Kevin Lamarque/Reuters
Kevin Lamarque/Reuters

Casa Branca pede que denúncia de Trump contra Obama seja investigada no Congresso

Presidente usa reportagem de site que foi dirigido por um de seus principais assessores para acusar antecessor de grampear seu escritório; FBI pede que o Departamento de Justiça venha a público para dizer que alegações do republicano são falsas

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2017 | 11h39
Atualizado 05 de março de 2017 | 21h57

WASHINGTON - A Casa Branca pediu neste domingo, 5, que o Congresso amplie sua análise sobre a suspeita de interferência da Rússia nas eleições presidenciais para incluir possível abuso de poder de investigação do Executivo. No sábado, Donald Trump havia acusado - sem apresentar provas - seu antecessor, Barack Obama, de ordenar escutas contra ele. O FBI pediu ao Departamento de Justiça que não leve em conta as alegações de Trump.

O presidente não apresentou nenhuma evidência para sustentar a afirmação e seus assessores disseram que ela tinha como base reportagens veiculadas por alguns meios de imprensa, entre os quais sites de extrema direita de credibilidade duvidosa, como o Breitbart, que era dirigido pelo porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer. 

“Relatos sobre investigações potencialmente motivadas por interesses políticos imediatamente antes da eleição de 2016 são muito perturbadores”, escreveu no Twitter Spicer, ao anunciar o pedido do governo ao Congresso.

As acusações de Trump foram rejeitadas neste domingo por James Clapper, que era diretor Nacional de Inteligência da gestão Obama. “Não houve nenhum tipo de atividade de escuta telefônica montada contra o presidente, o presidente-eleito naquele período, ou como candidato ou contra sua campanha”, afirmou em entrevista à rede NBC.

A suspeita de interferência da Rússia nas eleições é objeto de investigação do FBI, que também analisou no ano passado potenciais ligações entre a equipe de Trump e Moscou. Em tese, a escuta poderia ter sido determinada no âmbito dessas investigações, mas dependeria de autorização judicial para ser realizada. 

De acordo com o New York Times, o diretor do FBI, James Comey, pediu no sábado ao Departamento de Justiça que negasse de maneira pública as acusações de Trump contra Obama, o que não havia ocorrido até a noite de domingo. Comey argumentou que a insinuação é grave e falsa e sugere que o FBI agiu de maneira ilegal, disse o jornal. 

A agência é subordinada ao Departamento de Justiça, que é dirigido por Jeff Sessions, o segundo assessor de Trump a enfrentar problemas em razão de contatos com o embaixador russo em Washington, Serguei Kislyak. Em sua sabatina no Senado, em janeiro, Sessions omitiu encontro que teve com o diplomata em setembro, dois meses antes da eleição. Sob pressão da oposição democrata, que exigia sua renúncia, o secretário de Justiça anunciou na quinta-feira que vai se declarar impedido para atuar em investigações que envolvam as campanhas à presidência. 

Os serviços de inteligência dos EUA concluíram que a Rússia tentou interferir nas eleições de 2016 para beneficiar a candidatura de Trump. As principais armas usadas por Moscou foram a disseminação de informações falsas e a interceptação de e-mails de assessores da democrata Hillary Clinton e de dirigentes do Partido Democrata. 

A legislação proíbe que o presidente dos EUA interfira em investigações realizadas pelo FBI ou determine ações como escutas telefônicas, que dependem de autorização judicial. “Uma regra fundamental da administração Obama era a de que nenhuma autoridade da Casa Branca jamais interferiu em nenhuma investigação do Departamento de Justiça”, disse Kevin Lewis, porta-voz do ex-presidente.

Apesar do ceticismo que cerca a acusação de Trump, o presidente do Comitê de Inteligência da Câmara dos Deputados, o republicano Devin Nunes, disse que levará adiante as investigações. 

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