REUTERS/Yuri Gripas
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Trump oferece o Exército para conter protestos violentos em Minneapolis

Governador do Estado de Minnesota envia agentes da Guarda Nacional à cidade e militares ficam de prontidão diante da perspectiva de outra noite de revolta pela morte de um homem negro por um policial branco

Beatriz Bulla, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2020 | 21h10

Milhares de agentes adicionais da Guarda Nacional foram enviados neste sábado a Minneapolis, no Estado de Minnesota, e tropas do Exército estavam de prontidão diante da perspectiva de mais uma noite de violentos protestos na cidade por causa da morte de George Floyd, um homem negro de 46 anos, por um policial branco na segunda-feira durante uma abordagem. Protestos também estavam programados em outras cidades do país.

A decisão do governador de Minnesota, Tim Walz, de convocar todos os agentes da Guarda Nacional do Estado, mais de 13.200, foi tomada em meio ao aumento da violência e depois de os manifestantes desafiarem o toque de recolher na sexta-feira e incendiarem mais construções, entre eles um banco, um restaurante e um posto de gasolina. O governador disse que a medida era necessária, pois agitadores de fora estavam usando os protestos para provocar o caos na cidade.

O presidente Donald Trump, que ofereceu soldados e agentes de inteligência para pôr fim aos protestos, disse que as autoridades em Minnesota têm de ser mais duras com os manifestantes. Neste sábado, no Centro Espacial Kennedy, na Flórida, Trump disse que a morte de Floyd foi “uma tragédia grave”, mas a memória dele “foi desonrada pelos revoltosos, saqueadores e anarquistas”. 

Manifestantes entraram em choque neste sábado à tarde em Washington com agentes do serviço secreto quando tentavam marchar do Capitólio para a Casa Branca. Os agentes usaram spray de pimenta e cassetetes contra a multidão. 

Trump afirmou que os manifestantes teriam sido “recebidos com os cães mais cruéis e as armas mais ameaçadoras”, caso violassem a cerca da Casa Branca na sexta-feira à noite. “Um grande trabalho foi feito pelo serviço secreto na Casa Branca. Eu estava dentro e me senti totalmente seguro”, disse Trump neste sábado no Twitter.

Nem a prisão e a acusação formal do policial pela morte de Floyd conseguiram conter os ânimos. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, o policial Derek Chauvin aparece em um vídeo ajoelhando sobre o pescoço de Floyd durante oito minutos, enquanto Floyd grita: “Não consigo respirar!”, até perder a consciência. 

Segundo a CNN, protestos foram registrados em ao menos 30 cidades na sexta-feira. Entre elas, Nova York, Washington, Oakland, Houston, Atlanta, Kansas, Detroit, Las Vegas, Denver, San José e Memphis, Boston, Phoenix, Fort Wayne, Lincoln, Milwaukee e Chicago. Os atos violentos deixaram duas pessoas mortas entre sexta-feira e a madrugada de ontem – um homem, de 19 anos, em Detroit e um policial em Oakland. 

O governador do Texas, Greg Abbott, enviou neste sábado mais de 1.500 agentes estaduais às cidades de Houston, Dallas, Austin e San Antonio para ajudar a conter os protestos. Manifestantes revoltados voltaram neste sábado às ruas de Nova York e, apesar de o prefeito Bill de Blasio ter pedido calma, um carro de polícia foi atacada com um coquetel molotov. Ninguém ficou ferido.

Os protestos descentralizados não são apenas por Floyd, mas pela perpetuação nos EUA de uma política de segurança que continua a mirar os negros, a despeito de revoltas semelhantes como a de 1992, quando manifestações violentas tomaram as ruas de Los Angeles após um júri composto majoritariamente por brancos absolver quatro policiais, também brancos, acusados de uso excessivo de força contra o motorista negro Rodney King.

Black Lives Matter.

