Evan Vucci/AP
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Trump perde vantagem financeira e diz que pode colocar dinheiro próprio na campanha

Segundo a reportagem do 'NYT', do total de US$ 1,1 bilhão arrecadado pela campanha e pelo Partido Republicano entre o início de 2019 e julho, mais de US$ 800 milhões já foram gastos, gerando uma crise a 60 dias das eleições

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de setembro de 2020 | 16h56

WASHINGTON - O presidente americano, Donald Trump, disse nesta terça-feira, 8, que está considerando colocar seu próprio dinheiro na campanha de 2020. “Se eu precisar, eu farei”, disse ele, depois que o gerente de sua campanha não negou a reportagem do New York Times afirmando que ela estaria enfrentando problemas de caixa.

Segundo a reportagem, do total de US$ 1,1 bilhão arrecadado pela campanha e pelo Partido Republicano entre o início de 2019 e julho, mais de US$ 800 milhões já foram gastos. Algumas pessoas de dentro da campanha estariam preocupadas com o que parecia ser improvável: uma crise de caixa a menos de 60 dias da eleição, afirma a reportagem, citando como fonte funcionários da equipe. 

Trump investiu mais de US$ 50 milhões em sua corrida pelas primárias de 2016, mas se recusou a financiar sua campanha nas eleições gerais. Até agora, ele não colocou nada de recurso próprio em sua campanha de 2020. “Custe o que custar, temos de vencer”, disse Trump a repórteres enquanto se preparava para partir em uma viagem à Flórida.

Ele escreveu também em sua conta no Twitter que não esperava precisar colocar seu próprio dinheiro na corrida, mas explicou que se for preciso, ele fará isso. "Se mais dinheiro for necessário, o que duvido que seja, eu o colocarei!"

Depois que o New York Times afirmou que a campanha de Trump havia perdido sua vantagem financeira devido a gastos extravagantes, Bill Stepien, que assumiu o cargo de gerente de campanha em julho, não negou que a equipe está enfrentando uma crise de caixa, durante uma entrevista coletiva nesta terça-feira. 

“Se o dinheiro fosse o único fator determinante entre os vencedores e perdedores na política, Jeb Bush teria sido o indicado em 2016. E teríamos um segundo presidente Clinton agora no Salão Oval”, disse Stepien. 

Stepien enfatizou que a campanha Trump tem muito mais dinheiro disponível agora do que em 2016. “Estamos administrando cuidadosamente o orçamento”, disse ele, algo que ele chamou de “uma das tarefas mais importantes para qualquer gerente de campanha". "Criar ou recriar o orçamento foi a primeira coisa que fiz ao me tornar o gerente de campanha e é algo que, como uma equipe, gerenciamos todos os dias.”

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Stepien impôs uma série de mudanças que afetaram as viagens da equipe, as contratações e o orçamento publicitário, já que a campanha de Trump reduziu drasticamente a compra de anúncios na televisão no fim de agosto.

Ele alertou que os primeiros gastos da campanha não podem ser igualados pelos democratas. “Nosso investimento inicial nos Estados vai mover a agulha de uma forma que a campanha de Joe Biden simplesmente não pode fazer, mesmo se eles começassem agora”, disse Stepien.

Vantagem decisiva 

Depois de gastar muito em 2016, Trump se apresentou para a reeleição logo no dia de sua posse – mais cedo do que qualquer outro presidente moderno – apostando que sair à frente lhe traria uma vantagem financeira decisiva neste ano.

A estratégia parecia ter funcionado. Seu rival, Joe Biden, estava relativamente falido quando emergiu como o provável candidato democrata. Trump e o Comitê Nacional Republicano tinham uma vantagem de quase US$ 200 milhões com relação a ele. Mas cinco meses depois, a supremacia financeira de Trump evaporou, de acordo com o Times. 

Brad Parscale, o ex-gerente de campanha, gostava de chamar a máquina de guerra da reeleição de Trump de “rolo compressor irrefreável”. Mas entrevistas com mais de uma dúzia de assessores de campanha atuais e antigos e com aliados de Trump, além da análise de milhares de itens em documentos federais, mostram que a campanha do presidente e o Comitê Nacional Republicano desenvolveram alguns hábitos perdulários, gastando centenas de milhões de dólares. 

Agora, com Stepien, a campanha impôs uma série de medidas rígidas que remodelaram as iniciativas, como ele explicou na entrevista coletiva desta terça-feira.

Mas sob Parscale, mais de US$ 350 milhões – quase metade dos US$ 800 milhões gastos – foram para operações de arrecadação de fundos: não se poupou nenhuma despesa para encontrar novos doadores online. A campanha reuniu uma equipe grande e bem paga e a hospedou em um escritório imenso e bem equipado nos subúrbios da Virgínia; contas jurídicas descomunais foram tratadas como custos de campanha; e se gastaram mais de US$ 100 milhões em uma campanha publicitária na televisão ainda antes da convenção do partido, o ponto em que, historicamente, a maior parte do eleitorado começa a prestar mais atenção à corrida eleitoral.

