AP Photo/Alex Brandon
AP Photo/Alex Brandon

Trump pressionou México por dizer que não paga muro

Em telefonema a Peña Nieto, líder americano indicou que resistência mexicana o prejudicava e ameaçou não participar de encontro

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2017 | 15h52
Atualizado 03 Agosto 2017 | 21h15

Na primeira conversa telefônica que teve com seu colega mexicano, Enrique Peña Nieto, sete dias depois de sua posse, o presidente Donald Trump o pressionou para que deixasse de dizer publicamente que seu país não pagaria pelo muro que o republicano prometeu construir na fronteira entre os dois países. 

“Nós estamos ambos dizendo que não vamos pagar pelo muro”, disse Trump a Peña Nieto em 27 de janeiro. “Não podemos mais dizer isso, porque se você for falar que o México não vai pagar pelo muro, então eu não quero mais me encontrar com vocês”, continuou o republicano, que durante toda sua campanha afirmou que o país vizinho pagaria pela obra.

No telefonema, Trump deu indícios de que estava consciente das dificuldades para implementar uma das principais promessas que fez a seus eleitores, mas insistiu na necessidade de manter sua narrativa. “Estou disposto a dizer que nós vamos resolver, mas isso significa que isso vai ser solucionado no fim e está OK”, afirmou o americano. “Mas você não pode mais dizer que os Estados Unidos vão pagar pelo muro. Eu só vou dizer que nós vamos resolver”, ressaltou Trump, segundo transcrição da conversa divulgada pelo jornal The Washington Post.

“Acredite ou não, essa é a coisa menos importante sobre a qual estamos falando, mas politicamente isso pode ser o mais importante para falar”, disse o presidente dos EUA. Peña Nieto sugeriu que ambos deixassem de falar sobre o muro e se concentrassem em outros temas da agenda bilateral. “Minha posição sempre foi e continuará sendo dizer de maneira muito firme que o México não pode pagar por aquele muro”, enfatizou.

“Mas você não pode dizer isso para a imprensa. A imprensa irá atrás disso e eu não posso viver com isso. Você não pode dizer à imprensa porque eu não posso negociar sob essas circunstâncias”, respondeu Trump. 

Por enquanto, a Câmara aprovou uma proposta orçamental para destinar US$ 1,6 bilhão solicitado pela Casa Branca para o muro, uma medida que dificilmente será aprovada por parte do Senado, apesar de os trabalhos de construção terem começo previsto para o fim deste ano.

O Washington Post também obteve a transcrição da conversa que Trump teve no dia seguinte com o primeiro-ministro da Austrália, Malcom Turnbull, que foi encerrada de maneira abrupta pelo americano. No telefonema, Trump se queixou de um acordo fechado por seu antecessor, Barack Obama, para os Estados Unidos receberem 1.250 refugiados de Irã, Paquistão e Afeganistão que estavam na Austrália.

“Isso vai me matar. Eu sou a maior pessoa do mundo que não quer deixar pessoas entrarem no país”, afirmou Trump, que havia acabado de assinar um decreto suspendendo o ingresso nos EUA de cidadãos de sete países de maioria islâmica. “Isso me faz parecer tão mau e eu só estou aqui há uma semana.”

Turnbull explicou que a Austrália não podia ficar com os refugiados em razão da política que impede o recebimento de pessoas que chegam de barco e de maneira clandestina ao país, adotada para desestimular o tráfico de pessoas. “Estou fazendo essas chamadas telefônicas todo o dia e essa foi a mais desagradável chamada de todo o dia”, disse Trump a Turnbull, presidente de um país que está entre os mais tradicionais aliados dos EUA. “(Vladimir) Putin foi uma conversa agradável. Esta é ridícula.”

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.