Em 2013, quando o vigia que matou Trayvon Martin, de 17 anos, na Flórida, foi inocentado por um júri, a americana Alicia Garza publicou em seu perfil de Facebook a frase “nossas vidas importam”. Uma amiga chamada Patrisse Khan-Cullors emplacou a hashtag #BlackLivesMatter e Opal Tometi ajudou a criar a partir dali uma plataforma online para o que se tornaria um movimento. “É uma tristeza profunda. Desgosto atrás de desgosto. Pensei na família dele e na dor insuperável que devem estar sentindo agora. Todos nós estamos sofrendo junto”, disse Patrisse em entrevista ao Estadão, ao falar sobre a morte de Floyd. 

A frase Black Lives Matter está em camisetas, placas e gritos dos manifestantes que foram às ruas do país na última semana. Mas o movimento não foi responsável por convocar os protestos, que têm brotado de forma orgânica nas cidades. Patrisse acredita que a frase se tornou “uma oração” atual quando o movimento foi criado e também nos dias de hoje, o que faz com que seja um mote de pessoas comuns, sem ligação com o grupo.

“O poder do ‘Black Lives Matter’ está na maneira pela qual reuniu a diáspora africana. Essas três palavras foram uma declaração e, de verdade, uma oração para todos nós que estávamos de luto. Essas palavras continuarão com esse significado até que o racismo, o patriarcado e o capitalismo sejam desmontados e consigamos construir algo centrado no nosso bem estar. É uma verdade agora, como era há 7 anos quando começamos”, afirma a estrategista política, cofundadora do Black Lives Matter e fundadora do Reform LA Jails, pela reforma do sistema criminal.

Criado oficialmente em 2013, o Black Lives Matter ganhou impulso em 2014 quando Eric Garner, também negro, avisou 11 vezes a um policial em Nova York: “eu não consigo respirar”. A súplica para que o agente soltasse seu pescoço foi em vão. Garner morreu por estrangulamento. 

Na segunda-feira, Floyd fez o mesmo apelo quando, algemado, teve seu pescoço prensado contra o chão por um policial. Em todos os casos, os responsáveis pelo crime justificaram a violência como um incidente gerado após abordagem policial de suspeito. O vídeo de Floyd sendo asfixiado foi gravado por uma testemunha do crime e viralizou na internet. 

Patrisse não quis dizer se os Estados Unidos avançaram ou não no combate ao racismo policial desde que ajudou a fundar o movimento, há sete anos, mas aposta que momento atual pode ser histórico, com a mobilização sobre Floyd e uma crise de saúde e econômica que traz à tona desigualdades em razão de raça. “Estamos testemunhando uma oportunidade de expor como e por que as instituições de polícia e encarceramento que temos falharam, e precisamos conversar seriamente sobre isso. Temos de falar sobre o fato de que investimos quase US$ 100 bilhões em policiamento, mas depois dizemos não ter verba para uma saúde universal neste país, em meio a uma pandemia”, afirma.

A pandemia expôs questões estruturais que tornam a população negra mais vulnerável à covid-19, como o trabalho em funções consideradas atividades essenciais, que não permitem isolamento, e a falta de plano de saúde, o que também aumenta a incidência de doenças crônicas.

"Dados mostram que os negros sofrem mais com a covid-19 nos EUA a taxas desproporcionais. Isso está inegavelmente ligado a desigualdades estruturais, que incluem disparidades econômicas. Não podemos falar sobre o bem-estar dos negros sem antes desconstruir o impacto que o racismo continua a ter em nossas vidas", afirma Patrisse.

Em Chicago, os negros são 30% da população, mas 70% dos infectados. O índice de mortalidade por covid-19 também é mais alto entre a população negra, em proporção ao total. Em Michigan, 40% das mortes são de pacientes negros, apesar de representarem 14% da população. Na capital americana mais de 1 em cada 5 mortes em razão do coronavírus está concentrada em uma das oito regiões da cidade. O Ward-8, como é chamado, não é o que tem mais casos de contaminação, mas é onde o coronavírus é mais fatal em Washington - e também o bairro onde 90% da população é negra. Os negros representam 46% da população da capital e 86% dos mortos.

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