Entre as compras mais impactantes e talvez mais questionáveis estava um par de anúncios no Super Bowl que a campanha reservou por US$ 11 milhões, de acordo com a Advertising Analytics – mais do que gastou na TV em alguns dos principais Estados em disputa – uma ostentação de vaidade que permitiu a Trump igualar a compra que o bilionário Michael Bloomberg fizera para o grande jogo.

Os críticos da gestão da campanha dizem que os gastos extravagantes foram ineficazes: Trump começa a reta final da campanha atrás na maioria das pesquisas nacionais e estaduais, e Biden o ultrapassou na capacidade de arrecadação de fundos, após angariar um recorde de quase US$ 365 milhões em agosto. A campanha de Trump não revelou sua arrecadação de fundos em agosto.

“Se você gasta US$ 800 milhões e continua 10 pontos atrás, acho que precisa responder à pergunta: ‘Qual era a estratégia de jogo?’”, disse Ed Rollins, veterano estrategista republicano que dirige um pequeno comitê de ação política pró-Trump e que acusou Parscale de gastar “feito um marinheiro bêbado”.

“Acho que gastaram muito dinheiro quando os eleitores não estavam nem prestando atenção”, acrescentou.

Parscale, que ainda é conselheiro na campanha, disse em uma entrevista que a operação Trump investiu pesadamente na atração de doadores para acabar com a grande vantagem que os democratas construíram digitalmente após os anos de Obama. “Fechamos essa lacuna”, disse ele, argumentando que os gastos iniciais foram “a única razão pela qual os republicanos estão ainda próximos” em termos de arrecadação de fundos online.

Nicholas Everhart, estrategista republicano e dono de uma empresa especializada em veicular anúncios políticos, disse que os US$ 800 milhões gastos até agora mostram o “perigo de se iniciar uma campanha de reeleição poucas semanas depois da vitória”.

“É preciso muito dinheiro para fazer uma campanha presidencial funcionar”, disse Everhart. “Em essência, a campanha tem gastos sem parar por quase quatro anos consecutivos."

Controlando o orçamento

No topo do quadro branco do escritório de Stepien estão os números mais recentes sobre o orçamento da campanha. Stepien instituiu uma série de mudanças desde que foi promovido a vice-gerente. Uma proposta de gastar US$ 50 milhões em custos relacionados a grupos de coalizões foi posta de lado. Também foi descartada a ideia de gastar US$ 3 milhões em um carro da NASCAR com o nome de Trump.

O número de funcionários autorizados a viajar para eventos foi reduzido, para evitar o que um gerente de campanha descreveu como “férias patrocinadas”.

As viagens a bordo do Air Force One, muito populares porque permitem que assessores tenham contato direto com o presidente – mas que precisam ser reembolsadas pela campanha – foram reduzidas.

“A coisa mais importante que faço todos os dias é prestar atenção ao orçamento”, disse Stepien em uma breve entrevista ao New York Times. Ele se recusou a discutir detalhes do orçamento, mas disse que a campanha tinha fundos suficientes para vencer.

Mais visivelmente, a campanha de Trump reduziu seus gastos com televisão em agosto, praticamente abandonando o rádio durante as convenções do partido. Nas últimas duas semanas do mês, a campanha de Biden gastou US$ 35,9 milhões na televisão, em comparação com US$ 4,8 milhões de Trump, de acordo com a Advertising Analytics.

“Estamos segurando o dinheiro para garantir que teremos o poder de fogo de que precisamos” para os próximos meses, disse Jason Miller, estrategista sênior de Trump, que afirmou que a exibição de anúncios durante as convenções seria um desperdício para Biden. “Queremos ter certeza de que o estamos economizando para quando realmente for importante, quando for mudar a situação."

Miller defendeu o gasto de dinheiro em anúncios de televisão no início há alguns meses, caracterizando-o como uma decisão “difícil” e necessária para garantir que Trump continuasse competitivo enquanto o país sofria com a pandemia e suas consequências econômicas. “Tivemos de cavar nosso espaço de novo”, disse ele.

Uma das razões pelas quais Biden conseguiu eliminar a margem de caixa inicial de Trump foi que ele conteve drasticamente os custos com uma campanha minimalista durante os piores meses da pandemia. Funcionários de Trump zombeteiramente rejeitaram a estratégia, dizendo que se tratava de uma “estratégia de porão”, mas foi dentro desse porão que Biden abraçou totalmente a arrecadação de fundos por Zoom, pedindo que os principais doadores doassem até US$ 720 mil.

Esses eventos virtuais geralmente tomam apenas 90 minutos do tempo do candidato, podem arrecadar milhões de dólares e não custam quase nada. Trump se recusou quase inteiramente a realizar tais eventos de arrecadação de fundos. Os assessores dizem que ele não gosta.

