvo de ataques verbais do americano. 

 

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