Kevin Lamarque/Reuters
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Trump pediu ajuda a Xi para vencer eleição, diz ex-conselheiro da Casa Branca em livro

É a primeira vez que um alto servidor público do governo conta detalhes em primeira mão de bastidores da gestão republicana

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2020 | 17h30
Atualizado 17 de junho de 2020 | 19h20

WASHINGTON - John Bolton, ex-conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, disse que Donald Trump pediu ajuda ao presidente chinês, Xi Jinping, para vencer a eleição de novembro. A denúncia está no novo livro de Bolton, com lançamento marcado para o dia 23. O Departamento de Justiça entrou com uma ação judicial para barrar a publicação, mas alguns trechos foram revelados nesta quarta-feira, 17, pela imprensa americana.

Segundo Bolton, o pedido ocorreu durante uma reunião com Xi a portas fechadas, em junho de 2019. “Surpreendentemente, Trump mudou o rumo da conversa e passou a falar das próximas eleições presidenciais americanas, se referindo à capacidade econômica da China e implorando para que Xi garantisse sua vitória”, escreveu o ex-conselheiro. 

Durante a reunião, Trump usou a guerra comercial com o país asiático para obter vantagens políticas. De acordo com Bolton, o presidente teria pedido que Xi comprasse produtos agrícolas americanos para que ele pudesse vencer a eleição em Estados-chave dos EUA. “Ele (Trump) enfatizou a importância dos agricultores e das importações chinesas de soja e trigo no resultado das eleições”, disse o ex-conselheiro.

A Casa Branca de Trump já foi objeto de outros livros. No entanto, até então, todos haviam sido relatos de jornalistas ou de ex-funcionários com pouco acesso a informações privilegiadas. É a primeira vez que um alto servidor público do governo conta detalhes em primeira mão de bastidores da gestão.

Bolton é um republicano histórico, que milita no partido desde os anos 60 e sempre apresentou credenciais impecáveis em gabinetes de presidentes conservadores, como Ronald Reagan e George Bush, pai e filho. Defensor de intervenções militares americanas em outros países, ele foi nomeado conselheiro de Segurança Nacional em abril de 2018 e demitido pelo Twitter em setembro de 2019. “Seus serviços não serão mais necessários na Casa Branca”, escreveu o presidente.

O intervencionismo de Bolton incomodava Trump. O ex-conselheiro defendia posições mais duras contra Venezuela, Coreia do Norte e o Taleban, no Afeganistão. A demissão ocorreu logo após surgir a notícia de que Trump havia pedido ajuda do presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, para investigar Joe Biden, democrata que liderava a corrida presidencial e provável rival na campanha pela reeleição. 

Durante o processo de impeachment, Bolton se tornou alvo de intimações de deputados e senadores democratas, que queriam que ele testemunhasse no inquérito contra o presidente – a Casa Branca conseguiu barrar seu depoimento. 

Desde que deixou o governo, no entanto, o ex-conselheiro anunciou a intenção de escrever suas memórias.

Antes mesmo de ser lançado, o livro The Room Where It Happened (“A Sala Onde Tudo Aconteceu”, em tradução livre) se tornou um best-seller nos EUA. Hoje, os jornais The Wall Street Journal e New York Times publicaram trechos da obra. Em 577 páginas, Bolton diz que o inquérito de impeachment ignorou outras ações criminosas do presidente e garante que muitos aliados e assessores falam mal de Trump pelas costas.

Bolton descreve ainda vários episódios em que o presidente atuou para obstruir investigações criminais – além do escândalo da Ucrânia, que foi alvo do inquérito de impeachment. O ex-conselheiro cita “favores” concedidos a “ditadores” e empresas da China e da Turquia.

Quem teve acesso afirma que o livro é um retrato sombrio de um presidente ignorante e suscetível a elogios feitos por líderes autoritários que o manipulam facilmente. Segundo Bolton, Trump não sabia, por exemplo, que o Reino Unido tinha armas nucleares e perguntou, uma vez, se a Finlândia fazia parte da Rússia. 

Bolton diz também que os EUA estiveram mais perto do que se imagina de sair da Otan e cita um bilhete constrangedor do secretário de Estado, Mike Pompeo. Em 2018, durante reunião com Kim Jong-un, Pompeo teria escrito para Bolton uma mensagem criticando Trump. “Ele só fala bobagem”, dizia o bilhete. / NYT e AFP

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