Batendo à porta para conquistar eleitores

Há alguma discordância na operação de Trump sobre a profundidade de uma possível escassez de dinheiro em caixa. Alguns dirigentes acreditam que muito mais dinheiro virá de doadores online nos últimos dois meses e que o corte na publicidade na TV em agosto foi uma falta de visão. A campanha anunciou uma arrecadação combinada de US $ 76 milhões com o partido durante os quatro dias da convenção.

Outros disseram que a campanha esperava que a arrecadação de fundos de baixo valor continuasse no mesmo ritmo e também contava com um número significativo de cheques de US$ 5,6 mil, o limite para doações diretas de campanha, o que não se concretizou, em parte porque eles dependem de eventos presenciais, os quais ficaram mais difíceis com o vírus.

Alguns oficiais do partido defenderam os gastos iniciais, argumentando que foram prudentes, até mesmo o dinheiro dedicado à expansiva operação de campo e a uma rede online de doadores que estava estabelecendo recordes de arrecadação de fundos. O Partido Republicano tem mais de 2 mil funcionários em 100 escritórios e afirma que os voluntários batem em 1 milhão de portas por semana; a campanha de Biden evitou bater às portas até agora, por causa da pandemia.

“A campanha de Biden está acumulando dinheiro e esperando que os anúncios de TV das próximas semanas os ajudem a abrir vantagem”, disse Richard Walters, chefe de gabinete do Comitê Nacional Republicano. “Mas, quando um Estado fica por 10.700 votos, como aconteceu em Michigan no ano de 2016, pensamos que o fundamental será o contato direto com o eleitor – aqueles milhões de telefonemas e batidas às portas que fazemos toda semana."

Muitas das especificidades dos gastos de Trump são opacas: desde 2017, a campanha e o Comitê Nacional Republicano levantaram US$ 227 milhões por meio de uma única empresa de responsabilidade limitada ligada aos funcionários da campanha de Trump. Essa empresa, a American Made Media Consultants (AMMC), tem sido usada para colocar anúncios na televisão e na internet e foi objeto de uma recente queixa da Comissão Eleitoral Federal, sob o argumento de que foi usada para disfarçar o destino final dos gastos, os quais incluíram cheques de pagamento a Lara Trump e Kimberly Guilfoyle, companheiras dos dois filhos adultos de Trump.

Outros milhões seguiram para empresas ligadas ao Comitê Nacional Republicano e a funcionários ligados a Trump, incluindo mais de US$ 39 milhões para duas empresas, Parscale Strategy LLC e Giles-Parscale, controladas por Parscale desde o início de 2017.

Parscale disse que “não tinha propriedade ou interesse financeiro na AMMC” e que havia negociado “um contrato com a família por 1% dos gastos com os anúncios digitais, mas, depois de se tornar gerente de campanha”, não cobrou a porcentagem.

'Você tem que gastar dinheiro para ganhar dinheiro'

Há poucas dúvidas de que Parscale ajudou a campanha de Trump a construir uma inigualável operação republicana para atrair pequenos doadores online. Ele dirigiu um investimento de nove dígitos em anúncios digitais e construção de listas que parece ter compensado o custo, em grande parte. Alguns dos conselheiros do presidente acreditam que o investimento continuará a render grandes dividendos nas semanas finais, apontando para os US$ 165 milhões levantados pelo presidente e seu partido em julho – mais do que qualquer outro mês de 2016.

“Você tem que gastar dinheiro para ganhar dinheiro”, explicou Walters, chefe de gabinete do Comitê Nacional Republicano. “Tivemos um grande aumento na receita devido aos primeiros investimentos que fizemos em mala direta e arrecadação de fundos online."

Ainda assim, os custos da operação do Partido Republicano foram gigantescos. Desde 2019, Trump, o Comitê Nacional Republicano e seus comitês compartilhados gastaram US$ 145 milhões em custos relacionados à operação de mala direta, quase US$ 42 milhões na aquisição e aluguel de listas digitais (para expandir sua lista de endereços de e-mail) e dezenas de milhões a mais em publicidade online para novos doadores).

Os republicanos, por exemplo, vêm se deparando com custos legais extras, mais de US$ 21 milhões desde 2019, resultantes das investigações sobre Trump e, por fim, seu julgamento de impeachment. O Comitê Nacional Republicano também pagou uma grande conta jurídica de US$ 666.666,67 à Reuters News & Media no fim de junho. Tanto a Reuters quanto o Comitê Nacional Republicano se recusaram a discutir o pagamento, o qual foi classificado como “procedimentos legais – resolução de PI”, sugerindo que estava relacionado a um possível litígio sobre propriedade intelectual.

Ocorreram outros desperdícios impulsionados pelos desejos às vezes mercuriais de Trump. Ele mudou seus planos de convenção duas vezes, o que gerou muitas despesas ao longo do caminho. Em julho, por exemplo, o Comitê Nacional Republicano fez um pagamento de US$ 325 mil ao Ritz-Carlton Amelia Island, perto de Jacksonville, pela convenção que jamais aconteceu no local. Não se espera que o partido receba esse dinheiro de volta. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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