Lukas Coch / EPA / Shutterstock
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Trump pediu informações a premiê australiano para desacreditar inquérito sobre Rússia, diz jornal

'New York Times' afirma que presidente americano solicitou informações ao premiê da Austrália para ajudar seu secretário de Justiça a tirar a validade de uma investigação que Muller conduzia sobre o presidente

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2019 | 17h36
Atualizado 01 de outubro de 2019 | 15h27

WASHINGTON — O presidente dos EUA, Donald Trump, ganhou nesta segunda-feira, 30, mais um escândalo no currículo. Segundo dois funcionários do governo, citados pelo jornal The New York Times, o presidente, em um telefonema, pressionou o primeiro-ministro da Austrália, Scott Morrison, para que ele descobrisse detalhes da origem da investigação sobre sua campanha presidencial de 2016, que na época buscava informações que prejudicassem a democrata Hillary Clinton.

Em linhas gerais, Trump quer que seu secretário de Justiça, William Barr,  investige a investigação feita pelo procurador especial Robert Mueller, que durante mais de dois anos ouviu testemunhas e analisou documentos sobre a relação entre a campanha presidencial republicana e agentes russos. As tentativas da Rússia de interferir na eleição americana vieram à tona por acidente.

A Casa Branca restringiu o acesso à transcrição da chamada a um pequeno grupo de assessores do presidente, segundo uma das autoridades ouvidas pelo New York Times, em uma decisão incomum e semelhante ao tratamento dado a uma ligação de 25 de julho com o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski. Essa ligação está no coração do inquérito que os democratas da Câmara abriram e pode levar ao impeachment do presidente. 

Na avaliação do jornal, com essa ligação, a discussão com o primeiro-ministro da Austrália mostra até que ponto Trump vê o secretário de Justiça como um parceiro crítico em seu objetivo de mostrar que a investigação de Mueller teve origens "corruptas e partidárias" e até que ponto Trump vê a investigação do Departamento de Justiça como uma maneira potencial de obter vantagem sobre os aliados mais próximos dos EUA.

O jornal afirma ainda que, assim como a ligação com o presidente ucraniano, a discussão com Morrison mostra que o presidente usa diplomacia de alto nível para promover seus interesses políticos pessoais.

O presidente Trump iniciou a discussão nas últimas semanas com Morrison explicitamente com o objetivo de solicitar a ajuda da Austrália na revisão do Departamento de Justiça sobre a investigação na Rússia, de acordo com as duas pessoas com conhecimento da discussão, citadas pelo jornal. Barr teria pedido a Trump que falasse com Morrison. 

Ao fazer o pedido, Trump estava, na verdade, pedindo ao governo da Austrália para investigar a ele mesmo.  A porta-voz do Departamento de Justiça não quis comentar a denúncia, assim como o porta-voz da Casa Branca ou do primeiro-ministro australiano.  

A investigação de contrainteligência do FBI (polícia federal americana) sobre a interferência russa nas eleições de 2016 deve início depois que um funcionário do governo australiano afirmou ao bureau que o governo russo ofereceu para a campanha de Trump informações políticas que poderiam ser prejudiciais a então candidata democrata.

Em maio de 2016, George Papadopoulos, então assessor de política externa da campanha de Trump, estava bebendo com o diplomata australiano Alexander Downer em um bar de Londres. Para espanto de Downer, Papadopoulos soltou uma revelação surpreendente: a Rússia teria milhares de e-mails de Hillary e informações que prejudicariam a candidata democrata.  

Papadopoulos também disse que foi informado pelos russos que eles tinham "milhares" de emails de Hillary enviados pelo professor universitário Joseph Mifsud. A última informação que se tem sobre Mifsud era de que ele estava trabalhando como professor convidado em Roma, e desde então ele desapareceu.

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Imediatamente, Downer avisou o FBI que os russos haviam se aproximado da campanha de Trump e poderiam interferir no processo eleitoral. Autoridades americanas iniciaram uma investigação sobre a influência da Rússia na eleição, que terminou em março em um relatório inconclusivo produzido por Mueller – o documento não emitiu opinião sobre conluio entre a campanha e os russos.

Aliados de Trump, como o advogado pessoal do presidente, Rudolph Giuliani, têm defendido, sem provas, que agências de Inteligência do Ocidente, "inventaram" o professor Mifsud para enganar Papadopoulos.

Barr, segundo o jornal, viajou para a Itália na semana passada e se encontrou com membros do governo italiano na sexta-feira. A porta-voz do Departamento de Justiça não disse se ele discutiu o inquérito sobre a eleição nesses encontros, mas ex-funcionários do departamento disseram que Barr precisa da ajuda de governos estrangeiros para que forneçam documentos relativos às eleições de 2016. 

Barr começou uma revisão da investigação sobre a Rússia este ano com o objetivo declarado de determinar se algum funcionário do Departamento de Justiça ou da Inteligência nos EUA agiu de maneira inapropriada em sua decisão de começar a investigar se a campanha de Trump estava conspirando com a Rússia para uma interferência nas eleições. 

Pelo menos, Barr deixou claro que ele vê seu trabalho entrando em um território sensível: como os agentes da lei e as agências de inteligência dos aliados mais próximos dos EUA compartilham informações com oficiais do governo americano. / NYT



 

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